Kleber Mendon�a Filho homenageia Jafar Panahi em curta ap�s disputa no Oscar

Kleber Mendon�a Filho homenageia Jafar Panahi em curta ap�s disputa no Oscar

Após o alcance internacional de "O Agente Secreto", a nova produção de Kleber Mendonça Filho, "Sul de Teerã", é uma homenagem a uma figura fascinante do cinema mundial, que disputou o último Oscar de filme internacional ao lado do pernambucano —Jafar Panahi, criado na cidade que nomeia a obra. O curta de oito minutos gravado nas ruas de Nova York, em exibição na Mostra de Cinema de São Paulo, acompanha Panahi, de 66 anos, em uma conversa despretenciosa sobre sua infância na capital do Irã. O diretor é autor de "Foi Apenas um Acidente", que levou a Palma de Ouro em Cannes no ano passado. Panahi é já há muito tempo um alvo do regime do Irã. Ele estudou cinema em seu país-natal e serviu no Exército, o que era obrigatório, durante a guerra contra o Iraque na década de 1980. Foi, inclusive, capturado por rebeldes curdos e ficou refém por mais de dois meses. Por meio do cinema, Panahi começou a discordar da condução autoritária do país e a satirizá-la. Não caiu bem. Em 2010, foi preso por quase três meses. Foi sentenciado a seis anos de prisão e proibido de produzir filmes por 20 anos, em decisão posteriormente derrubada pela Justiça. Ficou em liberdade enquanto apelava e, como se vê, não se curvou ao autoritarismo. Em 2022, foi preso novamente, por sete meses. Transformou essa experiência na base para "Foi Apenas um Acidente", produção irônica que conta a história de um mecânico que acredita ter encontrado o oficial de inteligência que o torturou enquanto ele estava na prisão. Em dezembro passado, a Justiça iraniana condenou Panahi a revelia a um ano de prisão por acusações de se envolver em atividades de propaganda contra o Estado. Em junho, o Tribunal Revolucionário, a mais alta corte, confirmou a sentença. Ele está recorrendo. Quem espera que o curta verse sobre esses temas, porém, depara-se com outro caminho. O sabor do material está na sutileza ao falar da infância de Panahi em Teerã, quando gastava os poucos trocados que tinha para ir ao cinema com os amigos cruzando a cidade, às vezes na maior parte do caminho a pé. É, ao final, uma ode a como o cinema pode transformar uma vida ainda em seus anos iniciais. Panahi deixa claro em uma das passagens que as grandes telas mudaram a sua forma de ver o mundo. "Sul de Teerã" surgiu como ideia do Festival de Cinema de Nova York, que no ano passado criou uma iniciativa para financiar a criação de curtas por alguns diretores que estavam participando daquela edição. O pernambucano foi convidado a gestar uma ideia. Kleber estava na cidade lançando "O Agente Secreto", ao lado de Wagner Moura, com quem participou de debates. Panahi também estava para divulgar seu filme. "Sul de Teerã" foi exibido pela primeira vez na 64ª edição do festival de cinema da cidade, no Lincoln Center. Durante um debate, Mendonça Filho disse que, por mais que tivesse vontade de perguntar a Panahi sobre a situação atual do Irã, em guerra com os Estados Unidos, não o fez porque queria "mostrar aquela terra como qualquer outro lugar, onde as pessoas seguem vivendo suas vidas". Os sons de fundo do filme, aliás, não são de Nova York. São de Teerã, resgatados de um filme antigo de Panahi.

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