Le�o 14 chega ao Uruguai, pa�s mais secular da Am�rica Latina, quase 40 anos ap�s �ltima visita papal

Le�o 14 chega ao Uruguai, pa�s mais secular da Am�rica Latina, quase 40 anos ap�s �ltima visita papal

O papa Leão 14 chegou na tarde desta sexta-feira (6) ao Uruguai para iniciar sua visita de 12 dias à América do Sul, que incluirá também Argentina e Peru. Ele foi recebido no Aeroporto Internacional de Montevidéu e agora segue para a Praça da Independência, onde deve fazer o primeiro discurso da viagem. O pontífice de 71 anos saiu pouco depois das 7h de Roma e desembarcou por volta das 16h20 na capital desse país de 3,5 milhões de habitantes —o mais secularizado da América Latina, região que é lar da maior população de católicos do mundo. Antes do pouso, a bordo do avião que carrega sua comitiva e jornalistas, Leão 14 disse que se sente "bastante bem" após a cirurgia pulmonar realizada no mês passado para a remoção de câncer. O papa afirmou também que a sua experiência como paciente reforçou sua crença na saúde como um direito humano. "Sei que algumas pessoas duvidavam da realização desta viagem", disse Leão sobre a turnê por três países, com cerca de 50 eventos em dez cidades. "Confesso que, desde o primeiro dia, não tive dúvidas e estava convencido de que esta viagem deveria acontecer", disse ele. "Estou muito feliz em dizer, graças a Deus e à maravilhosa assistência médica, que estou aqui hoje, e acredito que bastante bem." Também durante a viagem, o pontífice foi convidado por jornalistas a comentar o resultado das eleições de meio de mandato nos EUA, nas quais ele votou por correio. Questionado sobre o caso do Texas, onde os democratas conquistaram o governo e uma vaga no Senado dos EUA, o papa afirmou que não tinha comentários a fazer. "Tenho orgulho de ser americano e de exercer esse direito", limitou-se a dizer. Não há registro de que outros papas tenham votado em eleições. Leão vai encontrar um Uruguai bastante diferente daquele que recebeu João Paulo 2º em 1988, na última visita papal ao Uruguai antes da que se inicia nesta sexta. Em 1990, cerca de 66% se identificavam como católicos, 2%, como protestantes e outros 2%, como judeus, de acordo com um estudo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Os 30% restantes professavam outra ou nenhuma religião —o que já era um índice alto para a época, quando mais de 83% da população do Brasil, por exemplo, era formada por católicos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Atualmente, o Uruguai é o único país da região sem maioria cristã, de acordo com o Pew Research Center. Uma pesquisa divulgada em agosto deste ano pela consultora Cifra mostra que a porção de católicos foi para 32,5%, sendo 23,7% que se consideram não praticantes. Agnósticos ou ateus, por sua vez, representam 28,2% da população. O caráter secular do país remonta ao início do século 20, quando José Batlle y Ordóñez, presidente entre 1903 e 1907 e entre 1911 e 1915, levou a cabo reformas que moldaram a identidade laica do Uruguai. Apoiado por movimentos que defendiam a separação da Igreja e do Estado desde o século 19, seu governo retirou crucifixos dos hospitais públicos e eliminou o ensino religioso das escolas, por exemplo. Em 1919, a Constituição do país já determinava que "todas os cultos religiosos são livres" e que "o Estado não apoia nenhuma religião".Mais de um século depois, porém, os limites entre religião e Estado continuam gerando debates no país. Em março, distintas forças políticas enviaram uma carta ao cardeal Daniel Sturla convidando Leão para falar na Assembleia Geral durante a sua visita ao Uruguai —o que, previsivelmente, suscitou controvérsia. "Esta casa é a casa da democracia uruguaia. É a única sede do Estado uruguaio onde estão representados todos os partidos políticos, todas as formas de pensar e todas as crenças", afirmou o senador Javier García ao justificar a iniciativa em junho, logo após o pontífice discusar no Congresso da Espanha. "Uma mensagem de paz emitida a partir do Uruguai possui uma força que talvez não tivesse se fosse emitida de outros lugares do mundo." De acordo com pesquisa de agosto da Cifra, 58% da população estava de acordo com a visita do papa aos legisladores, enquanto 25% rejeitavam a ideia. O Vaticano, no entanto, descartou a possibilidade. "Houve uma certa polêmica sobre a possibilidade de o papa visitar o Parlamento", afirmou o cardeal Sturla a uma rádio em setembro. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo "A Santa Sé, enquanto tal, não tem interesse em que o papa visite os diversos parlamentos. Ele o fez na Espanha, como uma exceção, mas não é comum que ele visite parlamentos." A visita do papa será oficial, não de Estado —as primeiras são realizadas por chefes de Estado e de governo, caso do pontífice, sem visita aos Poderes Legislativo e Judiciário, de acordo com o regulamento que define viagens do tipo. Mais recentemente, em outubro, tais divergências ressurgiram na política uruguaia quando legisladores se juntaram para pedir a iluminação do Parlamento com as cores do Vaticano. Na última segunda, o presidente da Câmara de Representantes e opositor do atual governo de esquerda, Rodrigo Goñi Reyes, reafirmou o pedido em um vídeo publicado em suas redes sociais. "Viola a laicidade", reagiu o deputado Fernando Amado na ocasião. "Estaremos aqui para lembrá-lo de que a laicidade não é um assunto esquecido. E de que nossas instituições republicanas são honradas e respeitadas não apenas com palavras, mas com atos."

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