Livro reconstr�i hist�ria contradit�ria dos Safra, uma das fam�lias mais ricas do Brasil

Livro reconstr�i hist�ria contradit�ria dos Safra, uma das fam�lias mais ricas do Brasil

O escritor F. Scott Fitzgerald disse certa vez que a prova de uma grande inteligência é a capacidade "de sustentar duas ideias opostas na mente ao mesmo tempo" e, ainda assim, continuar a funcionar. A frase ficou famosa e ganhou variações, que circulam na internet. Uma delas atribui à maturidade, mais do que à inteligência, a capacidade de tolerar contradições. Seja como for, a ideia vale para "Os Safra: Uma história", livro em que verdades contraditórias sobre uma das famílias mais ricas do Brasil são apresentadas ao leitor, sem que o autor sinta a necessidade de equacioná-las ou diluí-las. A obra narra a história de gerações dedicadas à intermediação financeira, desde Aleppo, na Síria do século 19, até São Paulo, no século 21. O núcleo da narrativa se detém sobre os três irmãos que alcançaram o cume de riqueza e poder entre os Safra: Edmond (1932-1999), Moise (1934-2014) e Joseph (1938-2020). Mas o livro, diz seu autor, o jornalista e psicanalista Robson Viturino, não segue a fórmula tradicional desse tipo de obra. "As biografias de empresários, de banqueiros, geralmente são hagiografias. ‘Veja como esse cara ficou rico e tente copiar o caminho que ele seguiu.’ Que é uma coisa que eu detesto." Os Safra, tal como apresentados por Viturino, são banqueiros há décadas muito próximos do poder —no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos, em Israel—, embora com frequência acusados de não operar estritamente dentro das regras. Segundo um banqueiro citado no livro, Edmond Safra, por exemplo, "tinha sempre muito cuidado de fazer as coisas o mais perto possível da lei". Outra aparente contradição: os Safra revelados no livro são obcecados com discrição, com o controle da própria imagem, embora sedentos de reconhecimento. E outra: são caprichosos e insensíveis, como só os ricos podem ser —capazes de infernizar a vida de funcionários do banco, inclusive dos seus mais altos executivos—, mas também generosos, figurando certamente entre os maiores filantropos do Brasil. São, por fim, extraordinários, donos de uma fortuna de dimensões bíblicas, e comuns, ordinários, membros de uma família tão neurótica, triste e sofrida quanto a minha e a sua, leitor. Viturino acompanha os passos dessa família desde o século 19, quando os Safra ainda tinham negócios em Aleppo, na Síria. Depois se mudaram para Beirute, no Líbano, onde Jacob Safra, pai de Edmond, Moise e Joseph, fundou em 1920 um banco que levava o seu nome. Entre os clientes havia judeus sefarditas, como os próprios Safra, aos quais se somavam integrantes da "diáspora judaica do Iraque, da Turquia e da Grécia, que desde a primeira década de 1900" haviam se refugiado na cidade. "Enquanto atuava como depositário dos clientes, Jacob também fazia transações nos mercados de ouro e câmbio", escreve Viturino. "Uma das formas conhecidas de se ganhar dinheiro na capital libanesa era executar operações de câmbio com recém-chegados ansiosos por se desfazer do dinheiro desvalorizado de seu antigo país. Imigrantes kuwaitianos e sauditas negociavam seus recursos em troca de moedas de ouro, cujo valor era reconhecido de imediato. Os Safra, por sua vez, compravam ouro [mais barato] de Londres e Zurique e vendiam aos forasteiros desavisados." A hostilidade à comunidade judaica cresceu, em Beirute, depois da criação de Israel e do início da primeira guerra árabe-israelense, em 1948. Em um protesto diante do banco da família, no final da década de 1940, os manifestantes gritavam: "Não acreditem que Jacob Safra é libanês! Ele é judeu!". A família decidiu no início dos anos 1950 deixar o Líbano, e parte dela veio se estabelecer no Brasil. A fórmula do