Lula precisa dialogar com evang�licos, n�o fazer culto no palanque

Lula precisa dialogar com evang�licos, n�o fazer culto no palanque

Foi noticiado nesta Folha que a campanha de Lula está dividida sobre fazer ou não um ato voltado ao segmento evangélico. Seria um erro político e pedagógico tratar os evangélicos como um bloco eleitoral. Evangélicos são plurais; qualquer evento desse tipo dialogaria apenas com uma parcela do grupo. Há um setor fortemente identificado com o discurso de que "cristão não vota na esquerda". Para esse grupo, a rejeição ao PT não é apenas uma preferência eleitoral; tornou-se parte de uma identidade política e religiosa. Seus integrantes não participariam de um evento de Lula ou estariam dispostos a considerar os argumentos apresentados pelo candidato. Há também os evangélicos separatistas, que não gostam de misturar religião e política, especialmente em períodos eleitorais. Para eles, a questão central não é a divisão entre esquerda e direita, mas a rejeição à transformação da fé em instrumento de disputa partidária. Por fim, há lideranças evangélicas fisiológicas, muitas delas integradas a partidos do Centrão. Elas não acreditam necessariamente no mantra de que "cristão não vota na esquerda", até porque várias já votaram em Lula ou ocuparam cargos em seus governos. Mas não têm interesse em aproximar a esquerda dos evangélicos, pois se beneficiam eleitoralmente da distância entre o lulismo e o eleitorado evangélico conservador. Um ato de Lula com evangélicos reuniria sobretudo lideranças e fiéis já próximos da esquerda. Lula correria o risco de pregar aos convertidos e, ao mesmo tempo, oferecer aos adversários uma imagem fácil: a de alguém tentando instrumentalizar a religião em plena campanha. Isso significa que Lula não tem nada a dizer aos evangélicos? Ou que deve assistir passivamente à instrumentalização da fé evangélica pelo candidato bolsonarista? Não. Significa apenas que um ato eleitoral específico talvez seja o pior instrumento para construir essa conversa. Lula não precisa realizar um evento para mostrar que não fechou igrejas nem implementou políticas públicas contra o modelo tradicional de família. No fim das contas, essas são duas das principais razões invocadas por setores evangélicos para não votar nele. A rejeição organizada de parte desse eleitorado ao lulismo ganhou força com o terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, lançado em 2009. O documento incorporava temas como orientação sexual e identidade de gênero, e seus adversários o apresentaram como ameaça à família. Desde então, espalhou-se entre setores evangélicos a ideia de que o PT seria um partido contra a família. Não por acaso, uma das principais sinalizações de Jair Bolsonaro aos evangélicos foi a escolha de Damares Alves para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A nomeação comunicava que as pautas morais de setores religiosos seriam parte central da agenda do governo. Lula não precisa assumir compromissos com retrocessos em direitos conquistados para dialogar com o segmento evangélico conservador. Mas pode reconhecer que parte desse público tem preocupações reais com mudanças culturais aceleradas, educação dos filhos e lugar da família na sociedade. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Uma política de diálogo poderia começar pela composição de um futuro Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania com interlocutores capazes de ouvir também esse segmento religioso. Isso teria mais alcance político do que uma operação eleitoral pontual e mais consistência do que a simples distribuição de cargos. A tarefa não é fácil. Trata-se de colocar à mesa grupos que defendem a expansão dos direitos humanos e grupos que se sentem incomodados com essa nova realidade social. Mas se Lula se dispuser a construir esse diálogo sem transformar direitos em moeda de troca, a democracia brasileira sairá ganhando. Seria uma demonstração de que ouvir os evangélicos não significa curvar-se ao conservadorismo religioso e de que defender direitos humanos não exige tratar milhões de evangélicos como inimigos políticos. Esse seria um caminho mais longo do que um ato de campanha, mas também mais útil do que ele.

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