A corrupção pode oferecer ao político uma proteção peculiar: a companhia de outros escândalos. Uma denúncia isolada costuma exigir alguma explicação. Porém, cercada por dezenas de notícias semelhantes, corre o risco de virar apenas mais uma. O excesso de informação pode produzir o efeito que a falta dela sempre proporcionou: reduzir a capacidade de cobrar. Essa é uma hipótese para compreender um paradoxo da eleição brasileira. A indignação com a política acabou favorecendo Flávio Bolsonaro, mesmo diante da série de questões que ele precisa esclarecer. A lama, em vez de afundar sua candidatura, de certa forma ajudou a sustentá-la. Um dos mecanismos começa com algo banal: informar-se custa tempo. Para acompanhar uma investigação, o eleitor precisa distinguir suspeitas de provas e entender o estágio do processo. Precisa também avaliar explicações que frequentemente chegam embrulhadas em linguagem jurídica. Tudo isso compete com o trabalho e com as urgências diárias. Diante de notícias sucessivas, surge um atalho: "Todos estão envolvidos". A frase oferece alívio intelectual. Dispensa a comparação entre condutas e transforma responsabilidades individuais em uma característica genérica da política. Então, cada nova denúncia passa a confirmar a conclusão anterior, sem necessariamente alterar a avaliação de quem aparece nela. Porém, veja o quanto tal raciocínio é irônico, pois a crença de que todos são iguais beneficia especialmente quem teria mais a perder com uma comparação cuidadosa. Se qualquer diferença desaparece numa suspeita coletiva, o custo de um episódio grave pode acabar diluído no desgaste geral. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Então, tem-se que o desejo de mudança se desprende da exigência de integridade. Para parte do eleitorado, mudar passa a significar retirar Lula. Assim, Flávio recebe, por sua posição na disputa, uma credencial de renovação que seu histórico não justifica. Além disso, um político que percebe pouca diferença entre esclarecer e desviar a conversa tem menos razões para prestar contas. Assim, a oposição a Lula vira um certificado de qualidade emitido sem auditoria. O eleitor pode rejeitá-lo por vários motivos legítimos. Porém, é certo conceder imunidade ao Flávio? O apoio de alguns pastores evangélicos acrescenta uma proteção religiosa a essa blindagem política. Ao apresentar Flávio como escolhido por Deus, esses líderes emprestam sua autoridade espiritual a um candidato que deveria responder por suas próprias condutas. Note a contradição: como conciliar o rigor moral pregado aos fiéis com a indulgência oferecida ao aliado? Se o púlpito cobra dos outros o reconhecimento de seus pecados, por que a bênção ao candidato dispensaria explicações sobre seu passado? A unção vinda do púlpito funciona como um selo que dispensa o exame da biografia. O fiel que confia em seu pastor tende a acolher a indicação sem conferir o histórico do indicado, e as suspeitas passam a soar como perseguição aos que defendem a fé. Então, cria-se um arranjo curioso em que um candidato cercado de episódios pouco cristãos recebe a bênção de quem prega honestidade. Nesse altar, o pecado parece pesar menos que a conveniência política. E, no final, a fiscalização continua produzindo notícias, mas a punição eleitoral se torna menos provável. O texto é uma homenagem à música "Jesus Cristo", interpretada por Maria Bethânia. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Lama pol�tica e un��o religiosa beneficiam sujeiras bolsonaristas
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