Longa sobre cozinha do MTST � simp�tico, mas evita as contradi��es

Longa sobre cozinha do MTST � simp�tico, mas evita as contradi��es

Em um primeiro momento, pode-se filiar "Não Existe Almoço Grátis" à tradição do cinema didático-educativo, feito no passado pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo, o INCE. Aqui, no entanto, trata-se de mostrar como funciona uma cozinha comunitária, qual seu planejamento, os objetivos. Mais amplamente —o que pretende o Movimento dos Trabalhadores sem Teto, o MTST. A isso vem se juntar algo do cinema publicitário, pois essas três cozinheiras, personagens e condutoras do filme, sempre alegres e dispostas para o trabalho, não deixam de lembrar certas propagandas em que pessoas pobres aparecem sempre sorridentes e felizes. Há algo de idílico nisso e, na completa ausência de contradições, a idealização do movimento. A isso os realizadores do filme acrescentam um notável sentido de oportunidade: toda a ação se passa nos dias imediatamente anteriores à posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023. Há, portanto, muita gente do movimento chegando a Brasília e a necessidade de fazer muita comida, trabalhando num lugar diferente da ocupação em que a cozinha comunitária delas está instalada —na região administrativa de Sol Nascente, a 35 quilômetros do centro do Distrito Federal. Temos, então, um documentário tradicional, em que se dá voz a participantes para que falem de sua experiência no movimento por moradia, seus métodos etc. Ao mesmo tempo em que se evita a discursividade excessiva, o filme fixa as três cozinheiras como as personagens centrais do filme. Produzem assim uma narrativa centrada na cozinha, o caráter colaborativo de sua atividade —e dos ajudantes. Às três cabe falar sobre as dificuldades da vida —em especial antes de obterem suas casas ou terrenos—, sua maneira de incentivar os que ainda não conseguiram adquirir moradia, e também como sua adesão ao movimento não cessa no momento em que adquirem a posse de um terreno onde construir. Trata-se, para elas, de sustentar a batalha de outros sem-teto, mas também de continuar lutando por melhorias em seus terrenos, como luz e esgoto, cultivando uma horta comunitária etc. Existe um justo júbilo das três senhoras em torno do MTST. Ao mesmo tempo, não existem imagens de ocupação de terrenos ou outros eventos polêmicos. Nesse sentido, "Não Existe Almoço Grátis" é um filme que evita tocar em conflitos e busca aplainar as contradições —tradição mais própria de filmes institucionais. É até compreensível, uma vez que integrantes do movimento têm sido acusados até mesmo de terroristas por seus adversários —de direita ou extrema direita. E o objetivo do filme não é acentuar qualquer traço polêmico desse tipo de movimentos, mas, ao contrário, colocar em relevo suas virtudes. Que não são poucas, a julgar pelo filme. Digamos, para resumir, que ele explora ambiguidades contidas na expressão "não existe almoço grátis", celebrizada pelo economista Milton Friedman, defensor do capitalismo de livre mercado. Seu objetivo era dizer que tudo tem um preço e que toda iniciativa de caráter social custará algo a alguém. O filme vai em outra direção ao sustentar que o "almoço grátis" fornecido aos membros que vêm a Brasília prestigiar a posse de Lula como presidente tem custo zero para eles. Em contrapartida, tal refeição não poderia existir, não fosse a solidariedade entre os membros do movimento. Nesse sentido, o filme poderia explicitar um pouco melhor essa gratuidade. De onde vêm o arroz, o feijão, a carne para as marmitas? Alguém as doou. É lícito imaginar que a maior parte dos alimentos tenha vindo de outro movimento —o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST— e que algumas outras despesas —as marmitas, para começar— tenham sido cobertas por dinheiro do próprio MTST. Quanto ao local de execução, a cozinha foi cedida por uma escola pública do Plano Piloto —portanto, bem longe da comunidade de Sol Nascente, de onde vêm as nossas personagens. Gratuitamente? Pagou-se algo? Sem espírito inquisitorial. São aspectos que passam em branco e poderiam enriquecer o filme. Resta, em todo caso, salientar a observação oportuna, jogada por alguém quase ao acaso —"como essa escola é bonita, por que as da periferia não são assim?". Sim, por quê? Algum filme futuro poderia tentar responder. Por fim, os bons enquadramentos, a fotografia cuidada, os ritmos adequados pesam a favor do filme de Pedro Charbel e Marcos Nepomuceno, feito em 2023, mas que chega apenas agora —queiram ou não, como peça de campanha do atual presidente, onde pode funcionar, apesar da modéstia, como contraponto ao "Dark Horse" bolsonarista.

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