O xamã yanomami ergue os braços como um pássaro prestes a levantar voo. Na fotografia, porém, seu corpo parece se desfazer: um braço surge aqui, outra parte mais adiante, como se vários instantes coubessem no mesmo quadro. Não é montagem digital. É uma única fotografia feita com celular. A cena integra as 34 imagens de Leão Serva reunidas em "Caleidoscópio Xapiri Yanomami", exposição que será inaugurada na quarta-feira (28), no Museu da Imagem e do Som, o MIS, em São Paulo, e abre ao público no dia seguinte. A proposta é se aproximar da experiência dos xamãs, sem pretender mostrar os espíritos que, segundo a cosmologia yanomami, eles enxergam durante os rituais. "Todas as minhas fotos são um clique", afirma o jornalista e fotógrafo. O recurso é a longa exposição, mas o resultado não é o borrão habitual de um objeto em movimento. "Um pedaço da mão está aqui, outro pedaço aqui, outro aqui", diz. "O retrato do movimento se dá de uma forma peculiar." Serva já explorava esse efeito em 2017, quando morava na Inglaterra para fazer doutorado e fotografava cenas de museus. Os corpos deformados deram origem a uma exposição em Londres, em 2019, toda em preto e branco, que também explorava sua condição de estrangeiro. De volta ao Brasil, passou a procurar um assunto para experimentar a técnica em cores. Tentou fotografar São Paulo, mas não gostou do resultado. O tema apareceu há quatro anos, quando acompanhava como repórter da Folha um encontro na comunidade de Xihopi, na região do rio Demini, na Terra Indígena Yanomami. Ao ver a movimentação dos xamãs, percebeu que encontrara o que procurava. Eram 30 xamãs reunidos para marcar os 30 anos da homologação do território. O ritual durou aproximadamente quatro horas. Um a um, recebiam pelo nariz a yãkoana, pó utilizado nas práticas xamânicas, e começavam a dançar. Na cosmologia yanomami, é nesse contato ritual que os xamãs se relacionam com os xapiri, seres espirituais ligados à proteção da floresta e ao equilíbrio do mundo. "Ele faz um gesto como se fosse um pássaro no chão iniciando um voo", diz Serva sobre o começo da dança. Depois, o xamã atravessa o espaço com movimentos que se repetem e se transformam. O fotógrafo quis registrar esse deslocamento não como poses congeladas, mas como momentos distintos reunidos na mesma imagem. A cerimônia aconteceu em 25 de maio de 2022, durante uma semana de comemorações pelos 30 anos da homologação da Terra Indígena Yanomami. Mas a celebração também foi marcada por denúncias de invasões garimpeiras, violência e ameaças às comunidades, no último ano do governo Jair Bolsonaro. As fotos chegaram a provocar confusão. Ricardo Corrêa, curador da mostra, conta que colegas a quem Serva enviou o material pensaram que os arquivos tinham sido corrompidos. Para ele, o interesse está no encontro da técnica "imperfeita", cujo resultado não pode ser inteiramente controlado, com o universo espiritual yanomami. Havia, porém, uma pergunta mais importante. "O que os yanomamis acham dessa fotografia?", queriam saber os especialistas com quem Serva discutiu a edição das imagens na Inglaterra. Ele preparou o material para apresentá-lo aos indígenas, mas a oportunidade demorou a surgir. Há dois anos, quando lideranças yanomamis estavam no Rio de Janeiro para o Carnaval, as fotografias foram mostradas a elas e ao escritor Davi Kopenawa. Depois, o xamã enviou uma mensagem de áudio a Serva, dizendo compreender a tentativa de representar o ritual, e comparou seu trabalho ao de Claudia Andujar, que também buscou recursos fotográficos para sugerir a experiência dos xamãs. "A Claudia é uma deusa da fotografia", diz Serva. Para ele, a comparação de Kopenawa diz respeito à busca de uma linguagem, não a uma equivalência entre as obras. O líder indígena estranhou particularmente uma das imagens, mas incentivou sua apresentação ao que chama de "povo da cidade". A semana contará também com a presença de Dário Kopenawa, filho de Davi, eleito em junho para presidir a Hutukara Associação Yanomami a partir de 2027. Na quinta-feira (29), às 15h, haverá uma visita guiada à exposição, seguida de uma conversa com a liderança indígena. Uma gravação com a mensagem de Kopenawa será reproduzida no MIS. Quatro anos depois do ritual, as fotografias chegam ao público urbano com o incentivo de uma das principais lideranças yanomamis.
Le�o Serva fragmenta corpos de xam�s yanomamis em fotos feitas com celular
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.