Keeta alega que 85% dos restaurantes puxadores de clientes em SP t�m exclusividade com iFood ou 99

Keeta alega que 85% dos restaurantes puxadores de clientes em SP t�m exclusividade com iFood ou 99

Brasília Quase nove em cada dez restaurantes "âncora" –que têm redes com cinco ou mais lojas– estão fechados à concorrência no mercado de delivery, segundo levantamento da Keeta obtido com exclusividade pela Folha. O recorte inclui a região metropolitana de São Paulo e a Baixada Santista, as duas praças onde a empresa chinesa opera no Brasil. Os dados compilados pela empresa chinesa mostram que 85,7% dos restaurantes desse tipo nas praças em que ela atua fecharam contratos de exclusividade com o iFood ou com a 99Food, e agora estão impedidos de entrar nas plataformas concorrentes. O levantamento abrange um universo de 147 redes e inclui apenas restaurantes "âncora", chamados dessa forma porque têm o potencial de atrair clientes para uma plataforma de delivery. É o caso de grandes marcas, como McDonald's, Outback ou Pizza Hut. Também inclui redes menores com renome local e regional. Procurado, o iFood disse que a alegação de exclusividade generalizada feita pela Keeta não procede e não retrata a realidade. Já a 99 afirmou que acordos de exclusividade desempenham um papel estratégico e relevante para que empresas entrantes alcancem massa crítica. Segundo a empresa, esses acordos permitem investimentos em setores historicamente concentrados. Montagem mostra entregadores com mochilas da iFood, 99Food e Keeta em São Paulo e no Rio de Janeiro - Danilo Verpa e Cristiane Gercina/Folhapress Os dados foram levantados pelo time comercial da Keeta antes e após a empresa iniciar as operações no Brasil. "A gente chegou a ter mais de 1.000 pessoas só fazendo essa função [de prospecção], em que ele [o agente comercial] vai batendo de porta em porta e tem que trazer a devolutiva do porquê esse restaurante tem alguma objeção a trabalhar com a Keeta", diz Danilo Mansano, vice-presidente da Keeta. O executivo afirma que a Keeta já queimou R$ 1 bilhão para permanecer nas praças que ocupa –São Paulo e Baixada Santista– e que não consegue expandir para outras cidades enquanto a Justiça e o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) não limitarem as práticas de exclusividade. Segundo o levantamento, o fechamento do mercado é ainda maior nos segmentos de pizzas e comida saudável, em que 92% das redes mapeadas estão bloqueadas. É menor nos restaurantes de comida asiática, que têm percentual de 78% de fechamento. Segundo a Keeta, 88% das redes "âncora" de culinária brasileira e 86% das de hambúrgueres estão blindadas por contratos de exclusividade. O iFood afirma que seus contratos de exclusividade são limitados pelo Cade, que não permite acordos com redes de 30 ou mais lojas, e limita a 8% a base de restaurantes exclusivos em cidades com mais de 500 mil habitantes. "Chama atenção que a Keeta atribua sua dificuldade de expansão aos contratos de exclusividade do iFood, já que outros concorrentes seguiram investindo e expandindo suas operações no país", afirmou a empresa, em referência indireta à 99Food. No início deste mês, o iFood acusou a Keeta de usar subsídios cruzados, aproveitando lucros da matriz chinesa para reduzir artificialmente o preço dos serviços prestados no Brasil. Em resposta, a Keeta disse que a ação é uma estratégia para "tentar desviar a atenção" de outras investigações das quais o iFood é alvo. A 99Food, por sua vez, afirma que vê legitimidade em suas iniciativas. "A análise das circunstâncias concretas demonstrará os efeitos positivos de suas parcerias para a concorrência", disse a empresa em nota, citando dados da Associação Brasileira de Restaurantes que mostram expansão de 20% no segmento de delivery em São Paulo. Tanto 99Food como iFood adotam contratos de exclusividade com restaurantes nas praças em que operam. Esses contratos condicionam um pagamento inicial ("upfront", no termo usado por empresas) à garantia de que a loja vai operar com apenas uma ou duas plataformas de delivery no total. No caso do iFood, os contratos de exclusividade costumam fechar o restaurante totalmente à concorrência de outras plataformas, mas a empresa argumenta que essa prática respeita limites de faturamento, número e tamanho de restaurantes exclusivos fixados pelo Cade, o órgão antitruste brasileiro, em 2023. A 99Food, por sua vez, propõe aos restaurantes o que chama de semiexclusividade. O restaurante aceita um investimento inicial e pode continuar trabalhando com o iFood, mas fica impedido de entrar na plataforma da Keeta ou de outros concorrentes. No último dia 9 de agosto, o Cade rejeitou uma liminar da Keeta que pedia a suspensão dos contratos de semiexclusividade da 99Food, mas mandou prosseguir a investigação sobre a prática. Após revés no Cade, a empresa agora aguarda julgamento do tema no Tribunal de Justiça de São Paulo. A sessão está marcada para 29 de setembro.

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