Jornalista desafia mitos da MPB em trilogia sobre Gil, Caetano e Chico Buarque

Jornalista desafia mitos da MPB em trilogia sobre Gil, Caetano e Chico Buarque

Na semana passada, escrevi sobre a recente produção documental musical brasileira e o tanto que esse tipo de obra busca apenas homenagear os artistas. Falta coragem a muitos cineastas brasileiros para abordar a música brasileira de forma mais provocadora. Não há desculpa. Hoje em dia há segurança legal para a produção de obras biográficas sem o aval dos próprios artistas. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal aprovou a "lei das biografias" (ADI 4815). Ela deu fim a processos abertos por artistas incomodados com verdades incômodas expostas em livros, peças e filmes. Muitos músicos da MPB advogavam pela "privacidade" para, na verdade, cercear a liberdade criativa e de expressão de outros artistas, escritores, teatrólogos e cineastas, que buscavam retratar nossa música popular com olhos menos endeusadores. De 2015 para cá, poucos se aproveitaram de fato da garantia legal para produzir obras interessantes, instigantes e sem rabo preso com o agrado de artistas. Então é preciso louvar aqueles que o fazem. Um autor que merece menção é o jornalista Tom Cardoso. Desde que a "lei das biografias" foi aprovada pelo STF, Cardoso escreveu um livro-reportagem sobre o ex-governador fluminense Sergio Cabral, e biografias de Nara Leão e Cássia Eller. Mas a obra sobre a qual quero chamar atenção aqui é a trilogia sobre a santíssima trindade da música brasileira: Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque. Em 2022, Cardoso publicou "Outras Palavras: Seis Vezes Caetano". Em 2024, foi a vez de "Trocando em Miúdos: Seis Vezes Chico". Agora, neste ano, ele lançou "Nem Tanto Esotérico Assim: Seis Vezes Gil". Os subtítulos fazem referência ao formato das obras. Não são biografias, mas ensaios temáticos espinhosos sobre os gênios da MPB. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Assim, o livro sobre Gil tem capítulos sobre política, poder, censura, negritude, família e música. O livro sobre Chico Buarque aborda política, literatura, fama, polêmicas, censura (e autocensura) e futebol. O de Caetano tem capítulos temáticos sobre Santo Amaro (sua cidade natal), polêmicas, liderança, vanguardismo, amor e política. A intensa produção de Tom Cardoso, prolífico a ponto de ter vários livros no mercado, tinha tudo para fazer a gente desconfiar da qualidade da apuração. Afinal, como pode um autor escrever biografias, além das já mencionadas, de figuras tão diferentes como o jogador Sócrates, o jornalista Tarso de Castro e o empresário Paulo Machado de Carvalho, um dos maiores dirigentes esportivos do país e fundador da TV Record? Mas não se engane, Tom Cardoso já ganhou um prêmio Jabuti em 2012 por seu livro-reportagem "O Cofre do Dr. Rui", que narra o assalto ao político Adhemar de Barros, em 1969, realizado pela luta armada durante a ditadura. O livro de Tom Cardoso sobre Gilberto Gil, que li recentemente, começa mostrando que seu pai, o senhor José Gil Moreira, era presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista e assinou a ata do dia 17 de abril de 1964, que celebrava o golpe militar. Enquanto o filho começava a vida artística como cantor de músicas de protesto e depois seria exilado como tropicalista, seu pai, médico sanitarista, endossava a limpeza política de sua cidade. Em 1969, em pleno governo do general Médici, José Gil louvou o ditador enquanto seu filho vivia expulso do país. No capítulo sobre a família, o autor mostra as tensões dos inúmeros filhos, netos e bisnetos, além das ex-mulheres do compositor genial, sem desrespeitar ninguém. O capítulo sobre o poder faz um balanço cru da atuação de Gil na política, desde as rasteiras que levou, que o impediram de ser eleito para a prefeitura soteropolitana, até o descompromisso com o cargo de vereador de Salvador nos anos 1980. Naquela época, Gil preferiu continuar a carreira de artista concomitantemente à vereança. Sem tempo útil, esteve ausente de 63% das sessões da Câmara Municipal. Não falta coragem a Tom Cardoso e, por isso, seus livros merecem atenção. Mas quem quer ler algo que incomoda, que não passa pano? Vivemos uma época em que o endeusamento de artistas antecede qualquer norma legal. Mudar a lei foi "fácil"; difícil é mudar a mentalidade de nossos produtores e evitar o lambe-lambe cultural. O interessante das obras do Tom Cardoso é que, por meio do formato ensaístico, ele vai direto às polêmicas, vertical e corajosamente, sem perda de tempo com floreios biográficos. Não é um formato exatamente novo, mas que andava sumido da análise musical e que exacerba as qualidades do texto do autor. Diante de tanta qualidade, por que ainda há tanta gente (público, cineastas e outros autores) com tanto medo de encarar os mitos da MPB de frente? LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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