Literatura de palestino morto na Faixa de Gaza reverbera hoje no Brasil

Literatura de palestino morto na Faixa de Gaza reverbera hoje no Brasil

Em 2011, Refaat Alareer escreveu um poema para sua filha Shymaa. Os três primeiros versos diziam: "Se eu tiver que morrer/ você precisa viver/ pra contar minha história". Na Faixa de Gaza, onde eles viviam, a morte pairava com frequência. Anos depois, em 6 de dezembro de 2023, um bombardeio israelense matou Alareer, seu irmão, sua irmã e quatro sobrinhos. O poema, catalisado pela morte de Alareer, foi recuperado e percorreu o mundo, sendo publicado na antologia póstuma "Se Eu Tiver que Morrer". O livro, que mistura poesia, tuítes e textos jornalísticos, chega ao Brasil agora pela editora Cosac, em tradução de André Capilé. Compartilhado nas redes sociais e na imprensa global, o trabalho de Alareer é hoje um dos símbolos da situação em Gaza. A guerra começou em 7 de outubro de 2023, quando a facção radical palestina Hamas liderou um atentado contra Israel, deixando 1.200 mortos. Em resposta, a ofensiva israelense deixou mais de 70 mil mortos em Gaza e devastou a infraestrutura do território. Organizações internacionais e governos —incluindo o brasileiro— descrevem a situação como um genocídio. Israel nega e se opõe à classificação. Alareer nasceu em 1979 no bairro de Shujaiya, sob ocupação israelense. Tel Aviv havia tomado o território palestino em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, e retirado seus soldados e colonos apenas em 2005. O poeta aprendeu primeiro com sua avó a força das histórias. Depois, estudou em Gaza, fez um mestrado no Reino Unido e um doutorado na Malásia. Decidiu escrever em inglês para que suas ideias ultrapassassem a barreira linguística. Em 2007, começou a dar aulas de inglês, literatura e escrita criativa na Universidade Islâmica de Gaza. Ajudou a desenvolver o projeto Não Somos Números, incentivando jovens palestinos a, assim como ele, contarem suas histórias em inglês. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Essa perspectiva aparece claramente em um dos textos da antologia, datado de 2014, que diz: "Quando [meus alunos] conseguirem romper os muros do isolamento criados pela ocupação e pelo Egito, quando encontrarem judeus que trabalhem pela nossa causa, isso fará toda a diferença". Ele se referia ao bloqueio imposto por Israel e às restrições do Egito na fronteira sul de Gaza, que limitam a circulação de pessoas e mercadorias e contribuem para a crise humanitária. No poema que dá título ao livro, Refaat não pede apenas que a filha conte sua história. Pede também que venda suas coisas, compre "um trapo de pano" e empine uma pipa. Imagina, com isso, "uma criança, em algum lugar de Gaza,/ enquanto mira o céu bem nos olhos/ esperando o pai que se foi num clarão —/ e não se despediu de ninguém/ nem mesmo da própria carne". Essa mistura de linguagem poética com crueza marca a obra de Refaat, que apostava no impacto emocional e tratava o texto como um instrumento de persuasão. Em outro poema, publicado um mês após o início da guerra, Refaat descreve cadáveres de bruços nas margens do Mediterrâneo, onde enxerga "a humanidade encharcada de sal". "Nem todos os perfumes da Arábia vão/ atenuar a podridão/ que Israel choca", dizem os derradeiros versos. A imagem dos perfumes da Arábia é uma referência à peça "Macbeth", de Shakespeare, e revela o diálogo constante de Alareer com a literatura britânica. Sua última mensagem na rede social X, o antigo Twitter, mirava a audiência global, em especial a americana. Ele acusava o Partido Democrata e o então presidente, Joe Biden, de serem responsáveis pelo que descrevia como um genocídio em Gaza. O tuíte consta do fim do livro, seguido da transcrição de algumas de suas últimas mensagens de voz. Refaat lamentava não conseguir proteger seus alunos —tinha 200 naquele momento— e pedia que eles escrevessem. Acreditava que podia inspirá-los pelo seu exemplo. O poema "Se Eu Tiver que Morrer" se encerra com a esperança de que uma criança veja a pipa e pense, por um instante, que está vendo um anjo. "Se eu tiver que morrer/ que traga esperança/ que seja uma história." Poucos meses depois de sua morte, um bombardeio também matou sua filha Shymaa, para quem tinha escrito o poema. Shymaa morreu ao lado do marido e do filho de dois meses. Ela não pôde, assim, contar sua história, vender suas coisas nem empinar uma pipa. A tarefa ficou para os leitores.

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