Livro provocativo debate futuro dos intelectuais em tempos de influencers

Livro provocativo debate futuro dos intelectuais em tempos de influencers

[RESUMO] Obra reúne artigos que discorrem sobre a formação da figura do intelectual, as transformações pelas quais passou ao longo da história, o destaque adquirido como debatedor público, as relações com políticos e figuras de poder e os impasses de sua atuação na era de redes sociais e da superficialidade movida a likes. Quando o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas morreu em março deste ano, aos 96 anos, os obituários publicados em diferentes mídias repetiram que perdíamos um dos maiores intelectuais do século 20 —e talvez o último representante desse seleto grupo de pensadores. A importância de suas ideias foi reconhecida em circuitos especializados e alguns dos temas que tratou em suas obras, como a transformação da ideia de esfera pública burguesa, ganharam circulação mais ampla. Se "o último" morreu, ainda faz sentido a ideia de ser intelectual? E o que significa ser um/uma intelectual público em nossos tempos? Essas questões animam a coletânea "Intelectuais no Plural", organizada em boa hora pelos sociólogos Carlos Benedito Martins e Felipe Maia. Investigar o papel dos intelectuais na vida pública e a reconfiguração de suas atividades em sociedades afetadas por mudanças sociais intensas e de debates quase instantâneos nos leva também, como apontam os organizadores, a recalibrar as formas de análise deste grupo social tão falado de diferentes maneiras e, ao mesmo tempo, tão desconhecido em suas motivações e razões de existir em diferentes contextos sociais. Uma análise sociológica dos intelectuais, portanto, deve partir da pluralidade das diferentes sociedades em que eles atuam e dos variados papéis que historicamente assumem. Esse grupo social é herdeiro de figuras muito antigas consideradas detentoras de conhecimento coletivo, como filósofos, narradores, griots e religiosos. No mundo burguês, elas se transformam em profissionais liberais interessados nos temas da vida pública, exercendo simultaneamente funções no direito, nas artes, na medicina, na engenharia ou em outras especialidades em universidades. Por vezes, também exercem as atividades burocráticas do Estado moderno, construtores e construídos pelo poder e, por isso mesmo, culpados ou culpabilizados pelos sentidos que a sociedade pode assumir sob suas ideias, seus conselhos e suas ações. Também neste mosaico podem ser vistos como figuras acessórias ou desnecessárias, apêndices do domínio de grupos mais poderosos. Considerando também as injustiças e desigualdades, assumem a forma de figuras improváveis, surgidas das condições sociais mais desfavoráveis, em razão de racismo, sexismo e classe social. Quem são os intelectuais e como exercem seus papéis? Eis o problema. O quadro, portanto, é complexo e se complica ainda mais em tempo de redes sociais e do surgimento de celebridades mais fugazes, que falam sobre diferentes aspectos da vida social para uma audiência que, quase instantaneamente, reage em centenas ou milhares de likes ou dislikes. São essas figuras os novos intelectuais públicos de nosso tempo? E que medida eles se filiam ou não a essa longa história tracejada que "Intelectuais no Plural" procurou remontar? O livro estabelece um quadro analítico bastante didático e instigante. Numa primeira parte, discute-se a forma de analisar os intelectuais em contextos sociais distintos, procurando balancear os instrumentos que até então as ciências sociais ofereceram para pensar a identidade coletiva deles. Por meio de suas trajetórias biográficas, papéis políticos assumidos ou obras produzidas, o livro confere grande atenção às transformações ocorridas a partir do século 19 no mundo ocidental. Há uma abordagem analítica interessante a partir do Brasil, país que tanto demandou de seus intelectuais reflexões sobre os sentidos que a nação pode seguir. Abrem-se novas perspectivas ao pensar o que acontece quando se amplia o leque das experiências, quando a classe trabalhadora, mulheres, negros, indígenas, pessoas LGBTQIA+ assumem a cena e a fala para dizer o que são e o que querem da sociedade que tanto os negou historicamente. Numa segunda parte, autores renomados nas ciências humanas internacionais (como Randall Collins, Patrick Baert, Jeffrey Alexander e Gisèle Sapiro) refletem justamente sobre diferentes maneiras de como intelectuais operaram no espaço público, em particular no século 20 e início do 21, observando a eficácia ou fracasso de suas intervenções, tendo em vista o contexto político, cultural e burocrático em que se inseriam. Sociedades valorizaram circunstancialmente pessoas que se dedicaram quase exclusivamente a produzir ideias e modelos a respeito de como os destinos coletivos deveriam ser conduzidos. Todos os exemplos se dão a partir de culturas letradas, algo limitante. A eficácia prática das propostas cada vez mais passou a se atrelar à capacidade de intelectuais terem uma performance pública de impacto. Mas que significa isso? Coisas muito distintas, a depender do contexto e do meio de difusão públicos em que os debates ocorrem. Porém, a dramaticidade empenhada no papel dos intelectuais, como num teatro, passa a ser uma exigência para o sucesso de toda a peça encenada. Ser um bom ator social, como intelectual, poderá significar ser capaz de convencer um soberano ou se posicionar sobre as traições do Estado; ou ainda mostrar a farsa dos bons princípios dos próprios intelectuais, denunciando-os em contextos variados, até mesmo num canal de rede social, com centenas ou milhares de seguidores. Esses modos de ser e experimentar a condição intelectual estarão presentes na última parte do livro com questões exemplares. Pesquisadores nacionais e estrangeiros analisam as experiências de apagamento de mulheres intelectuais na história moderna ocidental, como Flora Tristán e Nísia Floresta; a impressionante trajetória das obras e dos posicionamentos de William Edward B. Du Bois, durante muito tempo também esquecido. De outro lado, estudos sobre como se tornar um intelectual público influente, bem como análise a respeito dos interesses e das estratégias profissionais que os intelectuais podem utilizar para alcançar essa posição no âmbito da universidade e de um certo contexto político, aparecem em textos sobre Jacques Derrida, Pierre Bourdieu e Habermas. O livro se encerra com um artigo a respeito de uma questão tanto nacional quanto global: como enfrentar o debate sobre os intelectuais neoconservadores da ultradireita que se apresentam como anti-intelectuais? Afinal, o que é o anti-intelectualismo vigente e quais os sentidos que pode assumir? "Intelectuais no Plural" é obra provocante que dialoga com nosso tempo, em que se afirma com tanta veemência a desnecessidade da reflexão crítica e conflituosa das ideias, embora saibamos que delas não se pode prescindir.

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