Longevidade muda din�mica das fam�lias, e av�s assumem mais cuidados e gastos com netos

Longevidade muda din�mica das fam�lias, e av�s assumem mais cuidados e gastos com netos

Aos 77 anos, a dona de casa Izede Zago diz viver a fase de maturidade cercada pela família. Depois de criar as duas filhas e participar da criação dos três netos, que passavam os dias em sua casa enquanto os pais trabalhavam, Izede cozinha as marmitas que o neto Theo, 21, leva para o trabalho. Os três já são adultos, mas continuam presentes em seu cotidiano. Theo dorme no apartamento da avó quando precisa ir cedo à empresa e leva as marmitas preparadas por ela. Ele não precisa gastar com comida fora de casa nem com os alimentos para a produção e faz a alegria da avó. "Não tem satisfação maior. É vó 24 horas", afirma Izede. Na casa de Irani Calegari Silva, 70, e José Alberto Pereira da Silva, 76, a neta Rebecca Baldon, 20, é presença mais do que especial. Os três vão juntos à academia e costumam fazer viagens, todas custeadas pelos avós. Eles também são os responsáveis por pagar a faculdade de arquitetura de Rebecca. "Dissemos: 'Se você quiser fazer, pode fazer que a gente assume'", conta Irani. Os casos de Izede e Irani mostram uma realidade cada vez mais comum no Brasil. Com a longevidade acelerada do brasileiro, as alterações no mercado de trabalho e as mudanças nas dinâmicas das famílias, avós têm se dedicado ainda mais aos cuidados dos netos, assumindo também gastos financeiros. Segundo o estudo Tsunami Prateado, da data8, empresa de pesquisa e tendências sobre comportamento e consumo do público 50+, a proporção de brasileiros acima dos 50 anos que cuida de alguém saltou de 37% para 57% entre 2018 e 2026. Do total, 4 em cada 10 apoiam financeiramente os filhos (36%) —muitas vezes para a criação dos netos— e 2 em cada 10 (21%) dizem ter como maior medo ver filhos ou netos mal sucedidos na profissão. O Tsunami Prateado estuda a longevidade no Brasil e os novos comportamentos dos brasileiros desde 2018. Na edição de 2026, ouviu 3.298 brasileiros em todo o país entre os dias 8 e 12 de fevereiro e realizou pesquisa qualitativa com 42 famílias no Sudeste. A margem de erro é de 1,7 ponto percentual. O levantamento mostra justamente uma mudança na dinâmica familiar, com os mais velhos sendo os cuidadores —inclusive financeiramente— por mais tempo, em vez de passarem a ser cuidados. "Aqui no Brasil a gente tem famílias muito aglutinadas, especialmente nas classes mais baixas, e existe um grande desafio que, com esse envelhecimento populacional, as famílias vão ficando cada vez mais encolhidas", diz Lívia Hollerbach, coordenadora da pesquisa. O psicólogo Alisson Guiotto, mestre em ciências do envelhecimento e professor da Universidade Cruzeiro do Sul, afirma que muitos avós hoje assumem funções permanentes no cuidado dos netos e até no orçamento doméstico por conta das mudanças na dinâmica social. "Isso ocorre por diversos fatores, como o aumento do custo de vida, as longas jornadas de trabalho dos pais, o crescimento das famílias monoparentais —com apenas uma mãe ou um pai—, as separações conjugais e as dificuldades econômicas", afirma. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Quando o cuidado se estende para além do casal, ele continua recaindo principalmente sobre outras mulheres: 31% contam com a ajuda da própria mãe e 10% da sogra. Em comparação, avôs, sogros, irmãos e outros familiares aparecem com participação muito menor na rotina. Além disso, 17% das entrevistadas afirmam não contar com nenhum tipo de apoio, enfrentando sozinhas a maior parte dos cuidados. Estudo das Noz Inteligência para o Dia dos Avós, celebrado neste domingo (26), mostra que quando o cuidado com filhos se estende para além do casal, recai sobre as avós: 31% contam com ajuda da própria mãe e 10% da sogra. O levantamento —feito em parceria com o CineMaterna, que organiza sessões de cinema para mães— ouviu 1.138 mulheres com filhos de até dois anos em todo o país. Mirian Rodrigues, presidente do CineMaterna, ressalta a convivência entre gerações como um fator positivo. "As avós são, muitas vezes, um porto seguro para as mães. Celebrar o Dia dos Avós é reconhecer esse trabalho de cuidado, que tantas vezes acontece de forma silenciosa e pouco valorizada." A ciência mostra que há impactos positivos nessa convivência. A participação dos avós na vida dos netos pode trazer benefícios para a saúde física e emocional dos mais velhos, com reflexos positivos no bem-estar psicológico, na memória, na função pulmonar e na percepção geral de qualidade de vida. Izede orgulha-se de ser um apoio para Theo. "Quando o Theo nasceu, a mãe dele queria colocar na escolinha, mas eu não deixei. A vó cuida. Agora, o Theo está trabalhando, fazendo as coisinhas dele, terminando a faculdade. É uma fase que já tem a personalidade dele, não é mais aquele bebê, mas a vó está sempre aqui", diz. A admiração de Irani por Rebecca também é visível. "Ela tem opinião muito forte, mas é muito dócil. É um exemplo", diz a avó. Irani conta que a neta chegou "de surpresa", com uma gravidez inesperada da filha, mas não sabe como seria envelhecer sem ela. "A gente começou ajudando a criar uma neta. No fim, ganhamos uma grande amiga." Nas periferias, a relação não é da mesma forma. O estudo "Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar", também da data8, mostra que o envelhecer nas periferias faz com que os mais velhos permaneçam como sustento das famílias com a renda da aposentadoria, do trabalho —não saem do mercado ou se tornam