JPMorgan se envolve em projeto criticado da Fifa e pode ter imagem arranhada de novo

JPMorgan se envolve em projeto criticado da Fifa e pode ter imagem arranhada de novo

O banco JPMorgan Chase aprendeu da pior forma como é a reação feroz devido ao apoio a projetos que os torcedores de futebol veem como uma ameaça ao esporte. Nesta semana, a instituição financeira se viu envolta em uma polêmica quando a Fifa divulgou um plano de criar uma subsidiária comercial para administrar a Copa do Mundo e outros eventos da entidade, oferecendo participações minoritárias a investidores privados. A intenção seria captar US$ 4,2 bilhões de investidores globais para a nova empresa que seria avaliada em aproximadamente US$ 20 bilhões. O banco norte-americano foi fundamental para a elaboração do projeto. A Fifa pediu ao JPMorgan para montar uma base global de investidores composta por fundos soberanos, investidores institucionais e family offices que reflita sua composição de membros. Porém, na quinta-feira (30), apenas 48 horas depois que o Financial Times revelou os planos da Fifa, os 55 países-membros da Uefa, que comanda o futebol na Europa, concordaram de forma unânime em boicotar a Copa do Mundo se a entidade máxima seguir em frente com sua tentativa de trazer investidores externos. Sem a participação dos países europeus, que ganharam cinco das últimas seis edições da Copa, a Fifa terá dificuldades para convencer investidores a apoiar seus planos. A Concacaf, que governa o esporte na América do Norte, América Central e Caribe, também rejeitou as propostas. Está é a segunda vez que um projeto com participação do JPMorgan Chase desperta críticas. Há cinco anos, o banco pediu desculpas por desempenhar um papel central no fracassado lançamento de uma Superliga de clubes na Europa, que criaria uma liga fechada de membros permanentes como Real Madrid e Manchester United. A proposta foi duramente criticada e acabou sendo abandonada. O JPMorgan tem outros interesses, já que sua marca de banco de varejo Chase UK é a parceira bancária oficial das seleções nacionais de futebol da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A empresa se recusou a comentar. O banco norte-americano trabalhou secretamente por meses como consultor da Fifa ao lado de Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner —genro do presidente dos EUA, Donald Trump—, cujo fundo Thrive Eternal foi definido como investidor principal. Em 2021, a reação à Superliga foi veemente. O então presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, rotulou os arquitetos do plano de "cobras e mentirosos", enquanto o ex-jogador e atual comentarista Gary Neville classificou o projeto como uma "vergonha absoluta". Após seu colapso, o JPMorgan disse que "claramente avaliou mal como esse acordo seria visto pela comunidade futebolística em geral" e que "aprenderia com isso". No entanto, o banco agora está envolvido em uma tempestade semelhante no mundo do futebol. A Uefa afirmou que "a alma e a governança do futebol não são ativos para negociar", enquanto o comissário de esportes da UE, Glenn Micallef, denunciou o impacto corrosivo da "comercialização implacável do futebol". Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. A European Leagues, grupo da indústria que inclui os campeonatos Inglês e Espanhol, chamou a tentativa de "um desenvolvimento imprudente e divisivo para o futebol mundial". A situação pode causar um forte impacto de reputação ao maior banco dos EUA em ativos, de acordo com três grandes investidores norte-americanos na indústria esportiva. Segundo uma das pessoas ouvidas, o banco deveria pensar no impacto mais amplo antes de se envolver com projetos ligados ao esporte mais popular do mundo. Pessoas próximas ao JPMorgan insistem que as propostas da Fifa não equivalem a uma Superliga 2.0, dizendo que os objetivos do novo empreendimento são, na verdade, o oposto. O JPMorgan vê o plano da Fifa como inclusivo, que impulsionará o financiamento do esporte em todo o mundo e trará mais emoção à Copa do Mundo, de acordo com pessoas familiarizadas com o pensamento do banco. Uma das pessoas ouvidas pela reportagem e que está trabalhando na negociação destacou que os envolvidos sabiam que a resposta pública seria "histérica". Greg Maffei, ex-presidente da Liberty Media, que está atuando como consultor comercial da Fifa, afirmou ao Financial Times nesta semana que os planos são consistentes com uma tendência que está varrendo o esporte mundial, incluindo a Fórmula 1 e o PGA Tour (campeonato profissional de golfe). No JPMorgan, o acordo está sendo liderado de Nova York por Mary Erdoes, diretora executiva da divisão de gestão de ativos e patrimônio, disseram pessoas familiarizadas com o assunto. No lado de consultoria, é comandado por Eric Menell, co-chefe global de banco de investimento esportivo.Dois dos investidores esportivos disseram que o problema com o projeto da Fifa era o envolvimento de membros da família Trump, visto que o presidente da Fifa, Gianni Infantino, buscou publicamente agradar o mandatário dos EUA desde o ano passado, quando concedeu o prêmio inaugural da paz da Fifa, pouco após Trump ser preterido no prêmio Nobel da Paz. Um dos envolvidos no projeto da Fifa ressaltou que a criação da entidade comercial não tem o mesmo poder destrutivo da Superliga, mas que a suspeita de vínculos estreitos entre o acordo e a família Trump gera questionamentos imediatos sobre suas reais intenções. O discurso do banco para potenciais investidores da Fifa ecoa o que eles ouviriam se expressassem interesse em comprar participação em uma franquia esportiva norte-americana, de acordo com pessoas envolvidas no acordo. Os retornos, diz o argumento, vêm do aumento do valor do ativo, impulsionado por um aumento nos valores dos direitos de transmissão, crescimento mais rápido, margens mais gordas e, eventualmente, uma saída com uma avaliação mais alta. Se isso é possível pode depender de as federações europeias manterem firmes suas ameaças de ficar de fora da próxima Copa, caso a Fifa dê continuidade ao seu projeto.

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