Lideran�as evang�licas comparam parque tem�tico da B�blia a samb�dromo e Rock in Rio

Lideran�as evang�licas comparam parque tem�tico da B�blia a samb�dromo e Rock in Rio

O parque Terra Prometida, em construção na capital fluminense, será como o sambódromo e o Rock in Rio, segundo lideranças evangélicas favoráveis à construção da área temática da Bíblia e que dizem ter espaço para todos os segmentos na cidade. Já representantes de outras religiões criticam o projeto. O então prefeito Eduardo Paes (PSD) anunciou o parque, voltado ao segmento cristão, em 2024. As obras, que começaram em março, são tocadas pela gestão do atual prefeito Eduardo Cavaliere (PSD). O espaço é o único projeto de um parque público da cidade destinado ao tema de uma religião. Será construído em Santa Cruz, na zona oeste, no lugar da Cidade das Crianças Leonel Brizola, antiga área de eventos e lazer para crianças. Para o parque são planejados espaços inspirados em passagens do Pentateuco, os cinco livros do Velho Testamento; um percurso ensinando os Dez Mandamentos; um trecho chamado de Caminho do Mar Vermelho, para simular a experiência de atravessar as águas; montes de oração; e uma grande esplanada de eventos com capacidade para até 70 mil visitantes. O vereador Marcos Dias (Podemos), liderança evangélica da Cadesc (Catedral das Assembleias de Deus de Santa Cruz) próxima a Paes e candidato a senador, é um dos que menciona o Rock in Rio e o sambódromo como comparações. Ele afirma ter sido um dos primeiros a sugerir a ideia do parque. "Há espaços para todos os segmentos. E qual o espaço que nós [evangélicos] temos? Será um equipamento com temática da cultura judaico-cristã, mas também para católicos, é um projeto amplo." A equivalência que parece fazer sentido para as lideranças evangélicas ouvidas pela Folha é, em contraponto, uma distorção para representantes de umbanda e candomblé, como o babalorixá Ivanir dos Santos (PSB). Candidato a deputado federal, ele afirma já ter se reunido com Paes para apresentar propostas do seu segmento. Estiveram na mesa do ex-prefeito a criação de um parque dos Orixás em Quintino, a instalação de um monumento inter-religioso no Alto da Boa Vista e outro em homenagem ao babalorixá Tancredo da Silva Pinto, a quem se atribui as tradições do Réveillon, como vestir branco e virar a noite na praia. A prefeitura também já ouviu propostas de instalar imagens de orixás na lagoa Rodrigo de Freitas, como as que existem no dique do Tororó, em Salvador. "Quando o criticamos, ele [Paes] responde dizendo que apoia o samba. São coisas diferentes. Nada contra que ele faça opções, mas não pode esquecer que não só os evangélicos são contribuintes", diz Ivanir. "O que argumentamos é que o Estado é laico e tem de haver equidade. Não se trata de uma religião ser maior do que a outra. Cristãos são maioria, isso é real, mas não cabe privilegiar, com recursos públicos, esse segmento", completa o babalorixá. Procurada, a Arquidiocese do Rio disse em nota que não foi consultada sobre o projeto, mas recebeu convite para conhecer a iniciativa. Afirmou ainda que "considera importante que projetos dessa natureza, especialmente quando desenvolvidos pelo poder público, respeitem o princípio da laicidade do Estado e a liberdade religiosa". A prefeitura disse em março que a obra terá custo de R$ 190 milhões. Questionada por meio de sua assessoria de imprensa acerca da nova previsão de gastos, a gestão não respondeu. Tampouco mencionou o prazo para conclusão. A Secretaria de Infraestrutura, em publicações de Diário Oficial, indica que alcançou 55% da primeira fase das obras, que inclui demolições, terraplanagem, aterro de lagos e remoção de vegetação. Paes anunciou o parque dois meses depois da eleição de 2024, que lhe garantiu vitória em primeiro turno. Fora um pleito em que as alianças entre Paes e lideranças conservadoras sobressaíram à candidatura do oponente bolsonarista Alexandre Ramagem (PL). O então prefeito aproximou-se de pastores, bispos e políticos ligados às congregações evangélicas. No ano passado, a prefeitura já havia dedicado um espaço às religiões cristãs, quando inaugurou o primeiro batistério público da cidade, em uma praça no Méier, na zona norte. O local tem uma cascata d'água, uma Bíblia cenográfica e é usado para batismos. Seguidores da umbanda e do candomblé têm reclamado da falta de espaços públicos oficiais para si. Eles costumam usar as matas do Alto da Boa Vista para trabalhos e rituais. Contudo, é um uso sem suporte do poder público, à exceção da coleta de lixo especial feita pela Comlurb (Companhia de Limpeza Urbana). Frequentadores de terreiros têm usado o Parque Ecológico dos Orixás, um parque privado em Magé, a 60 km da capital, para rituais. "Quando terreiros filiados usam nosso espaço cobramos R$ 60 pelo grupo todo. O espaço é mantido com recursos próprios", diz João Luiz Magalhães, fundador do parque. "Nunca tentamos propor ao poder público porque para nossa religião é tudo mais difícil." A prefeitura foi questionada se não considerou a criação de um parque ecumênico e se há projeto de outro espaço destinado a temas de umbanda e candomblé. A gestão Cavaliere respondeu, em nota, que "apoia e preserva iniciativas de diversas matrizes religiosas, reconhecendo a importância da diversidade de crenças como parte da identidade cultural da cidade". Afirmou ainda que tem "compromisso com o Estado laico, a liberdade de culto e o acolhimento à pluralidade religiosa e cultural" e que o Terra Prometida faz parte da política de garantir "espaços democráticos de convivência, espiritualidade e fé". Disse também que o local vai contribuir para a cidade com turismo religioso. Felipe Fonte, professor da FGV Direito Rio, afirmou não ser ilícito, do ponto de vista jurídico, a criação do parque. "O artigo 19 da Constituição permite a colaboração na forma da lei de interesse público. Esse tipo de colaboração —o uso do Maracanã numa cerimônia religiosa, a criação de uma praça da Bíblia ou os feriados religiosos— se insere dentro do permitido. São desiguais porque o interesse público nesses casos é desigual. O que importa é que o Estado não reprima e ofereça oportunidades para todas as religiões", afirma. Na véspera do Natal de 2024, Paes foi ao terreno do Terra Prometida com o então vice Cavaliere para gravar um vídeo. Nele, o hoje atual prefeito afirmou que a Cidade das Crianças estava abandonada. Inaugurada em 2004, durante a gestão Cesar Maia (então no PFL), a Cidade das Crianças passou 14 dos 22 anos sob mandatos de Paes. Foi criada com intuito de receber alunos de escolas públicas durante a semana, com abertura ao público nos fins de semana. Tinha planetário, teatro, cinema e biblioteca, além de pista de atletismo, campo de futebol, piscina para adulto e criança. Segundo moradores, o projeto funcionou nos primeiros anos, mas a falta de manutenção começou a degradá-lo a partir da década de 2010. O planetário será transformado em cinema, e o teatro, em um centro de convenções. Até março havia aulas de natação, pilates e futebol. A Secretaria de Esportes disse em nota que as atividades do local foram absorvidas por outra Vila Olímpica que existe em Santa Cruz. Hoje, a Cidade das Crianças é mais conhecida pelos cariocas por ser um dos locais de prova prática de direção do Detran (Departamento Estadual de Trânsito).

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