Numa noite de abril de 2007, nas montanhas da Colômbia, um soldado se aproximou de uma rede onde descansava um homem com quem estava proibido de falar. Ofereceu-lhe um cigarro. Conversaram sobre a cidade natal, as ruas, a igreja. Até que o soldado perguntou o nome do pai. "Tomás Montes", respondeu o homem. Luis Esteban Montes gelou. Era também o nome de seu pai. O desconhecido era Leonardo, seu irmão. Leonardo fora levado ao acampamento para morrer, assassinado e apresentado como guerrilheiro abatido em combate. Mais um número na contabilidade de uma guerra que o Exército precisava mostrar que estava vencendo. Luis Esteban integrava a tropa encarregada da operação. A história está em "Los Nuestros", de Catalina Oquendo, sobre os falsos positivos: civis assassinados e apresentados como baixas guerrilheiras. Catalina investiga esses crimes desde 2006, quando recebeu uma lista de 29 casos. Hoje, a Jurisdição Especial para a Paz (JEP) estima 7.837 vítimas entre 1990 e 2016. Os crimes se multiplicaram sob o governo de Álvaro Uribe. "Como permitimos que chegássemos a isso? E em plena democracia?", perguntou Catalina em nossa conversa. Ela investigou como militares passaram a matar para apresentar resultados e como a sociedade, inclusive a imprensa, acreditou na "ficção da vitória da guerra". Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Criada pelo acordo de paz de 2016, a JEP julga crimes graves de guerrilheiros e agentes do Estado. Quem confessa e contribui para a verdade pode receber sanções restaurativas em vez de prisão. O mecanismo permitiu que fossem rompidos centenas de pactos de silêncio. Soldados confessaram assassinatos; a JEP já proferiu sentenças. Falta esclarecer a responsabilidade dos superiores e o destino de desaparecidos. "Essa verdade pode ficar truncada se o processo da JEP não continuar", alerta Catalina. É nesse momento que o presidente Abelardo de la Espriella, que prometeu acabar com a JEP, apoia seu enfraquecimento. Protegida pela Constituição, ela não pode ser extinta por decreto, mas pode ser asfixiada financeiramente, com apoio legislativo. Na última terça-feira (20), o Congresso aprovou um corte de cerca de 23% nos recursos da JEP para 2027. O governo invoca a responsabilidade fiscal. A questão não é apenas contábil. É política. Cortar recursos antes da conclusão das investigações pode deixar investigações incompletas, vítimas sem respostas e, como consequência, responsáveis impunes. A demora da JEP merece críticas. Mas enfraquecê-la ameaça também a segurança jurídica dos militares que confessaram confiando nas regras da justiça transicional. A busca de desaparecidos também sofre cortes. Catalina escreveu "Los Nuestros" contra o negacionismo. A JEP, conquista da paz e da persistência das vítimas, precisa ter condições de concluir seu trabalho. Naquela noite de abril de 2007, Luis Esteban Montes descobriu por acaso quem estava prestes a morrer. Para milhares de famílias colombianas, descobrir o que aconteceu com seus filhos, irmãos e pais não pode voltar a depender do acaso. É para isso, também, que existe a JEP, que nos próximos anos, com a extrema direita no poder, terá de lutar para continuar relevante e manter seus recursos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Justi�a da paz sofre para manter-se na Col�mbia de Abelardo de la Espriella
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