Com os juros dos títulos longos americanos rondando os 5%, o maior nível desde 2007, voltou a discussão sobre os motivos desse aumento. A inflação decorrente do preço do petróleo e da guerra tarifária explica parte da história, mas não tudo. Hanno Lustig, de Stanford, mostra, em um estudo para o Aspen Economic Strategy Group, que o investidor global deixou de ver o título americano como um ativo seguro, e já não é de hoje. O prêmio que os investidores aceitavam pagar por essa segurança, que barateava a dívida do governo, desapareceu. Quando a Bolsa cai, os títulos agora caem junto, em vez de proteger a carteira, e os juros passaram a subir com notícias de gastos públicos sem financiamento. Furceri, Gonçalves e Li, do FMI (Fundo Monetário Internacional), mediram esse efeito com base nas projeções do escritório de orçamento do Congresso: cada ponto percentual a mais no déficit previsto eleva os juros de longo prazo em 0,2 a 0,3 ponto percentual. O efeito ficou próximo de zero nos anos de prudência fiscal da virada do século e vem crescendo desde então. Quem aposta que os EUA vão crescer para sair da dívida costuma lembrar do pós-guerra, quando a dívida pública caiu de 106% do PIB (Produto Interno Bruto) em 1946 para 23% em 1974. Acalin e Ball estimaram os motivos: dos 83 pontos de queda, 17 vieram de o governo arrecadar mais do que gastava, sem contar juros, e 28 de juros mantidos artificialmente baixos. Em 76 anos, o crescimento acima da taxa de juros normal reduziu a dívida em apenas 22 pontos. Aqueles juros baixos foram obra do Fed (Federal Reserve), que, de 1942 a 1951, limitou os juros dos títulos públicos a 2,5% para baratear a guerra, enquanto a inflação corroía o valor da dívida. Lustig diz que o Fed pode repetir a fórmula se tratar cada alta de juros como uma falha técnica do mercado e comprar títulos para contê-la, cobrando, na prática, um imposto oculto de quem poupa. Só que hoje o truque rende menos: as letras de curto prazo já representam 25% da dívida fora do Fed e a dívida curta é logo renovada a juros novos, sem dar tempo à inflação. E, se o mercado passar a temer repressão, vai cobrar mais pelo papel longo, empurrando o Tesouro a encurtar ainda mais a dívida. Sobra gastar menos do que se arrecada. Barry Eichengreen mostra que grandes reduções da dívida são raras desde 2000 e que apenas duas coisas aparecem com consistência nos casos de sucesso: crescimento e baixa polarização política. A exceção é a Jamaica, que reduziu a dívida de 144% para 72% do PIB entre 2012 e 2023, arrecadando cerca de 8% do PIB a mais do que gastava, sem contar os juros, e que foi amparada por uma regra fiscal e por um pacto entre o governo, a oposição e a sociedade. Os EUA tiveram um consenso semelhante nas décadas de 1950 e 1960. Em 1997, depois dos déficits dos anos Reagan, Clinton fechou, com um Congresso republicano, o acordo que levou aos superávits do fim da década. Hoje, as projeções oficiais indicam déficits por três décadas e uma dívida próxima de 190% do PIB em 2056. Sem consenso político, o mais provável é que o ajuste só venha quando a taxa de juros passar de 5% para 6% ou 7% e o mercado forçar o acordo que Washington não vai conseguir fazer sozinha. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Juro longo de 5% nos EUA mostra que ajuste fiscal n�o ser� simples
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