Lula promete mais ensino de matem�tica, �rea considerada a mais cr�tica da educa��o no Brasil

Lula promete mais ensino de matem�tica, �rea considerada a mais cr�tica da educa��o no Brasil

No discurso de vitória, o presidente Lula (PT), reeleito neste domingo (25), disse que vai ensinar mais matemática. Para o petista, investir na área, a mais crítica da educação brasileira, vai levar o país a sair das "vias de desenvolvimento" para se transformar num "país desenvolvido". "Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana, eu quero criar uma brasileira", disse o presidente sobre o que pretende para seu quarto mandato. Especialistas em educação avaliam que a declaração aponta corretamente para um dos principais desafios do país: melhorar a aprendizagem dos estudantes. Avançar no ensino de matemática, afirmam, é essencial não apenas para elevar a qualidade da educação, mas também para desenvolver competências importantes em outras áreas do conhecimento e ampliar as perspectivas econômicas do país. "É muito difícil mexer no ponteiro da qualidade da educação sem mexer no ensino de matemática. Garantir que os alunos aprendam o esperado nessa disciplina vai fazer com que compreendam melhor outras áreas do conhecimento, desenvolvam pensamento crítico, solução de problemas, ganhem confiança e desejem continuar estudando", diz Katia Smole, diretora-executiva do instituto Reúna. No ano passado, o Ministério da Educação lançou o Compromisso Nacional Toda Matemática, a primeira política pública do governo federal voltada especificamente para a disciplina. Para as especialistas, a ação mira na direção correta, mas ainda não tem a intensidade necessária para produzir mudanças mais expressivas na aprendizagem. "É um programa muito bem estruturado e que já induziu estados e municípios a se mobilizarem por melhorias no ensino de matemática. Agora, quando o presidente fala em fortalecer essa área, a gente espera a previsão de mais recursos", diz Kátia. Em 2025, o MEC previu cerca de R$ 70 milhões ao programa para investir na formação de professores e gestores, produção de materiais didáticos e ações pedagógicas. O montante representa menos de 15% dos recursos destinados, no mesmo ano, ao CNCA (Compromisso Nacional Criança Alfabetizada). "Há muito tempo o Brasil enfrenta uma defasagem grande em matemática. Nos últimos anos, tivemos avanços muito tímidos no aprendizado dos alunos nesta área. Por isso, precisamos de ações mais robustas para enfrentar esse desafio", diz Priscila Cruz, presidente do Todos pela Educação. Em nota, o MEC disse que prevê dobrar o orçamento para R$ 140 milhões do Toda Matemática em 2027. "Os resultados mostram que temos desafios históricos na aprendizagem matemática, mas também indicam que é possível avançar quando há políticas consistentes, continuidade das ações e articulação entre os diferentes níveis de governo", diz. A aprendizagem dos estudantes da rede pública brasileira avançou nas últimas duas décadas, mas a melhora é considerada ainda pequena em matemática. Em português, os avanços são mais expressivos. Dados do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) mostram que o percentual de estudantes com aprendizagem adequada em matemática no 5º ano do ensino fundamental mais do que triplicou entre 2002 e 2025—passando de 14,8% para 50,6%. O avanço perde ritmo conforme os alunos avançam na trajetória escolar. No 9º ano do ensino fundamental, o percentual de estudantes com aprendizagem adequada passou de 7,9% para 18,8% no mesmo período. Já no 3º ano do ensino médio passou de 5,2% para 8,5%. Ou seja, menos de 1 em cada 10 estudantes da rede pública chega ao fim da educação básica tendo aprendido o esperado na disciplina. O Pisa, principal avaliação internacional da educação básica, também mostra que o menor desempenho do Brasil é em matemática. Enquanto em ciências e leitura quase metade dos estudantes tem nível básico de proficiência esperado até os 15 anos, em matemática, esse percentual era de 28%, em 2025. A dificuldade de avançar na disciplina está relacionada, em parte, à natureza cumulativa do aprendizado. Novos conceitos dependem do domínio de conhecimentos anteriores, o que faz com que lacunas nos primeiros anos escolares comprometam a compreensão de conteúdos mais complexos. "Se o aluno não desenvolveu uma habilidade no início da vida escolar, isso