Um tribunal do Quênia condenou nesta sexta-feira (6) Paul Mackenzie, líder de uma seita, a 200 anos de prisão pelo assassinato de 190 crianças que morreram de fome por ordem dele e foram enterradas em uma floresta. Elas estão entre as 500 supostas vítimas de uma das chacinas ligadas a seitas mais letais dos últimos tempos. A pena foi composta por cem anos por homicídio mediante privação de alimentos e outros cem anos por homicídio direto, afirmou a juíza Diana Kavedza ao ler a sentença. Segundo a promotoria, Mackenzie, que liderava uma igreja cristã apocalíptica em uma floresta próxima à costa do oceano Índico, no leste do Quênia, havia instruído seus seguidores a morrerem de fome, juntamente com os filhos, para chegar ao céu antes do fim do mundo. Seus cúmplices ameaçavam e espancavam as vítimas para garantir que obedecessem às ordens. Os corpos, emaciados, foram encontrados espalhados em covas rasas. Vestindo uma camisa polo cinza e calça preta, Mackenzie não demonstrou reação enquanto a juíza lia a sentença em uma tenda montada do lado de fora do tribunal onde ocorreu a audiência. Ele havia negado as acusações de homicídio, afirmando que não obrigou as vítimas a passar fome. O tribunal rejeitou os argumentos da defesa. Vinte e oito cúmplices receberam penas que variam de 10 a 160 anos. Todos foram considerados culpados em um julgamento realizado no mês passado. O advogado de defesa Lawrence Obonyo, que representa Mackenzie e quase todos os demais condenados, afirmou que recorrerá da decisão. Mackenzie, que transmitia sermões em um canal do YouTube com milhares de inscritos, conquistou a confiança das vítimas por meio de sua presença carismática na mídia e, depois, passou a perseguir seguidores indefesos e vulneráveis, sobretudo crianças, afirmou Kavedza. "As crianças viam seus irmãos morrerem depois de suportar dias de fome", disse ela. "Aquelas que roubavam comida ou água eram espancadas, tinham as mãos amarradas e eram trancadas em casas transformadas em locais de jejum para que morressem." Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo O caso chocou o Quênia em abril de 2023, quando a polícia começou a encontrar corpos na floresta de Shakahola, perto da cidade litorânea de Malindi. Embora o julgamento tenha abrangido apenas os casos de 190 crianças e 1 vítima adulta, a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Quênia afirma que, ao todo, 448 corpos foram encontrados na floresta. Mackenzie também é acusado de ordenar a morte de 52 pessoas encontradas em outro local, em uma aldeia a 30 km de distância, elevando para 500 o total estimado de vítimas. Ele se declarou inocente nesse processo. A dimensão da matança é comparável à de uma seita apocalíptica que matou mais de 700 pessoas em Uganda, em 2000, e ao massacre de Jonestown, na Guiana, em 1978, quando um líder de seita norte-americano matou mais de 900 pessoas ao ordenar que bebessem veneno. Stephen Mwiti, 48, pai de seis crianças mortas por Mackenzie e marido de uma das cúmplices condenadas, disse que sua mulher havia levado os filhos para Shakahola, onde morreram de fome. Mesmo que os adultos tivessem concordado em jejuar, "e as crianças?", perguntou Mwiti à Reuters antes da sentença. Suleiman Dziro, cuja mulher e os seis filhos continuam desaparecidos, chorou do lado de fora do tribunal após a sentença. "Estou feliz, mas onde está minha família?", disse. "A única coisa que peço ao governo é que ajude a encontrar minha família. Se estiverem mortos, que me entreguem os corpos para que eu possa enterrá-los." Dan Mackenzie, um dos filhos de Paul Mackenzie, disse que fugiu do grupo no início da adolescência, depois de deixar de acreditar nas promessas de chegar ao céu, e que perdeu amigos e o irmão mais novo no local. "É justiça para as pessoas que perdemos lá em Shakahola", afirmou. Mackenzie estava no radar das autoridades desde 2017, quando a polícia fez buscas em suas instalações. Em 2019, as autoridades fecharam a igreja de Mackenzie em Malindi, e ele se mudou para a vizinha floresta de Shakahola. As descobertas provocaram pedidos por uma fiscalização mais rigorosa dos grupos religiosos, mas propostas apoiadas pelo governo e pelo Senado ainda não se tornaram lei. Ojiro Odhiambo, chefe da unidade de resposta rápida da Comissão de Direitos Humanos do Quênia, afirmou que a condenação foi um passo importante, mas que a responsabilização deveria ir além, já que administradores locais, policiais, agentes de inteligência e líderes religiosos também eram responsáveis por não agir diante dos repetidos sinais de alerta. "Todas essas pessoas falharam com a população", disse. Kavedza concordou que as instituições quenianas haviam falhado e pediu ao Parlamento que tomasse medidas para impedir que isso voltasse a acontecer. Em 2023, o presidente William Ruto afirmou que assumia a responsabilidade pelo fato de o governo não ter conseguido evitar as mortes.
L�der de seita acusado da morte de 190 crian�as � condenado a 200 anos de pris�o no Qu�nia
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