Por volta da meia-noite do dia 23 de novembro de 2021, 31 pessoas morreram nas águas geladas do canal da Mancha depois do naufrágio do barco inflável em que faziam a travessia. Eram 21 homens, 7 mulheres, uma delas grávida, e 3 adolescentes, quase todos imigrantes asiáticos ou africanos. A tragédia —a maior no canal desde que existem estatísticas confiáveis— deu origem a um bate-boca entre Emmanuel Macron e Boris Johnson, motivou uma investigação policial e foi o mote para o romance "O Náufrágio", do escritor e filósofo francês Vincent Delecroix. Finalista em dois prêmios importantes —o Goncourt francês e a versão internacional do Booker—, o livro tem como ponto de partida um diálogo por telefone, capturado pela investigação policial, entre um dos náufragos e uma funcionária do sistema de resgate francês. Diante dos pedidos desesperados de ajuda, a funcionária, cujo nome nunca foi revelado, diz: "Não te pedi para partir". E minutos mais tarde: "Você não será salvo". Em entrevista ao canal do clube de leitura da cantora Dua Lipa, Delecroix afirmou: "É algo de uma indiferença inimaginável, de alguém sem sentimentos ou capacidade de empatia". A partir dos dados da investigação, e sobretudo dessas duas frases, que chocaram franceses e britânicos ao aparecer na imprensa, Delecroix imaginou uma personagem e construiu uma ficção incômoda e perturbadora. O livro é narrado do ponto de vista da funcionária que, num hipotético interrogatório policial, tenta justificar o injustificável. A mulher culpa a incompetência dos colegas franceses. Culpa os britânicos que, segundo ela, deveriam se responsabilizar por um barco que entrava em seu mar territorial. Invoca o estresse de ter que cuidar sozinha de uma filha de seis anos. Cita o ex-marido extremista, que achava que pessoas que tentavam entrar clandestinamente num país mereciam morrer. E culpa, por fim, os próprios imigrantes, na frase que abre o livro: "Não te pedi para partir". A discussão filosófica que perpassa "O Náufragio" ecoa o ensaio "Eichmann em Jerusalém", publicado por Hannah Arendt em 1963 na revista The New Yorker e citado por Delecroix em entrevistas. Enviada pela publicação americana para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann —o funcionário encarregado de organizar os trens que levavam prisioneiros judeus para a morte em campos de concentração— a filósofa alemã reflete sobre a "banalidade do mal". Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias De maneira análoga a Eichmann, a funcionária de "O Náufragio" alega ter um protocolo a cumprir, e que qualquer tipo de envolvimento emocional afetaria a clareza de suas decisões. Uma decisão sua, no entanto, selou a morte dos 31 imigrantes. A mulher dispunha da localização exata do bote inflável e recebeu da Marinha a informação de que um barco francês estava próximo ao naufrágio. Talvez por considerar que a ação de salvamento cabia aos britânicos, a funcionária não contatou o barco francês. "O Náufragio" é incômodo sobretudo porque trata de uma situação recorrente. Estima-se que de 30 mil a 40 mil pessoas por ano tentem cruzar o Canal da Mancha em direção ao Reino Unido. Em geral são imigrantes que buscam se reunir a parentes que já vivem em solo britânico ou que estão em busca de trabalho. De acordo com a Marinha francesa, cerca de metade dessas embarcações são interceptadas logo que deixam a costa. Entre os que conseguem atingir o outro lado, poucos escapam da prisão e deportação. Lançado na França em 2023, o livro está em sintonia com o debate atual sobre imigração na União Europeia. Em 17 de junho, o Parlamento Europeu aprovou uma lei que cria centros de detenção de imigrantes em países terceiros, seguindo o modelo implantado pela ultradireita italiana e pela centro-esquerda dinamarquesa. A regulamentação é fortemente criticada por organizações de direitos humanos por deixar pessoas vulneráveis num limbo jurídico. Delecroix provoca os europeus, que assistem indiferentes a uma tragédia humanitária, com reflexões de sua protagonista. Ela se queixa de sofrer um "massacre midiático", que ocorreria "para que a humanidade se tranquilize em relação a si mesma, para que a humanidade não duvide de sua humanidade e não corra o risco de suspeitar do que se tornou, ou seja, uma moça como eu, como o que eu me tornei". E arremata. "O que se ouve não é a voz de um monstro ou de uma criminosa —é a voz de todo mundo."
Livro perturbador narra a 'banalidade do mal' em naufr�gio de imigrantes
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