Quando a advogada Nathalia Aragão se deparou com um vídeo no TikTok que convidava a um clube de leitura viu ali uma oportunidade de encontrar outras mulheres de São Paulo que gostassem de ler e discutir livros. Ela deixou um comentário e, em pouco tempo, recebeu diversas respostas. Uma delas veio da jornalista Aline Silva. Da interação surgiu o primeiro encontro presencial em janeiro de 2024. Juntas, elas fundaram o Alouettes, clube que hoje conta com 12 integrantes. "O nome foi inspirado na personagem da primeira obra que lemos, "Divinos Rivais", de Rebecca Ross, à época um sucesso no TikTok", diz Nathalia. Desde então, o grupo se reúne mensalmente e já devorou mais de 30 livros. Entre eles, "A Natureza da Mordida", de Carla Madeira, "Noiva", de Ali Hazelwood, e "Carrie, a Estranha", de Stephen King. O encontro de agosto aconteceu em uma cafeteria da capital paulista, e o livro da vez foi "O Rouxinol", de Kristin Hannah, romance ambientado na França durante a Segunda Guerra Mundial. À mesa, as jovens, que têm entre 19 e 35 anos, abrem a discussão da tarde de sábado com um dilema: estamos na França de 1940. Uma mulher vive em um país ocupado por nazistas e cada decisão é questão de sobrevivência. Sob o mesmo teto, ela abriga —sem escolha— um soldado alemão e adota uma criança judia órfã cuja identidade deve ser escondida. No lugar da protagonista, o que você faria diferente? A pergunta, sorteada entre vários papéis num potinho de vidro, é o ponto de partida para o debate sobre as escolhas da personagem Vianne. "Ela foi bem negligente em adotar uma criança judia, colocou a família em risco", destaca a participante Débora Brito. "Mas ela não tinha nada a perder. Tudo que conhecia como vida já havia sido levado pela guerra. O marido foi lutar, ela está passando fome. O que ela tinha a perder?", reflete Bruna Mauricio. "Acho ela corajosa, mas eu não teria coragem", salienta Thamiris Tales, enquanto todas riem. Elas não estão sozinhas na busca pela leitura compartilhada. Dados do TikTok mostram este movimento das telas para os encontros presenciais. A hashtag #clubedelivros reúne mais de 39 mil publicações, enquanto #bookclub ultrapassa 3,8 milhões. No Brasil, as buscas por "clube do livro" cresceram 1.800% nos últimos três meses. O fenômeno dá nova roupagem a uma tradição antiga: algoritmos ampliam a possibilidade de encontrar pessoas com interesses literários semelhantes. No Alouettes, o TikTok leva novas usuárias ao perfil do clube @alouettesbookclub. A dinâmica combina encontros presenciais com hábitos digitais. Sobre a mesa da cafeteria, por exemplo, predominam os Kindles. "O mercado editorial está muito caro, é uma facada pagar R$ 70 em um livro. Por isso, preferimos ler pelo Kindle", avalia Julia Lourençoni. "Ou então ouvir pelo audiobook, ótimo para o transporte lotado de SP." As obras selecionadas, muitas vezes, figuram entre os sucessos do TikTok. No início ou ao fim do encontro, as participantes avaliam o livro com plaquinhas "instagramáveis", de uma a cinco estrelas. O resultado vira um vídeo para o perfil do clube na plataforma. "O Rouxinol" recebeu média de quatro estrelas, mas nem todo sucesso do TikTok agrada. "‘O Clube do Crime das Quintas-Feiras’ teve o maior índice de abandono", lembra Isabelle Canavezzi. O compromisso com o clube também mudou a relação das jovens com a leitura. Algumas resgataram um hábito perdido com a correria da vida adulta; outras descobriram novos gêneros. "Eu tinha uma aversão muito grande à fantasia, mas, depois de ‘Quarta Asa’, isso mudou", conta Aline. Além dos encontros mensais, elas compartilham festas temáticas, idas ao cinema e a shows no perfil do TikTok. "No final, o clube foi além da literatura, é um espaço de amizade e confidências", resume Rafaela Ramos, tesoureira do grupo que organiza os encontros. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Jovens leitores saem do TikTok e criam clube de livro presencial
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