informais—, mas sem ter o mesmo retorno do cuidado. A pesquisadora Adriana de Queiroz, administradora pública e uma das coordenadoras do levantamento, diz haver um descompasso entre três tempos: viver mais, manter a saúde e ter autonomia financeira. A longevidade aumentou, mas a qualidade de vida e a renda não acompanharam esse avanço. Sete em cada dez pessoas acima dos 50+ (75%) nas periferias afirmam ter mais netos e conviver mais com eles, e cerca de 41% vivem do trabalho autônomo, muitas vezes informal. "Eu trabalho porque preciso, não é por escolha, que é um pouco mais da nossa realidade", afirma Adriana sobre como as classes média e média alta vivenciam o trabalho na maturidade. Milene Dellatore, especialista em finanças e sócia-diretora do Grupo Mide, diz que os avós passaram a ocupar um papel de pilar financeiro em muitas famílias, em apoio enquanto os jovens estudam e dão início à vida profissional. "Moradia, alimentação, educação e saúde ficaram mais caros, e muitos filhos adultos acabam recorrendo aos pais para complementar a renda ou ajudar com os netos", diz. O especialista em investimentos Beny Fard, sócio da B8 Partners, acrescenta que a maior expectativa de vida ajuda a explicar o cenário. "Isso deixa os avós fisicamente mais aptos e disponíveis por mais tempo para assumir esse papel", afirma. Apesar dos benefícios emocionais da convivência, os especialistas defendem que o apoio precisa ter limites, com divisão das responsabilidades entre outros familiares e preservação do tempo de lazer e autocuidado. Para Lívia, que estuda o envelhecimento e o comportamento na maturidade em toda a América Latina em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), ter mais anos de vida e poder se dedicar ao que gosta é positivo. "Nunca na história da humanidade o ser humano atingiu expectativa de vida tão longa, mas uma coisa é como a gente vai gerenciar esses anos para que a gente viva com mais qualidade", diz. Veja os direitos dos avós Quando os avós cuidam dos netos apenas de forma informal, sem decisão judicial, podem enfrentar dificuldades para exercer diversos direitos, mas se tiverem a guarda, há alguns benefícios, como incluir o neto como dependente no Imposto de Renda, ter pensão por morte e tomar algumas decisões legais em nome da criança. Incluir o neto como dependente no Imposto de Renda Avós que têm a guarda judicial dos netos podem incluir os netos como dependentes na declaração do Imposto de Renda Com isso, conseguem deduzir despesas com educação e saúde, além da dedução por dependente Caso o neto tenha rendimentos próprios, é importante fazer simulações antes da declaração para verificar se a inclusão é vantajosa Quem tem a guarda legal pode abater despesas com educação formal e gastos médicos do neto no IR As despesas com saúde não têm limite de dedução, desde que sejam comprovadas No caso dos gastos com escola formal, há dedução limitada a um valor por ano definido pela Receita Federal Deixar pensão por morte do INSS para o neto Desde a mudança na legislação, o menor sob guarda passou a ter direito à pensão por morte do INSS quando o avô ou a avó responsável falece Esse direito pode negado pelo instituto e o avô precisará ir para a Justiça para conseguir decisão judicial favorável Ação no STF (Supremo Tribunal Federal) garante que até mesmo o menor sob guarda —sem a tutela legal— têm direito à pensão, que será paga a seu responsável legal Receber pensão por morte em nome do neto Em situações excepcionais, os avós também podem receber pensão por morte do neto, desde que comprovem que dependiam economicamente dele Esse tipo de pedido costuma ser negado pelo INSS e, em geral, precisa ser reconhecido pela Justiça Pedir pensão alimentícia aos pais da criança Quando obtêm a guarda judicial dos netos, os avós podem cobrar dos pais a pensão alimentícia necessária para sustentar a criança A guarda fortalece juridicamente esse pedido Conseguir a guarda judicial dos netos Os avós podem pedir a guarda quando os pais faleceram, estão ausentes, são negligentes, abandonaram a criança ou vivem em situações que colocam o menor em risco, como violência doméstica ou dependência química Também é possível quando a criança já vive há muito tempo com os avós e essa situação atende ao seu melhor interesse Tomar decisões importantes sobre a vida da criança A guarda judicial permite aos avós matricular o neto na escola, autorizar tratamentos médicos, incluí-lo em plano de saúde e representar a criança em diversas situações do dia a dia Reconhecer a filiação socioafetiva Em alguns casos, quando os avós exercem efetivamente o papel de pais, a Justiça pode reconhecer a filiação socioafetiva Esse reconhecimento produz efeitos jurídicos mais amplos e pode até alterar o registro civil Ter isenção do Imposto de Renda em caso de doença grave Avós aposentados ou pensionistas com doenças graves, como câncer, cardiopatia grave ou paralisia incapacitante, podem ter direito à isenção do Imposto de Renda sobre aposentadorias e pensões O benefício também pode ser concedido a quem já se curou da doença Este é o novo capítulo da série sobre Longevidade da Folha. As reportagens discutem o impacto do envelhecimento nas contas públicas, a pressão sobre o sistema de Previdência e as transformações no mercado de trabalho. Especialistas também abordam desafios e oportunidades para empresas de áreas como habitação, turismo e varejo, bem como reflexões sobre o que significa viver mais e melhor em meio ao aumento do custo de vida.

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