Ninguém gritou para Keira Knightley quando ela saiu de um espaço de ensaios na região norte de Londres. Nenhuma câmera de foto disparou enquanto ela caminhava alguns quarteirões até um pub do bairro, acomodou-se em uma mesa de canto e tirou os óculos escuros. Nem sempre foi assim. Knightley, de 41 anos, tinha 16 quando filmou o longa que a revelou, "Driblando o Destino", e apenas 17 quando foi escalada para a franquia "Piratas do Caribe" e para "Simplesmente Amor". No fim da adolescência e no início dos 20 anos, participou de filmes de grande projeção, como "Rei Arthur" e "Orgulho e Preconceito" —que lhe rendeu uma indicação ao Oscar—, enquanto vivia sob o olhar implacável dos paparazzi. Fotógrafos acampavam diante de sua casa e a seguiam por Londres, gritando "vadia" e "prostituta" apenas para provocá-la. "Realmente parecia que, de um dia para o outro, eu tinha sido lançada por um foguete e o mundo inteiro tinha enlouquecido completamente", disse ela em uma tarde no fim de setembro, diante de uma garrafa de água com gás. Knightley se lembrou de ter sido perseguida até o consultório de sua terapeuta e de a terapeuta lhe dizer que ela era a única paciente cuja paranoia era inteiramente real. Naquela época, Knightley tinha suas estratégias. Tentava estragar as fotos usando as mesmas roupas durante dias ou ficando imóvel na rua. Tornou-se cada vez mais introvertida. Aos 22 anos, sofreu o que descreveu como um colapso nervoso e abandonou a atuação por um ano. Quando voltou, fez escolhas diferentes. "Dei um passo atrás de forma muito consciente", disse, olhando pela janela e mexendo em um anel no dedo. "Isso definitivamente determinou os rumos da minha carreira." Isso foi há quase duas décadas. Portanto, é uma coincidência —embora talvez não seja inteiramente uma coincidência— que seus dois projetos atuais, a série da Netflix "Black Doves" e uma adaptação teatral para o West End do filme vencedor do Oscar "A Vida dos Outros", tratem explicitamente de vigilância. Em "Black Doves", que retorna na quinta-feira para a segunda temporada, ela interpreta Helen, uma espiã de aluguel casada com o primeiro-ministro britânico. Em "A Vida dos Outros", vive Christa-Maria, uma atriz espionada por um agente da Stasi. "Tenho a lembrança concreta de ser seguida; tenho a lembrança concreta do escândalo das invasões de telefone", disse. "Então me identifico com isso de maneira pessoal." Em seguida, fez uma ressalva. "Mas essas histórias são mais interessantes do que minha ligação pessoal com elas." Filha dos atores Will Knightley e Sharman Macdonald —que também é dramaturga—, seguir a carreira artística parecia inevitável. "Venho de uma família de atores e escritores, então era simplesmente isso que eu via", disse Knightley. Já famosa na adolescência, ela nunca frequentou uma escola de teatro. Mas seus pais, sobretudo o pai, ensinaram-lhe os fundamentos —análise de roteiro, trabalho emocional. Mesmo naquela época, ela tinha um talento especial para interpretar personagens reprimidos, com grandes reservas de sentimentos —desejo, raiva, rebeldia— abaixo de uma fachada impassível. Manter essa fachada sempre foi fácil para Knightley. Ela é naturalmente observadora, naturalmente reservada. "Na vida cotidiana, ao lidar com as pessoas, fico bastante na retaguarda", disse. "Em termos emocionais, se você me colocar em uma situação de muito estresse, isso dificilmente ficará estampado em mim." Ela aprecia esse distanciamento, esses limites. "É muito divertido brincar com eles", afirmou. Gore Verbinski, diretor dos três primeiros filmes de "Piratas do Caribe", conheceu Knightley quando ela tinha 17 anos. Ela já era uma atriz de força extraordinária. "Plutônio", foi como ele a definiu, acrescentando um palavrão para dar ênfase. Enquanto conversavam sobre a personagem que ela interpretaria, uma garota de espartilho libertada pela pirataria, Verbinski já conseguia enxergar "a rebelde fermentando por dentro", disse. Não posso dizer que tenha visto essa rebelde durante a hora ou duas que passamos no pub. O que vi foi algo que, considerando os abalos do início da vida adulta de Knightley, talvez fosse ainda melhor. Vi uma mulher normal, de humor seco, aparentemente equilibrada e profundamente envolvida com a vida familiar ao lado do marido, o músico James Righton, e das duas filhas. Ela tendia a evitar contato visual, olhando pela janela ou ao redor do pub. Dadas suas primeiras