prejudica a aprendizagem futura. É uma bola de neve que vai crescendo ao longo dos anos", diz Nara Bobko, gerente acadêmica do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Especialistas apontam que o problema não se resume à dificuldade individual de estudantes. Entre os gargalos estão lacunas na formação dos professores, dificuldades para identificar e corrigir defasagens de aprendizagem e práticas de ensino que nem sempre permitem aos alunos compreender os conceitos antes de avançar para conteúdos mais complexos. Para enfrentar esse cenário, dizem, não basta ampliar a quantidade de aulas ou cobrar melhores resultados nas avaliações. É preciso garantir que as crianças desenvolvam as habilidades fundamentais desde os primeiros anos escolares, oferecer formação continuada ligada aos desafios reais da sala de aula. Por isso, as especialistas defendem que ações para melhorar o ensino de matemática comecem ainda nos primeiros anos escolares. "Na história do Brasil, sempre que se falou na alfabetização na idade certa, o foco sempre foi na leitura e nunca se pensou na alfabetização matemática. Essas duas coisas precisam andar juntas: crianças alfabetizadas nas duas linguagens aprendem muito melhor ao longo do tempo", diz Katia. Um dos maiores desafios está na preparação dos professores responsáveis por ensinar a disciplina. Nos anos iniciais do ensino fundamental, a matemática costuma ser ministrada por professores com formação generalista, principalmente em pedagogia. Nos anos finais e no ensino médio, o ensino fica a cargo de docentes com formação específica, mas isso não elimina as dificuldades de domínio do conteúdo ou de aplicação de estratégias pedagógicas adequadas. Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre o sistema educacional brasileiro aponta fragilidades na formação inicial de professores, com cursos que dão pouca ênfase à prática pedagógica. Para Priscila, o governo Lula já propôs medidas importantes para corrigir esse problema, como a proibição dos cursos de licenciatura ministrados totalmente a distância. "É uma ação na direção certa, mas que ainda precisa ser aprimorada." O estudo da OCDE mostra que a formação docente precisa estar mais conectada a situações concretas da sala de aula, com análise dos erros dos estudantes e acompanhamento do aprendizado. Uma criança que erra uma conta com frações, por exemplo, pode não ter compreendido o significado do denominador ou pode estar aplicando mecanicamente uma regra. Sem identificar a origem do erro, o professor arrisca repetir a explicação sem resolver a dificuldade que impede o avanço. Experiências de outros países sugerem que mudanças na organização do currículo e no trabalho dos professores podem produzir avanços. Em Singapura, que tem o segundo maior desempenho no Pisa, o currículo combina o domínio dos conteúdos com o desenvolvimento do raciocínio, da capacidade de resolver problemas e da confiança dos estudantes na disciplina. A abordagem dá importância à compreensão dos conceitos, em vez de priorizar apenas a memorização de procedimentos. Desenvolvimento econômico A relação entre o ensino de matemática e o desenvolvimento econômico também ajuda a explicar a importância do tema. "A tecnologia que move a economia hoje é feita de matemática. Para que o Brasil possa criar e não apenas consumir essas tecnologias, como a IA, nós precisamos garantir que as pessoas aprendam matemática e desenvolvam essas habilidades", afirma Nara. Ela lembra que estudos feitos em diversos países apontam para o impacto positivo da matemática na economia. Uma pesquisa feita pela consultoria Deloitte, por exemplo, identificou que a atividade econômica ligada à matemática é responsável por 10% dos empregos e por 16% do PIB (Produto Interno Bruto) do Reino Unido. Estudos feitos em outros países, como Holanda, França, Austrália e Espanha, chegaram a conclusões semelhantes. No Brasil, uma análise feita pelo Itaú Social no fim de 2022 identificou que a matemática correspondia a 7,4% dos empregos e gerava 4,6% do PIB —cerca de R$ 44 bilhões ao ano. A análise conclui que, se o país alcançasse níveis de empregabilidade em áreas relacionadas à matemática semelhantes aos de economias mais avançadas, poderia ter um acréscimo de R$ 1,3 trilhão ao PIB, todo ano, segundo as estimativas do estudo.

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