Sob o risco de uma derrota que pode antecipar o fim de sua carreira política, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abandonou qualquer prurido no uso da máquina pública em favor de sua candidatura. A desordem orçamentária que promoveu com medidas eleitoreiras já soma R$ 291 bilhões neste ano e no próximo —um legado amargo para a futura administração. Só no Orçamento de 2027, ainda em discussão no Congresso, será necessário fazer ajustes imediatos de quase R$ 40 bilhões em despesas primárias (não financeiras), dada a enxurrada de benesses na reta final da campanha. Apenas nas últimas semanas, houve reajuste do Bolsa Família, Desenrola 3, proibição de apostas online, pacote Prospera MEI (com perdão de dívidas, aumento de teto e Pix), ampliação do Pé-de-Meia para universitários e a promessa de transporte público gratuito aos fins de semana. Essas iniciativas não estavam planejadas e, em boa parte, carecem de compensação definida. A correção de 15% do Bolsa Família demandará R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões anuais a partir de 2027. O Desenrola 3 autoriza o Tesouro a comprar dívidas de pessoas físicas com deságio de até 90%, ao custo projetado de R$ 5 bilhões no próximo ano. Com o fim das bets, há perda de R$ 5,3 bilhões em receita. No pacote para microempreendedores individuais, o impacto do perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas ativas é ampliado pelo aumento do limite de faturamento, que gera renúncia permanente de arrecadação tributária. Já a ampliação do Pé-de-Meia para universitários tem impacto de R$ 4,6 bilhões por ano, a ser coberto sobretudo pelo Fundo Social do petróleo, mesmo que o foco legal dessa fonte de recursos seja a educação básica. Especialistas avaliam que é remota a probabilidade de punição efetiva à candidatura por abuso de poder econômico ou político. A legislação eleitoral e a Lei de Responsabilidade Fiscal dificultam o enquadramento: recomposição inflacionária de benefício existente não cria despesa nova no sentido estrito, e gastos discricionários nem sempre exigem compensação imediata. Recorde-se que, em 2022, Jair Bolsonaro (PL) também partiu para o vale-tudo do gasto eleitoreiro —e só depois do desfecho do pleito parte de seu pacote foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Hoje, a situação das contas é pior. A dívida pública ronda 83% do PIB, e a Instituição Fiscal Independente (IFI, ligada ao Senado) estima que o superávit primário necessário para estabilizá-la está na casa de 2% do PIB. O projeto de Orçamento para 2027 prevê superávit de R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB), mas já era considerado irrealista mesmo antes da multiplicação de novos gastos da campanha eleitoral —a projeção da IFI é de déficit de R$ 86,1 bilhões. Sem ajuste profundo, haverá mais pressões sobre a inflação, juros exorbitantes e recessão batendo à porta. editoriais@grupofolha.com.br.
Lula perde pruridos no uso eleitoral da m�quina p�blica
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