Jovem cria grupo de meninas que elaboram projetos de lei para enviar a legisladoras

Jovem cria grupo de meninas que elaboram projetos de lei para enviar a legisladoras

O nascimento de Ana Luísa estava previsto para bem próximo do Natal de 2007, mas havia pressa na família. Sua avó estava com câncer em estágio avançado, teria poucos dias de vida, e seu sonho era conhecer a primeira neta. Por isso, a cesárea foi marcada para 8 de dezembro. "Minha mãe sempre fala, com orgulho, que eu nasci para fazer alguém feliz", conta a menina, hoje com 18 anos. Ana Luísa Brito Furtado Pessoa narra sua história na entrada da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte, um lugar onde garotas da sua idade não costumam circular, mas em que ela quase se sente em casa. E essas andanças por lá, de certa forma, têm a ver com a ideia que nasceu com aquele parto antecipado, de uma vida com o propósito de fazer as pessoas felizes. Ana Luísa fundou neste ano o Jovens Legisladoras, grupo já com 94 meninas de 16 estados. Elas discutem problemas de suas regiões, elaboram projetos de lei e procuram parlamentares —preferencialmente mulheres— para protocolá-los nas Câmaras Municipais, Assembleias ou no Congresso. Também se envolvem em debates já em andamento nessas casas. Ana Luísa participou até de discussões de um projeto de lei que foi aprovado na Câmara e está em tramitação no Senado —apresentado pela deputada Célia Xakriabá (PSOL-MG), que prevê o mapeamento dos impactos da crise climática sobre meninas e mulheres. Durante a conversa, a jovem comemorou uma notícia que acabara de chegar pelo WhatsApp: mais um projeto de lei elaborado pelo grupo havia sido protocolado, desta vez em Juiz de Fora (MG). O texto incentiva a capacitação de mulheres para trabalhar com o turismo. "As meninas de Pernambuco redigiram uma minuta sobre mobilidade urbana, as do Ceará, sobre limpeza oceânica, as do Rio, sobre saúde mental estudantil", lista Ana Luísa, que tem nas mãos folhas de papel impressas com um projeto de lei especialmente caro para ela. Protocolado em junho na Assembleia de Minas, institui oficialmente no estado o programa Jovens Legisladoras. Na justificativa, a deputada Lud Falcão (Republicanos) escreveu que a proposta havia sido enviada a ela pelas meninas. "Havia ali algo especial. Estudo, dedicação, compromisso público e, acima de tudo, a coragem de jovens mulheres que decidiram sair da posição de espectadoras para contribuir ativamente com a construção de políticas públicas." Essa coragem, analisa Ana Luísa, surgiu também como resposta a uma fase de angústia, no começo da adolescência. Nascida em Belo Horizonte, ela morou, dos 6 aos 13 anos, em Lagoa Santa, no interior de MG. Não tinha celular, saía com os vizinhos para brincar na rua e correr pelo meio do mato. Dessa infância com cara de antigamente e casa com quintal, ela teve de se transportar para a adolescência em um pequeno apartamento em BH. Em pleno 2020, e veio a pandemia. "Foi um choque, nem sabia como me relacionar com as pessoas on-line." A mãe precisava trabalhar fora, e o pai, em home office, lidava com as preocupações daquele período. Com a irmã quatro anos mais nova, ela conta que se sentia muito sozinha. Desenvolveu doenças que os médicos relacionaram ao estado emocional, inclusive uma inflamação na coluna que exigiu cirurgia. "A tristeza, o estresse e a raiva eram descontados no meu corpo", explica ela, que teve também dermatite, acidez estomacal, náusea e dor de cabeça crônica. "O que segurou a minha saúde mental foram os livros, devo ter lido uns cem no confinamento", diz. "Eu me sentia menos sozinha com aqueles personagens que também passavam por problemas emocionais." Na volta às aulas presenciais, queria compensar o isolamento e se engajou em tudo que era debate na escola. Teve a ideia de reabrir o grêmio estudantil, desativado fazia alguns anos. Foi atrás de colegas para formar não uma, mas duas chapas. "Poderíamos ter estabelecido uma ditadura", brinca. "Mas realizamos eleição. Tudo pela democracia." Eleita, batalhou por melhorias na escola, organizou gincana para premiar a turma que mais doasse sangue e criou clubes estudantis de xadrez, ciências, teatro e debate. Começou a participar de simulações da ONU, nas quais alunos fazem o papel de diplomatas dos países, como nos debates das Nações Unidas. Vieram prêmios e participações em simulações internacionais, inclusive nas universidades de Harvard e Yale, nos EUA. Foi convidada a dar monitoria e ajudou a fundar um projeto de capacitação de estudantes para a produção de pesquisas científicas, com apoio do escritório da ONU em Genebra. Dar voz a quem quer dar voz às pessoas é o que faz o Jovens Transformadoras. Sou mulher parda, com autismo e superdotação, aluna de escola pública, da zona rural do interior da Bahia. Entrei no grupo para ajudar pessoas com deficiências e neurodivergências, e logo virei amiga da Ana Luísa. Ela pensa muito rápido e articula as pessoas para chegar às soluções Aproximou-se do movimento feminista Girl Up e foi convidada a discursar na Câmara de BH sobre pobreza menstrual, que é a falta de acesso a absorventes e a condições adequadas de saneamento para lidar com a menstruação. Em seguida, veio a participação no projeto sobre os impactos da crise climática. Nesse ritmo frenético de engajamento, nasceu o Jovens Legisladoras, que prioriza o direito das mulheres. "Saí dessas experiências muito inspirada. Eu podia dizer para as meninas: ‘Olha que legal, nós podemos participar da construção legislativa, fazer diferença em uma escala maior". O grupo é apartidário, e a escolha dos parlamentares parceiros está relacionada à abertura que dão à iniciativa das meninas e à afinidade com os temas dos projetos. Ana Luísa pretende se formar em direito para se aprofundar no processo legislativo e quer estudar no exterior. Também não descarta entrar para a política institucional. "Essa ideia vem crescendo dentro de mim." Ela tem clareza de como esse ambiente é dominado por machismo e misoginia. "Vejo como vereadoras e deputadas sofrem ameaças e ataques. Isso é desencorajador para jovens mulheres que querem ocupar esses espaços. Sei que muitas de nós acabarão entrando para a política, e me parte o coração saber que passarão por tantas dificuldades." Mas é justamente para mudar essa história que ela está ali, sorridente, de blusa cor-de-rosa com muito brilho, pronta para entrar no lugar onde se fazem as leis. Jovens Legisladoras em Números 16 estados, além do Distrito Federal, têm núcleos do Jovens Legisladoras, que preparam projetos de lei em mais de 25 cidades 123 meninas participam da iniciativa, que começa com a discussão de problemas locais e pode apoiar a formulação de políticas públicas para mulheres

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