Jovem do interior de Goi�s promove letramento pol�tico em escolas e emiss�o de 900 t�tulos

Jovem do interior de Goi�s promove letramento pol�tico em escolas e emiss�o de 900 t�tulos

Por que os jovens estão desconectados da política? A pergunta martelava na cabeça de Dionísio Miguel e foi a semente para uma atuação que extrapolou os limites da sua escola e da própria cidade de Itumbiara (GO), onde cresceu e mora com a irmã mais velha e o pai. Aos 17 anos, o adolescente lidera o projeto Embaixadores da Democracia, que aproxima os jovens e estudantes, como ele, das discussões políticas. A iniciativa che gou a 3.801 alunos em 16 escolas públicas no interior de Goiás, em Itumbiara e nas cidades vizinhas de Cachoeira Dourada, Buriti Alegre e Bom Jesus. O foco foi no incentivo ao alistamento eleitoral voluntário de jovens de 15 a 17 anos. Sob sua coordenação, a campanha resultou na emissão de mais de 900 títulos de eleitor. Todos novos eleitores cujo voto é facultativo. Mas além de colaborar para incluir a juventude no processo eleitoral, toda a discussão de política entre os estudantes empolga Dionísio, membro da Academia latino-americana de Liderança, ainda mais. O programa também envolve letramento político, e busca fomentar lideranças. "Mudar o mundo a gente não consegue, mas consegue mudar pequenos mundos", diz. "Esse virou meu propósito: conseguir ajudar outros jovens para que eles se reconheçam na sua história, para que consigam juntos impactar a sociedade de uma maneira melhor." O adolescente atua ainda como representante dos estudantes na elaboração do Plano Municipal de Educação de Itumbiara. Um dos êxitos dos Embaixadores foi a articulação com vários órgãos, como o TRE (Tribunal Regional Eleitoral), a Coordenação Regional da Secretaria Estadual de Educação de Goiás e a prefeitura de Itumbiara. Foram garantidos ônibus para levar os estudantes ao cartório eleitoral. A Folha acompanhou Dionísio numa conversa com os jovens embaixadores, no fim de agosto. De variadas escolas públicas e com idades entre 15 e 18 anos, eles falaram sobre diferentes sentidos que a participação política passou a ter após as discussões: a importância da democracia, do voto, da representatividade, o caminho para endereçar problemas e o papel central das políticas públicas. No geral, está todo mundo de saco cheio da polarização e brigas nas famílias. "O que observava é que as pessoas eram muito polarizadas e eu não queria me envolver. Mas você muda quando entende que a política é muito mais. Não é só uma pessoa votando, e sim mais uma pessoa decidindo o futuro", diz a estudante Luana Vieira Souza Silva, 17. José Humberto da Silva Borges, 15, diz que divergências ideológicas familiares praticamente inviabilizaram conversas sobre o tema em almoços e festas. "Eu não queria me envolver em política por causa das brigas na família. Com o projeto eu consegui mudar minha cabeça e mudar a opinião dos jovens", relata. Ele conta que aprendeu em uma palestra de Dionísio "o que é democracia na prática". Para Alexandre Oliveira, 16, exercer a cidadania também foi um dos aprendizados. "Precisamos olhar quem vai brigar pelos nossos direitos e nos representar." Dionísio diz que a polarização política dos últimos anos afastou "as juventudes", o que ele faz questão de frisar no plural. Segundo ele, um dos objetivos do programa é fazer com que esses jovens se entendam como "sujeito do agora" e não só do futuro. Muitos jovens vão para escola com as opiniões formadas de casa, pela influência somente dos pais. Não sabem o que o partido e os políticos oferecem, simplesmente vão votar e não sabem o que isso significa. E quando alguém tem uma opinião formada, começa a rejeitar o diálogo. Mas ao começar a entender, aqui na escola, que estamos falando do nosso futuro, passa a se reconhecer e também a se reconectar com os jovens. E aí começamos a se perguntar: isso que estão discutindo faz sentido para mim? É algo transformador. Por isso a escola tem de ser um lugar para falar de política.” "Decidimos ir para um caminho diferente: que é discutir a política de fato. A política não é briga ideológica, de personagens tidos como nossos salvadores da pátria", diz. "O que vai resolver o Brasil é a união da população para fortalecer a democracia e fazer planejamento de políticas públicas, na educação, saúde, meio ambiente, segurança". A estratégia de mobilização passa pelas redes sociais. "Esse é um novo espaço para debater nossa democracia. Como conseguimos? Fazendo meme, um vídeo curto de 30 segundos no TikTok é uma forma muito legal de discutir política", diz. Um de seus conteúdos, por exemplo, alcançou mais de 25 mil visualizações. O professor de sociologia Ailton Palastrim, 35, participa das conversas e a abordagem é sempre cuidadosa: ouve muito e conversa de igual para igual com os estudantes. "Essas vozes, o melhor entendimento do que nos afeta, e esse letramento político é essencial", diz. Dionísio lembra certinho de quando começou a trilhar esse percurso e se descobriu um ser político. Ele conta que aos 6 anos começou a sofrer ataques na escola. Aos 10 anos, desenvolveu humor depressivo e vivenciou crises de ansiedade e de pânico. Assumiu sua homossexualidade aos 13, quando começou a se envolver na militância política. Em 2023, foi o único jovem convidado a palestrar no seminário internacional Águas para o Futuro, em Goiás. O crachá de participação fica na estante de livros do seu quarto, onde as paredes exibem poemas, desenhos e adesivos do ativismo pela educação. Na sua pequena biblioteca estão desde livros da saga Crepúsculo a obras de Clarice Lispector, Jorge Amado e também uma edição do Estatuto da Criança e do Adolescente. "Este quarto conta uma história que começa com uma superação", diz. "Eu me via muito sozinho, sem esperança. A minha primeira luta foi contra mim mesmo, até me aceitar e me permitir ser quem eu sou e fazer disso um ato político e ajudar outros jovens." O garoto nascido em Goiânia e criado em Itumbiara, cidade de 107 mil habitantes, superou ali obstáculos como bullying, homofobia e depressão. "Uma cidade maravilhosa, que tem um rio maravilhoso", diz Dionísio. Ele adora se banhar nas águas do Parnaíba, que dividem a cidade com Minas Gerais. "Tudo começa nessa casa. E depois ganhamos o mundo." Foi naquele mesmo quarto que um dia o adolescente se olhou no espelho e disse a si mesmo: "Você vai ser a estrela e a esperança na vida dos outros jovens". E a autoprofecia se cumpriu. "Minha luta não é só para construir um futuro melhor para mim, mas construir um futuro coletivo." Embaixadores da Democracia em Números 3.801 alunos da rede pública de ensino participaram das ações de mobilização política 16 escolas estaduais do ensino médio em quatro municipíos de Goiás tem ações do projeto, que conta 48 alunos emabaixadores e 16 professores mentores, além de 10 idealizadores

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