A virada histórica de Lula teve muitos fatores, mas um nome se destaca: André Janones. O canal de transmissão no WhatsApp com 10 milhões de apoiadores, mais o engajamento maciço no Instagram —superando o de Flávio na maioria dos dias do segundo turno— foram centrais na virada. A lambança protagonizada por TSE e STF abre margem para os questionamentos feitos pela campanha de Flávio. Será simples mostrar, contudo, que os poucos votos adicionais depositados nas urnas cujo horário foi estendido nem de longe explicam a vitória decisiva de mais de 4 milhões de votos. O próprio presidente do TSE, Nunes Marques, insuspeito de ser lulista, reconhece a lisura do resultado. Com essa vitória, o Brasil foi poupado da incógnita institucional do que seria um governo Flávio. Mas a perspectiva para o quarto governo Lula é desafiadora. Lula terá que governar com o Congresso —especialmente Senado— mais hostil que ele já teve. O Supremo, que tantos serviços lhe prestou no terceiro mandato, está agora mais acuado e dependerá do aval do Senado de direita para preencher a vaga faltante. Flávio não ganhou, mas a bandeira de impeachment de ministros continua viva e os senadores enfrentarão a cobrança de seus eleitores. Lula se deparará também com uma situação econômica de endividamento público crescente e juros altos, fazendo a economia parar. A conta a ser paga a partir do ano que vem é ainda mais elevada graças aos gastos desenfreados na reta final das eleições. Aumento e antecipação do bolsa-família, subsídio e desoneração dos combustíveis, Desenrola dos MEIs, "Pix MEI", transporte gratuito nos fins de semana. A IFI (Instituição Fiscal Independente) estima em R$ 63,2 bilhões as despesas já contratadas durante as eleições para 2027. O que Lula fará quanto a esses dois desafios, o da governabilidade e o da economia? Quanto ao segundo, ele tem dado uma resposta muito clara ao longo da campanha: o caminho para reduzir a razão dívida/PIB não é cortando gasto, e sim fazendo o PIB crescer. Por isso mesmo não precisou se comprometer com nenhum corte. Agora chegou a hora de revelar se esse discurso será mesmo a política econômica de Lula 4 ou se algum tipo de ajuste fiscal fará parte do novo mandato. Na outra frente, a da governabilidade, Lula não foi tão claro ao longo da campanha. Mas ontem, nos discursos que se seguiram à vitória, deu uma pista: ao louvar Janones, disse que a comunicação direta com o povo —falando e ouvindo— será agora parte de seu governo. Criticou a imprensa e prometeu a regulação das plataformas digitais. De fato, a mobilização popular —nas ruas e nas redes— é um ativo que deve continuar com o governo mesmo depois da vitória. E desde o ano passado vimos como a pressão popular pode forçar o Congresso a mudar seu curso (como na PEC da Blindagem). Desta vez, ao contrário de 2022, nenhum partido de centro ou de direita veio compor com Lula; é Lula e o povo, ou esse parece ser o recado. Pode ser que Lula estivesse só esperando a vitória para aí sim revelar que fará um governo com responsabilidade fiscal e com disposição de compor com os partidos do Congresso —e, portanto, de ceder a eles. Mas se por acaso o espírito de triunfalismo falar mais alto do que o pragmatismo, ele vai rapidamente se confrontar com alguns limites. O primeiro é econômico: na falta de sinais claros de que o governo fará algum tipo de ajuste, câmbio, bolsa e juros futuros começarão a piorar desde já, com impacto na economia real. E o Congresso não deve ceder tão fácil. Foi no auge das bravatas bolsonaristas contra o Congresso em 2019 —ano em que o governo contava com protestos mensais nas ruas contra Rodrigo Maia— que o Congresso aprovou a impositividade das emendas de bancada. As ruas impõem alguns limites, mas não governam. Seja como for, Lula 4 promete ser difícil para todos os envolvidos: governo, Congresso, Supremo e nós. Saímos desgastados de mais uma eleição polarizada. Lula terá a chance de fechar sua carreira política com a chave de ouro que faltou no terceiro mandato, mas unir o Brasil, ser pragmático e governar com uma frente ampla vão na direção contrária ao sentimento de onipotência que se sucede a uma vitória triunfal. Logo mais descobriremos.
Lula far� o que disse na campanha?
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