Desde a eleição de 2018, tornou-se lugar-comum afirmar a dificuldade de diálogo de Lula com o segmento evangélico. É nessa fatia da população que há maior concentração de intenção de voto em Flávio Bolsonaro em 2026, assim como foi esse grupo que votou massivamente em Jair Bolsonaro em 2018 e 2022. Algo na relação entre Lula e os evangélicos não funciona, mas qual seria o problema? Em primeiro lugar, é preciso dizer que nem sempre foi assim. Nos dois primeiros mandatos de Lula, assim como no período em que Dilma esteve na Presidência, a presença evangélica no governo era evidente. Silas Malafaia pediu votos para Lula em 2002. Marcelo Crivella foi ministro de Dilma. José Alencar, vice de Lula, foi filiado ao PRB (Partido Republicano Brasileiro, hoje chamado apenas de Republicanos), legenda à época explicitamente ligada à Igreja Universal do Reino de Deus. Foi com a entrada de Jair Bolsonaro no cenário da disputa presidencial que esse caldo entornou para Lula. Bolsonaro deu visibilidade à pauta moral religiosa, transformando-a em sua própria plataforma de discurso. Atuou para se colocar como porta-voz dos evangélicos e, ao mesmo tempo, trouxe para perto figuras políticas importantes do segmento nos campos partidário e religioso. Além disso, claro, tinha Michelle ao seu lado, com um forte e competente trabalho de base. Já do lado de Lula, no pós-2018, o diagnóstico dos analistas usualmente gravitou em torno da falta. Nessa leitura, Lula não alcançaria maior aprovação e intenção de voto entre os evangélicos porque faltaria ao petista melhorar sua comunicação, faltaria fazer-se mais presente nas igrejas, faltaria diálogo com líderes religiosos. Agora, às vésperas da eleição de 2026, essa mesma interpretação persiste. No entanto, já passou da hora de desconfiarmos desta tese e reconhecermos os seus equívocos. O problema da análise pela falta é que ela pressupõe duas inverdades concomitantes. A primeira é uma espécie de hiperagência de Lula, cujo sucesso com o segmento evangélico dependeria exclusivamente de suas ações e ajustes discursivos. Por isso mesmo, se não está funcionando, é porque Lula ainda não fez as pontes que deveria, não estabeleceu os diálogos necessários ou não deu sinais suficientes. A segunda inverdade é inversa, retira dos evangélicos a condição de agentes políticos, como se eles apenas respondessem aos movimentos de Lula —eles seriam acometidos por uma hipoagência. Nesse caso, conquistar a intenção de voto do segmento seria sempre possível. E o teto da conversão de votos seria mais uma questão da competência ou não de Lula do que de um limite de elasticidade do próprio grupo. Aos que ainda insistem na tese da falta, vale lembrar que, durante o terceiro mandato, os movimentos de Lula em direção aos evangélicos foram muitos. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha No plano simbólico, sancionou o Dia Nacional do Pastor, o Dia Nacional da Música Gospel e a Semana Nacional de Retiros. No plano concreto, estabeleceu parcerias com igrejas evangélicas para identificar pessoas em situação de pobreza, fome ou desemprego e para facilitar o acesso a programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. E, entre um plano e outro, promoveu encontros com pastores e lideranças religiosas. Desde o fim da campanha de 2022, Lula oscila numa faixa minoritária do eleitorado evangélico e, apesar dos sucessivos gestos de aproximação, não produziu até aqui uma mudança estrutural nesse quadro. Reconhecer esse teto não significa desistir do eleitor evangélico, mas abandonar a fantasia de que toda distância política é uma falha de comunicação. Por mais óbvia que a observação possa parecer, em tempos em que se imagina que o marketing político pode tudo, devemos dar um passo atrás e insistir que nem todas as montanhas podem ser movidas. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Lula bateu no seu teto entre os evang�licos
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.