A leitura de "O Tesoureiro", de autoria do jornalista Xico Sá e publicado pela Editora Todavia, faz do personagem principal do livro, Paulo César Farias, o PC Farias, o retrato fiel de uma era que ainda não terminou. Operador do maior esquema de corrupção da Nova República durante o governo de Fernando Collor de Mello, PC ressurge agora como um espelho fiel dos tempos presentes. Trazendo o passado para os nossos dias, ele antecipa a engenharia de escândalos republicanos contemporâneos que, como antes, voltam a contaminar os Três Poderes —o cenário de hoje tem o banqueiro Daniel Vorcaro no centro das atenções. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha As similaridades entre PC e Vorcaro não são fatos isolados: a engrenagem chafurda na lama de nossas instituições. O banqueiro foi pego com os pés na escada de seu jatinho tentando fugir do país. Já o operador de 30 anos atrás, numa manobra cinematográfica, de peruca e sem o famoso bigode, percorreu países até ser preso na Tailândia, após discutir com um hóspede de hotel que o reconheceu e denunciou às autoridades locais. Semelhanças à parte, fato é que Xico Sá reconstrói, com a inegável habilidade jornalística e literária que sempre caracterizou sua premiada escrita, o perfil surpreendente de personagem icônico de nossa história. Revela não só os bastidores da corrupção que ficou conhecida como Collorgate, mas também a trajetória de uma fuga espetacular e a morte, até hoje controversa, em Alagoas, do principal agente que tinha os dirigentes da República, literalmente, no bolso do paletó. Repórter investigativo da Folha na década de 1990, Xico Sá acompanhou o caso de perto. Com o faro de bom profissional, conhecia como poucos os meandros da política palaciana da região, alcunhada na época de "República de Alagoas" —um feudo que tinha a família Collor de Mello como uma das mais poderosas. Com a vitória eleitoral de 1989, PC Farias, caixa da campanha, depois operador financeiro, passou a ser o homem mais procurado pela política, alvo de mafiosos e de investidores de dentro e fora do país. Advogado com jeito de seminarista pimpão, cujas frases tiradas de latim requentado vinham à tona toda vez que se via em situações embaraçosas, se tornou eminência parda daquele governo e o estopim da queda que mobilizou a sociedade, agitou as ruas com o movimento dos "caras-pintadas" e CPI no Congresso, resultando no impeachment que quase implodiu a política brasileira. Testemunha atenta dos passos de PC, com ajuda da informante misteriosa que atendia pelo nome de Brigitte Montfort, figura talhada para o universo folhetinesco (apelido fantástico tirado da clássica espiã dos livros pulp), Xico Sá foi o primeiro a descobrir o paradeiro do foragido operador em Londres, terra da rainha, trazendo para a história elementos de romance noir. Um furo de reportagem que abriu novos flancos na desenfreada caçada internacional ao fugitivo. Em "O Tesoureiro" Xico Sá, experiente no olhar e no faro jornalístico, passa o Brasil a limpo, refazendo o percurso do dinheiro sujo que enlameia a nação. Seu livro é uma crônica bem escrita sobre os tempos e a sanha corrupta que assola o país não é de hoje. Vorcaro é o melhor exemplo redivivo de tudo isso e mostra que, de tempos em tempos, dinheiro e excesso de poder são elementos que cada vez mais combinam com a nossa política. PC Farias morreu misteriosamente, em casa, no bairro praiano de Guaxuma, em Maceió, ao lado da namorada, Suzana Marcolino. Os tiros que calaram sua voz não o apagaram da história. Pelo contrário. Prova disso é essa biografia-reportagem: um livro revelador, escrito com maestria, concisão e bom humor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Livro de Xico S� acerta no tom e exp�e bastidores do submundo do poder
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