A decisão judicial que autorizou a operação desta quinta-feira (17) para apurar elos entre empresas de transporte e o PCC (Primeiro Comando da Capital) cita a existência de conversas em que supostos laranjas da facção tratam da negociação de fuzis, coletes balísticos e cerca de 200 quilos de pasta-base de cocaína. O documento deixa claro, porém, que se trata de uma investigação ainda em curso, sem conclusões ou condenações. Os diálogos são atribuídos a Claudionor Aparecido Sabino Tomaz, sócio de José Daniel Satilite na Translider, empresa de ônibus de Cubatão (SP). Segundo a polícia, ambos atuariam como laranjas do PCC no setor de transportes. Em uma das conversas entre ele e outros investigados, conforme a decisão, há menções à expressão "óleo para produzir ouro branco" —o que investigadores apontaram ser uma referência a drogas— e preocupações com possíveis prisões. Segundo as investigações, eles temiam ser substituídos por outros laranjas. A Folha tenta localizar as defesas de Claudionor Tomaz e José Daniel. A reportagem não localizou contatos telefônicos da Translider. Entrou em contato pelos três endereços de email que constam no site, mas as mensagens retornaram. Segundo a decisão, ambos recebiam ordens de um terceiro, chamado de "patrão", e que há mensagens nas quais eles dizem ser laranjas do empresário Paulo Sirqueira Korek Farias, dono da A2 Transportes e presidente do Esporte Clube Água Santa. Tanto Paulo quanto a A2 foram alvos da operação desta quinta sob a suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. Ambos negam. "A A2 Transportes nunca teve envolvimento com o PCC e jamais fez lavagem de dinheiro. Nossos recursos são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços que prestamos", afirmou Korek. Sem dar mais detalhes, ele disse acreditar que a operação tem "forte componente político" e que a A2 Transportes "seguirá colaborando com as instituições responsáveis pela apuração e respeitando rigorosamente o devido processo legal". A gestão Ricardo Nunes (MDB), por sua vez, declarou ter criado um grupo de trabalho para investigar os contratos entre o município e empresas investigadas. No caso da A2, a administração disse avaliar um decreto de intervenção na empresa nos mesmos moldes feitos com a Transwolff e a UpBus, também alvos de operação por suspeitas de elo com o PCC. Batizada de Vectura Corrupta, a operação desta quinta-feira apura se empresas que prestam serviço de transporte coletivo em municípios paulistas passaram a ser administradas por integrantes da facção após vencerem licitações. A investigação mira também a suspeita de corrupção de servidores públicos e o envolvimento do PCC no financiamento de campanhas durante as eleições de 2024 e a deste ano. Ao todo 16 pessoas foram alvos de mandados de prisão em decisão que autorizou buscas em 18 endereços nos municípios de São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. Os mandados foram expedidos pela 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo e pela Vara Estadual de Garantias de Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Direitos. Um dos alvos é o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), o mais longevo parlamentar da Câmara de São Paulo. Segundo a Justiça, ele seria o "dono de fato" da Transwolff, empresa acusada de lavar dinheiro para o PCC, e "citado nominalmente diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas" pela facção. Ele não foi localizado pelos investigadores em seus endereços. À Folha, por telefone, Leite disse estar fora da capital e afirmou que se entregaria em até 24 horas. "Estou me organizando com meus advogados", declarou. Leite nega todas as acusações. "Nego veementemente, não conheço ninguém do PCC nessa vida", afirmou. Segundo ele, sua relação com o setor de transportes foi institucional, a pedido do então prefeito Bruno Covas, e não há "nenhuma hipótese" de ser dono da empresa, que, segundo ele, reúne 600 cooperados. A Transwolff também nega a acusação. Confira abaixo alguns pontos da decisão: O que é atribuído a Milton Leite Teria ligação com empresas de ônibus apontadas como controladas pelo PCC. Seria responsável direto pela operação de algumas empresas controladas pela facção. Policiais militares teriam afirmado que ele seria o proprietário de fato da Transwolff. É investigado por possível envolvimento com a organização criminosa, mas o documento não detalha outros crimes. O que Milton Leite afirma Nega ligação com o PCC e o cometimento de qualquer crime Afirma que vai se entregar à polícia Principais descobertas sobre o PCC O PCC controlaria 12 das 22 empresas do transporte coletivo da capital. A facção usaria laranjas para administrar empresas e ocultar seus verdadeiros controladores. Licitações seriam direcionadas, com pagamento de propinas e divisão dos valores obtidos. Empresas de ônibus operacionalizariam negócios, comissões e movimentações financeiras da organização criminosa. A influência alcançaria agentes públicos, políticos e campanhas eleitorais ligadas aos contratos. O esquema envolveria Translider, A2, Otrantur e Transbellaflor, entre outras empresas investigadas. A atuação alcançaria São Paulo, Cubatão, Leme, Itanhaém e São Vicente. Decisões tomadas Prisão temporária por 30 dias de 13 suspeitos. Em decisão anterior, em primeira instância, já havia sido autorizada a prisão de outros três suspeitos Busca e apreensão em endereços ligados a 14 investigados. Acesso aos dados de celulares e equipamentos eletrônicos apreendidos durante as diligências. Rejeição, por enquanto, do bloqueio de imóveis, veículos, aeronaves e embarcações. Fonte: Decisão do TJ-SP
Laranjas do esquema de �nibus negociavam fuzis e coca�na, aponta investiga��o
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