O primeiro debate presidencial da eleição de 2026 ficou marcado antes pelas faltas do que pelas presenças. Com três candidatos no palco, o evento registrou o menor número de participantes em um confronto inaugural desde 1989, quando o país retomou o voto direto para o Executivo federal. O baixo número de postulantes não é um problema em si. A experiência acumulada ao longo das décadas atesta que a multiplicidade de nomes sem expressão pouco contribui para o propósito do encontro —isso quando não o transforma em um campeonato de bufonaria e vulgaridades. Ocorre que, desta vez, entre os ausentes estavam os dois líderes das pesquisas de intenção de voto: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que chegou a 39% das preferências na mais recente rodada do Datafolha, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com 33% no mesmo levantamento. Com a decisão de não comparecer ao evento promovido pelo Grupo Bandeirantes, pelo jornal O Estado de S. Paulo, pela TV Cultura, pela Gazeta e pela Jovem Pan, tanto Lula quanto Flávio deixaram claro que põem as estratégias de campanha acima de rituais básicos em uma democracia. Debates cumprem uma função importante no contexto eleitoral: estimulam o confronto direto entre as ideias dos principais candidatos a um determinado cargo público. Permitem, dessa forma, que as pessoas analisem as propostas sob a perspectiva privilegiada do contraditório. Verdade que o resultado nem sempre é satisfatório. Regras rígidas impostas pelas próprias campanhas não raro esterilizam o confronto, permitindo que os postulantes lancem mão de muitas evasivas e prestem poucos esclarecimentos acerca do que pretendem fazer caso sejam eleitos. Ainda assim, são um momento único no pleito. Palanques, propagandas e vídeos nas redes sociais constituem o domínio do marketing, enquanto entrevistas não se prestam ao cotejamento de diversas candidaturas. Quando Lula e Flávio dão as costas ao debate —para nada dizer do nanico Romeu Zema (Novo), que também faltou ao evento—, eles estão afirmando que não pretendem discutir o país longe de suas zonas de conforto. Com a ausência dos três, Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) não conseguiram empolgar quem assistiu ao encontro. Mais do que isso, desperdiçaram boa parte do tempo com ataques a Lula e Flávio, em vez de aproveitarem para expor suas propostas. Renan, em particular, pareceu se espelhar no péssimo exemplo de Pablo Marçal (PRTB), que, em 2024, comportou-se como arruaceiro juvenil na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Na época, José Luiz Datena, nome do PSDB, interrompeu as ofensas com uma abominável agressão física. No domingo (23), não houve nada parecido com isso. Mas, quando decidiram faltar ao debate, Lula e Flávio deram um simbólico tapa na cara dos eleitores. editoriais@grupofolha.com.br
Lula e Fl�vio d�o tapa na cara do eleitor
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