negócio bancário apresentada no livro também parece contraditória, à primeira vista. Por um lado, a instituição financeira vende confiança. O poupador precisa confiar no banqueiro, e só deixa o seu dinheiro no banco se acreditar que ali corre menos riscos do que em qualquer outro lugar. Mas, na outra ponta, a chave do sucesso de um banco está na desconfiança. É preciso saber para quem emprestar. Fornecer dinheiro sem ter informações detalhadas do devedor "cheira a sangue", dizia Edmond. E quando perguntaram a Joseph o segredo do sucesso, ele disse: "É só não emprestar dinheiro para todo mundo que te pede". Tanto quanto os princípios de desconfiança, a proximidade com o poder ajudou a família Safra. Em particular, no regime militar, foi útil manter relação com dirigentes econômicos, como Delfim Netto e Ernane Galvêas, que foi presidente do Banco Central, de quem Joseph Safra se tornaria interlocutor. Nos anos 1970, os negócios da família cresceram. "Em uma entrevista no final da década, um executivo que trabalhara para Edmond elogiava sua capacidade de antecipar a taxa de juros ao realizar uma operação financeira: ‘Ele conhecia as pessoas certas para sempre acertar na mosca’." Com o enriquecimento, vieram também as brigas pelo controle do banco. Primeiro, entre Joseph e Moise, na primeira década deste século. Depois, mais recentemente, entre os filhos de Joseph. Apesar das cifras bilionárias, Viturino disse, em entrevista à Folha, que não deixa de haver algo de ordinário nessas querelas. "Quando os irmãos da geração mais recente começaram essa briga societária, eu pensei: eu já vi essa história, e por muito menos. Às vezes é por um conjunto de talheres, né? Uma prataria, algo assim. As famílias brigam. Isso é universal, e precisa de muito pouco para que as famílias se desentendam." O que certamente pareceu menos ordinário foi a morte de Edmond Safra, em 1999, em Monte Carlo. O irmão mais velho de Joseph e Moise morreu em seu apartamento de cobertura, no principado de Mônaco, onde vivia com a mulher, Lily. A princípio os fatos ligados ao fim da vida de Edmond pareceram confusos: o apartamento tinha pegado fogo, o bilionário se trancara dentro de um quarto do pânico e inalara fumaça do incêndio. Surgiram como suspeitos o seu enfermeiro, a máfia russa, terroristas palestinos. O episódio é apresentado logo no início do livro. Depois, a trama policial deflagrada pela morte de Edmond volta a ser narrada, em capítulos alternados. A importância conferida à história acaba por transformá-la em uma espécie de chave que promete ser capaz de decifrar a história dos Safra, de lhe conferir um significado mais profundo. Mas qual? No final, o mistério é em boa medida desfeito. A Justiça de Mônaco conclui que um enfermeiro ateara fogo a uma cesta de lixo e inventara uma invasão ao apartamento, na esperança de, ao soar o alarme e se apresentar como protetor de Edmond, ser reconhecido e premiado por seus patrões miliardários. O plano dá errado, e as chamas fogem ao controle. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões A polícia de Mônaco é incompetente. Com medo de que os supostos invasores armados ainda estivessem no local, os policiais dificultam o trabalho dos bombeiros e impedem que o chefe da segurança de Edmond tenha acesso ao apartamento. O funcionário barrado pela polícia possuía a chave capaz de abrir, por fora, a porta do quarto de segurança. Quanto a Edmond Safra, ele se recusa a sair do pequeno bunker em que se refugiara, com medo. Desconfiado, medicado, o banqueiro não atende aos pedidos, nem acredita nas renovadas garantias que as autoridades lhe dão de que pode, afinal, se sentir seguro e abrir a porta. Sem confiar em ninguém, trancado dentro de uma espécie de cofre, Edmond inala fumaça até morrer.

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