Lula e Bolsonaro s�o totens seguidos por um bando de neol�ticos furiosos

Lula e Bolsonaro s�o totens seguidos por um bando de neol�ticos furiosos

Há muito tempo opto por pensar os assuntos humanos a partir de uma visão de longa duração —conceito do historiador Fernand Braudel. Nessa abordagem metodológica, os eventos pontuais são vistos numa linha do tempo bem mais ampla do que décadas ou séculos. É deste ponto de vista que vejo a miséria da corrupção sistêmica do Estado brasileiro, incluindo aí o finado Supremo Tribunal Federal. Devo dizer que, quando me refiro à corrupção sistêmica miserável do Estado brasileiro, incluindo aí o finado STF, refiro-me tanto à corrupção de caráter mediada pelo dinheiro quanto à corrupção de caráter das instituições mediada por adesão ideológica ou partidária. Neste segundo caso, o drama se torna ainda mais agudo quando atinge o STF e o Judiciário em geral, o Ministério Público —neste tópico específico, ver a decisão do MPF de não investigar Paulo Gonet da PGR—, e os agentes do pensamento público nos veículos profissionais de mídia, torcendo abertamente para um dos candidatos à Presidência da República. Sobre este último caso, acho a tipologia do filósofo americano Jason Brennan bastante didática, posta em seu provocativo "Against Democracy". Os eleitores estariam divididos em três categorias: os "hobbits", os "hooligans" e os "vulcanos" —como o Spock do seriado "Jornada nas Estrelas". Os primeiros, o povo em geral, correndo de um lado para o outro, pagando boletos e com escassos recursos de economia da atenção para gastar com política. Os segundos, disputando alucinadamente os primeiros, a maioria esmagadora da população, a fim de levá-los a votar nos seus candidatos —os "hooligans" são os militantes enfurecidos e polarizados. E, finalmente, os terceiros, munidos de um repertório muito maior sobre política e suas contradições constantes, céticos em consequência desta mesma experiência com a nulidade das esperanças políticas. Pois bem, suspeito fortemente que agentes do pensamento público deveriam ser todos "vulcanos", mas, infelizmente, a esmagadora maioria é constituída por "hooligans" disfarçados. Proponho um breve diálogo com o filósofo americano Francis Fukuyama. No seu "Origens of Political Order - From Prehuman Times to French Revolution", o autor afirma que a tendência do comportamento político, tanto dos líderes quanto da população em geral, é seguir a "política de parentesco", provavelmente datada da era pré-histórica, dentro da história ancestral dos grupos sociais. Política de parentesco é um caso de política dos homens, em oposição à política das leis. Segundo Fukuyama, esta última é muito mais difícil de ser realizada, uma vez que "a natureza humana" —não vou discutir esse vespeiro aqui, mas ele usa essa ideia, inclusive, no seu recém-lançado "In The Realm of The Last Man, a Memoir"— tende à primeira disposição. A política de parentesco pode ser tanto relações de sangue —laços familiares ou de clã—, quanto relações totêmicas ou simbólicas. Suspeito que o caso de corrupção de caráter das instituições, ou mesmo, apenas, dos homens, mediada por adesão ideológica apaixonada, como na polarização, se encaixe perfeitamente neste tópico. A política das leis, a mesma do idealizado Estado moderno laico, não pegou porque vai contra a tendência ancestral dos homens e mulheres. Família, clã, totem, simbólico partilhado, deuses, bandos, bolhas, gangues, enfim, tudo que tem a seu favor a inércia de uma espécie pré-histórica que posa com ares de moderna. A política das leis luta, a cada minuto, contra essa inércia, e perde na maioria dos grupos sociais e dos países, inclusive no Brasil. Perde, muitas vezes, mesmo, nas grandes instituições da República, por meio da corrupção de caráter, mediada pela fidelidade ao bando, conhecida entre nós por "blindagem corporativa", nos casos recentes do STF e do Ministério Público. Lula é um totem, o Bolsonaro outro. Ambos são totens, seguidos, cegamente pelo bando de neolíticos que compõem o cenário político-ideológico nacional. A própria ideia de busca de objetividade não pegou na espécie, assim como a leitura como prazer e não só por necessidade funcional. A tentativa de impor uma relação com o mundo e com a política, mediada pela razão e sua busca pela objetividade, foi um surto breve de homens europeus obsessivos, derrotada pela história posterior aos séculos 16, 17 e 18, até hoje. Com o fracasso desse projeto aqui, ruíram os mecanismos de "democratic accountability" do sistema político. Não há como cobrar nenhuma responsabilização do Estado, do STF ou do Ministério Público no Brasil. Perdeu-se a compostura, a vergonha e o futuro. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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