Como seria um disco do Ludovic hoje, 20 anos depois do anterior? Responder a esta pergunta, que Jair Naves, o vocalista da banda, se fez como uma fantasia, foi um dos impulsos para o grupo se trancar no estúdio e gravar "Ludovic", seu terceiro álbum. "Eu acho que a gente não aguentava mais tocar as músicas antigas", diz, em tom de brincadeira, o guitarrista Zeek Underwood. Muito aguardado por fãs —pegos meio de surpresa com a notícia de que havia músicas inéditas sendo compostas pela banda—, o disco novo chega nesta sexta-feira ao streaming. São 42 minutos de rock rasgado com o espírito dos anos 1990, em dez faixas, precedidas por uma introdução instrumental. É o mesmo Ludovic dos discos "Servil", de 2004, e "Idioma Morto", de 2006, se considerarmos as guitarras viscerais e as letras algo filosóficas, que pedem repetidas audições para se mergulhar na poesia de Naves —"meu nome só tem consoantes/ de uma estridência dissonante/ o som mais desconcertante/ que alguém já pôde ouvir", canta ele em "Nenhum Carma". Mas o novo trabalho é também a radiografia de uma banda atualizada, com os integrantes duas décadas mais maduros, mais sábios como músicos. Isso se reflete em composições ricas em detalhes, ressaltados pela produção limpa, cristalina, que recompensa quem ouve o álbum nos fones de ouvido. "A empolgação do desafio era fazer um disco que não fosse só uma simulação de quem nós éramos com 20 anos de idade", diz Naves, responsável pelos vocais, baixo, violão e sintetizadores. Eduardo Praça, também guitarrista, acrescenta que havia uma ansiedade para os integrantes trazerem um frescor para a banda, novidades aprendidas por eles em projetos à parte do Ludovic. Por exemplo, a sonoridade atmosférica da balada "Urge" e a introdução de "Me Incendiar", em que a música parece se decompor, têm relação com o trabalho de Praça. Solo, ele lança discos com o nome artístico de Apeles e cria trilhas sonoras para filmes, inspirado pelas composições ambiente de Brian Eno e Vangelis. Outras surpresas são o violão distorcido e o sintetizador em "Irmã Pólvora". São elementos inéditos para o quarteto, que segue processando, à sua forma, o barulho de ícones do rock alternativo como Pavement, Television, My Bloody Valentine e outros nomes —os riffs de "Nenhum Carma", compostos por Underwood, poderiam estar em qualquer disco do Sonic Youth, assim como a parede de guitarras dos segundos finais. O álbum novo foi registrado em etapas ao longo de um ano, no estúdio El Rocha, em São Paulo, por Fernando Sanches, um membro não oficial do Ludovic que toca baixo em alguns shows. O processo, muito diferente do disco "Idioma Morto" —que teve as guitarras gravadas em apenas dois dias—, resultou numa obra mais domada, por assim dizer, mas sem perder o vigor. "Teve uma reflexão muito maior, um cuidado maior com os detalhes", diz Naves sobre o disco. "É menos urgente." Segundo o cantor, os trabalhos anteriores, que ele qualifica de "selvagens, quase anárquicos", tinham vocais mais falados e gritados porque aquelas eram suas primeiras experiências no microfone e a sua verve melódica não estava desenvolvida. No novo álbum, ele domina a própria voz e injeta mais melodia, cultivada em seus trabalhos solo. No dia 14 de agosto, o Ludovic sobe ao palco em São Paulo para mostrar as músicas do disco, numa noite dividida com os Jovens Ateus, outro nome quente do cenário independente. E, no final de setembro, se apresenta no Balaclava Fest, também na capital paulista. É possível recriar, ao vivo, os detalhes burilados em estúdio para o disco novo? Essa não parece ser uma preocupação da banda, que se apresenta esporadicamente, em shows lotados pelo Brasil e com o público em catarse, desde 2015. Usar bases pré-gravadas para reproduzir a complexidade de um álbum no palco, diz Naves, restringiria o apelo de um show do Ludovic —"isso de ser uma coisa meio solta, com vida própria".
Ludovic, nome forte do rock independente, lan�a disco ap�s duas d�cadas de hiato
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