Liquidante do Master pede � Justi�a dos EUA apreens�o de im�veis de R$ 843 milh�es ligados a Vorcaro

Liquidante do Master pede � Justi�a dos EUA apreens�o de im�veis de R$ 843 milh�es ligados a Vorcaro

São Paulo O liquidante do Banco Master pediu à Justiça dos Estados Unidos a tomada de três imóveis usados por Daniel Vorcaro como residência e comprados por mais de US$ 168 milhões (R$ 843 milhões na cotação atual) com dinheiro supostamente desviado do banco. Duas propriedades estão em Miami e uma em Aspen, no Colorado. A ação foi protocolada no Tribunal de Falências do Sul da Flórida, nesta quarta-feira (7), onde corre um processo movido pela EFB Regimes Especiais de Empresas, liquidante do banco, contra Vorcaro e sua família. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master - Rubens Cavallari - 22.abr.2024/Folhapress Neste caso, Vorcaro não é o alvo da petição, já que a ação é movida contra a Clear River Properties e a Goldbeach Properties, donas dos imóveis e empresas registradas em Delaware, nos Estados Unidos. Segundo a ação, em abril de 2024 a Clear River comprou uma propriedade na Owl Creek Ranch Road, em Aspen, por US$ 77 milhões (R$ 386 milhões). Já a Goldbeach pagou US$ 85,2 milhões (R$ 427 milhões), em janeiro de 2025, por um imóvel de frente para a baía de Sabal Palm Road, em Miami, e US$ 6,9 milhões (R$ 34,6 milhões), no mês seguinte, por um imóvel do lado oposto da rua. Todas as compras foram feitas à vista, sem financiamento, segundo os advogados do liquidante. Procurada por email na noite desta quinta-feira (8), a defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou até o momento. Segundo o documento, o dinheiro saiu do Master e passou por uma cadeia de fundos de investimento e empresas no Brasil, nas Bahamas e nas Ilhas Cayman até chegar ao Mosaic Short Duration Fund, fundo sediado nas Bahamas e criado em 2020. De fevereiro de 2023 a outubro de 2025, esse fundo teria recebido mais de US$ 430 milhões. Em uma das rotas, o Master aplicava em um fundo das Bahamas, o Liquidity Strategies Fund, que repassava os recursos a outro, o OGP LatAm investment. Dali, o dinheiro ia para a Entre Investments and Arbitrage, também das Bahamas, que repassava ao Mosaic. Tanto o OGP quanto a Entre Investments são empresas de Antônio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, apontado pelo liquidante como uma espécie de testa de ferro de Vorcaro. O empresário fechou acordo de delação premiada com a PGR (Procuradoria-Geral da República), homologada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em setembro. Até fevereiro de 2023, o Master havia transferido US$ 187,5 milhões (R$ 940 milhões) ao Liquidity, dos quais US$ 112,8 milhões (R$ 566 milhões) seguiram para o OGP. Em outra rota, mais curta, o dinheiro passava pela Entre Investimentos e Participações, empresa de Mineiro no Brasil, antes de chegar à Entre das Bahamas e ao Mosaic. A Entrepay, integrante do Grupo Entre, foi liquidada pelo Banco Central por descumprimento de normas regulatórias. A Entre ficou famosa no início do ano por ter sido apontada como a responsável por remessas de US$ 12,3 milhões (R$ 61 milhões), após pedido de Flávio Bolsonaro a Vorcaro, para o fundo Havengate, nos EUA. O dinheiro teria financiado o filme "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesOutra rota teria usado fundos atribuídos a Benjamin Botelho de Almeida, dono da Sefer Investimentos, como o Jaguar Multimarket Fund Ltd., das Ilhas Cayman, e o Phoenix Multimarket Fund, das Bahamas, por onde passaram US$ 17 milhões (R$ 85,3 milhões) em fevereiro de 2024. Do fundo das Bahamas, os recursos teriam seguido para os EUA por meio de contrato de empréstimo de até US$ 350 milhões (R$ 1,7 bilhão) com a Mosaic Group, dona formal da Clear River Properties e da Goldbeach Properties. O contrato foi assinado em 9 de abril de 2024, dois dias antes da compra do imóvel em Aspen e no mesmo dia em que o fundo recebeu US$ 76 milhões. O Mosaic Short Duration Fund recebeu US$ 29,3 milhões em 6 de dezembro de 2024 e, seis dias depois, US$ 25 milhões saíram de uma conta da Mosaic no Bank of New York Mellon para a Global America Title Services, que conduziu o fechamento do negócio. Para o liquidante, o empréstimo era de fachada. O contrato suspende, por exemplo, pagamento dos valores até abril de 2031, ou seja, sete anos após a assinatura. Nem os juros, que foram fixados em 4% ao ano, são cobrados. O liquidante diz ainda que a empresa descumpriu exigências de contrato, está inadimplente e, mesmo assim, nunca foi cobrada. Segundo a petição, Vorcaro assinou em nome próprio o contrato de compra da casa de Aspen, em março de 2024, e depois o cedeu à Clear River. O ex-banqueiro teria firmado contratos de aluguel de dez anos, com opção de compra, que lhe garantiam uso exclusivo de imóveis —nenhum pagamento de aluguel foi localizado pelo liquidante. O documento cita executivos ligados à Mosaic Financial, uma gestora das Bahamas que serviu de canal para o fluxo do dinheiro. Entre eles estão Brad Jensen, apresentado como chairman da companhia, e Lori Webb, diretora da companhia. Segundo a ação, a Goldbeach e a Clear River foram abertas a pedido de Jensen por representantes da Kodiak Trust Company, uma empresa que se tornou a administradora do Fortress Legacy Trust, estrutura ligada à família Vorcaro. Em fevereiro de 2024, Webb escreveu à Kodiak pedindo a retirada do nome de Vorcaro como dono das duas companhias das Bahamas que controlavam a Goldbeach e a Clear River. Em seu lugar, deveria constar a Fortress, o que segundo o liquidante, serviu para ocultar o ex-banqueiro dos negócios. A ação cita ainda um executivo da Accuvest Global Advisors, empresa que o liquidante diz ser ligada à Mosaic. Ele teria cedido a Vorcaro um cartão de crédito em seu próprio nome, usado em compras que chegaram a ultrapassar os US$ 100 mil em um único mês. As transferências listadas na petição mostram que os repasses continuaram depois que o Banco Central decretou a liquidação do Master, em 18 de novembro de 2025. De dezembro de 2025 a março de 2026, a mesma conta da Mosaic no BNY Mellon enviou US$ 37,5 milhões às duas empresas, segundo levantamento da Folha com base no documento. Os dois últimos repasses, de US$ 5,5 milhões cada um, foram feitos nos dias 11 e 23 de março, dias depois da segunda prisão de Vorcaro, que aconteceu no dia 4 daquele mês. Somadas as compras, obras e outras despesas, as transferências identificadas pelo liquidante chegam a cerca de US$ 107 milhões para a Clear River e US$ 120,5 milhões para a Goldbeach. O liquidante pede que a Justiça norte-americana reconheça que os imóveis pertencem à massa do banco ou condene a Clear River a devolver ao menos US$ 77 milhões, e a Goldbeach outros US$ 92,5 milhões. Pede também que elas sejam proibidas de vender os bens e que seja nomeado um administrador judicial para as propriedades. A Folha entrou em contato por email com representantes e empresas de Antônio Carlos Freixo Junior e Benjamin Botelho de Almeida, mas não obteve retorno.

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