experiências com a imprensa, isso era compreensível. Ela admitiu, de maneira amigável, que não se sentaria para uma entrevista como esta se não fosse obrigada. "Se a escolha fosse inteiramente minha, apenas as personagens seriam públicas", disse. Mesmo hoje, Knightley não entende totalmente por que foi um alvo tão recorrente dos tabloides, embora reconheça que outras mulheres daquela época —Sienna Miller, Amy Winehouse, Lily Allen— sofreram tanto quanto ela ou até mais. "Minha vida era tão tranquila", disse. "De certo modo, curiosamente, isso acabou sendo uma espécie de salvação. Você não podia se culpar." Tendo sido alvo de espionagem, faria sentido que Knightley quisesse explorar o lado oposto em seu trabalho. Mas não foi por isso que aceitou "Black Doves", e sua abordagem do papel não é diretamente pessoal. "Você quer criar um ser que se comporte de maneiras estranhas em determinadas circunstâncias", disse. A estranheza particular de Helen —sua amoralidade— entusiasmou Knightley. E, como mãe que trabalha, ela se interessou pela maneira como a personagem separa a vida profissional da vida doméstica. É até aí que vai o aspecto pessoal. "Isso é levado ao extremo, mas, no fundo, todos nós temos rostos diferentes para pessoas diferentes", disse. Na segunda temporada, os extremos são ainda mais violentos. O marido de Helen, papel de Andrew Buchan, tornou-se primeiro-ministro. "Ela está mais exposta, o que significa que há mais em jogo, e isso é empolgante", disse Knightley. "Também significa que ela está um pouco mais limitada no que pode fazer." A vulnerabilidade trazida pela notoriedade também é um tema de "A Vida dos Outros", a história de um agente da Stasi incumbido de espionar um dramaturgo e uma atriz. A peça reúne novamente Knightley e Robert Icke, que foi assistente de direção em sua estreia nos palcos, uma montagem de "O Misantropo", de 2009. "Era uma pressão absurda, porque ela nunca tinha subido ao palco antes", recordou Icke. "Lembro-me de vê-los tendo de arrastar um paparazzo para fora do primeiro camarote." Ele e Knightley mantiveram contato e, assim que conseguiu encontrar a forma certa para a adaptação, pensou imediatamente nela. "Ela não tem medo de ser antipática, não tem medo de interpretar personagens que fazem coisas erradas", disse Icke. "Eu apenas sabia que ela compreenderia quem é essa mulher e por quê." Assim como Helen, Christa-Maria tem uma moral maleável e descobriu como prosperar dentro de um sistema corrupto. "Acho interessante a mentalidade de um sobrevivente, porque muitas vezes essas pessoas não têm princípios morais rígidos", disse Knightley. "Como sobreviver em um sistema no qual as regras e as estruturas de poder estão sempre mudando? E é possível ser fiel a si mesmo ou é preciso ser maleável?" Era a primeira vez que ela voltava ao teatro desde uma sombria adaptação de "Thérèse Raquin", de Émile Zola, apresentada na Broadway em 2015. Ela teve de se readaptar ao ritmo dos ensaios e ao risco de se apresentar diante de uma plateia ao vivo. Sentia-se em paz com isso, inclusive com o risco. "Agora já tenho experiência suficiente para dizer: espero muito que dê certo, mas, se não der, vou sacudir a poeira", disse Knightley. Icke também havia percebido isso. "A pessoa que ocupa esse papel está consideravelmente mais relaxada, consideravelmente mais centrada, como seria de esperar, do que aquela pessoa de 24 anos que estava no centro desse enorme furacão de atenção da imprensa", disse. Naquela época, o mundo exterior era muito barulhento; agora há menos ruído. Knightley gosta disso. Às vezes sente falta da determinação e da fome que tinha na juventude, mas se orgulha da carreira mais discreta que construiu, de sua família e de si mesma. Preferia não ter chegado à vida adulta em meio a um turbilhão de escrutínio público e, sem dúvida, teria dispensado a humilhação pública. Mas não se arrepende inteiramente do passado. Aquilo fez dela, assim como as personagens que a atraem, uma sobrevivente. "Foi uma experiência e tanto", disse. "Mas sobrevivi, consegui chegar ao outro lado e me sinto grata." "Porque eu não abriria mão de nenhum daqueles filmes", continuou. "As grandes decisões que levaram àquele nível de exposição —eu não as tomaria de outra maneira. Faria tudo de novo."
Keira Knightley rev� carreira no cinema e encara traumas da ind�stria hollywoodiana
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.