No dia das eleições, enquanto milhões de brasileiros iam às urnas decidir o futuro do país, eu dava à luz o meu primeiro filho. Em meio a um momento tão importante para a democracia, uma nova vida chegava ao mundo. Para mim, seu nascimento simbolizava esperança: a possibilidade de um futuro diferente, de um Brasil onde nossos filhos possam crescer com liberdade, dignidade e respeito. Mas, junto com a alegria de trazer uma vida ao mundo, vem a preocupação: que mundo estamos deixando para nossos filhos? Me peguei pensando que talvez eles estejam nascendo em um mundo mais cruel do que aquele em que nós nascemos. Após as eleições, comunidades guaranis e kaiowás, em Mato Grosso do Sul, denunciaram assassinatos, atropelamentos, intimidações e até ameaças de envenenamento da água utilizada pelas famílias. Como chegamos a um ponto em que uma escolha política pode se transformar em justificativa para perseguir, ameaçar ou matar alguém? Vivemos um tempo em que discordar parece ter deixado de ser parte da democracia para se tornar motivo de violência. O outro, por pensar diferente, passa a ser tratado como inimigo. E, quando esse outro é indígena, o ódio político encontra um racismo que atravessa mais de cinco séculos de nossa história. A violência contra os povos indígenas não começou nestas eleições. Ela está presente desde a invasão de nossos territórios, nos massacres, nas expulsões e nas tentativas de apagamento de nossas culturas. As denúncias feitas não são casos isolados, mas, infelizmente, uma realidade dos guaranis, dos kaiowas e de tantas comunidades indígenas. E assusta perceber como o racismo, o preconceito e os discursos de ódio parecem cada vez mais tolerados, como se fossem apenas posicionamentos políticos. A história já mostrou os perigos desse caminho. O nazismo também se alimentou da desumanização do outro, da construção de inimigos e da normalização da perseguição. Não podemos permitir que a barbárie seja novamente tratada como algo aceitável. Hoje, quando olho para meu filho, penso no medo que nenhuma mãe deveria sentir: o de que um dia ele possa sair de casa e não voltar simplesmente por ser quem é. Por carregar em sua identidade e ancestralidade a história de um povo que resiste há séculos. Não quero que ele cresça aprendendo que existir como indígena significa também precisar lutar pelo direito de continuar vivo. A democracia não pode se resumir ao direito de votar. Ela precisa garantir o direito de existir, de ser diferente, de discordar e de viver sem medo. Não há democracia verdadeira onde o ódio é tolerado e determinadas vidas são tratadas como descartáveis. Meu filho nasceu no dia em que o Brasil escolhia seu futuro. E eu me recuso a acreditar que esse futuro precise ser construído sobre o medo e a violência. Não podemos aceitar que nossos filhos herdem o ódio que fomos incapazes de enfrentar; sua herança é a coragem de construir uma sociedade onde todos tenham direito de existir. Porque, no fim, a questão não é quem venceu as eleições, mas que humanidade sobreviverá a elas. E que mundo teremos coragem de deixar para aqueles que acabaram de nascer? Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Liberdade, dignidade e respeito aos nossos filhos
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