Por vezes, há um certo pudor da gente do cinema brasileiro de nomear pessoas reais nos filmes. Coloca-se fatos que aconteceram com o personagem real, mas trocando os nomes. Na contramão disso está a série "Brasil 70 - A Saga do Tri", que ficcionaliza em cima de nomes conhecidos do público sem preocupação em ser fiel aos fatos. Vejamos o caso de "Justino - Nos Bastidores do Reino", longa de José Eduardo Belmonte exibido na competição principal do 54º Festival de Cinema de Gramado. Todo mundo sabe de que reino se trata e quem é o rei, mas a opção foi pelo uso de pseudônimo, provavelmente para evitar processos ou interdições. Christian Malheiros interpreta um personagem que existiu e de fato se chama Justino, Mário Justino. O filme mostra de que maneira ele passou a ser pastor de uma igreja neopentecostal e como se deu sua queda, causada principalmente pelo adoecimento decorrente da contaminação pelo vírus HIV. Acompanhamos sua ascensão na igreja e sua danação, não só na igreja, mas na vida. A trama principal, ou seja, o longo flashback que ilustra a narração de um envelhecido Justino, acontece durante os anos 1980 e 1990, entre Rio de Janeiro, onde tudo começou, São Paulo, Salvador, Lisboa e Nova York. Inicialmente, Justino cai nas graças do mandachuva da igreja, o bispo Azevedo, numa caracterização boa de Caio Blat. Conhece outros pastores, casa com uma das fiéis, Graça, papel de Larissa Nunes, e consegue a aprovação dos pais. Parece acreditar no que faz, sente-se devoto a Deus e pratica sua fé com verdade. Mas não consegue vencer suas tentações mundanas, que o levam a uma relação homossexual e a consumir drogas, hábitos obviamente condenáveis para a igreja. O bispo e os outros pastores fazem vista grossa enquanto ele trabalha bem pela causa e convence os fiéis. Avisam que seus atos podem trazer problemas para todos e o aconselham a ser mais discreto em sua vida particular. Quando sua igreja passa a ser a que rende menos, seus pecados passam a ser cobrados. Geralmente a direção mantém ritmo acelerado. Os acontecimentos se sucedem com velocidade. Algumas elipses chegam a ser ousadas para um filme que busca comunicação com o grande público. Ousadia e apelo popular não costumam andar de mãos dadas. Mas o público presente, no geral, aplaudiu entusiasmadamente, o que nos diz que a fórmula funcionou. Belmonte parece ter como principal referência o cinema de Martin Scorsese, mais especificamente "Cassino". Saem as casas de jogos, entram as igrejas, enquanto os sacos de dinheiro se multiplicam. Apesar de não vermos a violência gráfica do filme de Scorsese, assassinatos ou torturas, em alguns momentos a caracterização dos pastores como mafiosos pode incomodar os evangélicos. Mas sabemos como o dinheiro corre ligeiro nesse meio. E quanto mais fiéis, mais dinheiro entra nos cofres. O filme mostra até a prisão do bispo durante os anos 1990, sob a acusação de enriquecimento ilícito e exploração da fé das pessoas, justamente quando um montante de dinheiro ia ser enviado para ele de Nova York, amarrado na barriga de Justino. Apesar de confuso por vezes, graças à correria nem sempre organizada imposta por Belmonte, o filme nunca perde o interesse, sempre nos deixando com a dúvida do que seguiria. O excesso de narração pode ser acusado de dependência da literatura, já que o filme é baseado no livro que o próprio Justino escreveu sobre esse período de sua vida, "Nos Bastidores do Reino". O cinema, porém, pode se servir da literatura muito bem, principalmente porque as imagens, mesmo quando literais, sempre contam algo mais. Não totalmente longe das experimentações do início da carreira, mas cada vez mais atrelado a um cinema popular, o que não é pecado algum, Belmonte tem mostrado um domínio raro dos artifícios para conquistar o público, como havia feito há anos com "O Gorila". Nem sempre com sucesso, mas sempre com alguma carta na manga que o salva da mesmice.
'Justino' � cinema popular e retrata ascens�o e ru�na de pastor gay
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