Jo�o, a democracia e a viol�ncia

Jo�o, a democracia e a viol�ncia

João nasceu no Nordeste nos anos 1960 e, quando veio a democracia, foi ter com ela em São Paulo. Nos encontramos no ano 2000, quando eu fazia pesquisa de campo numa favela da zona oeste. João me contou sua história, e eu nunca mais me esqueci. Hoje, penso nela como uma metáfora do que acontece quando uma ordem democrática é substituída por outra, baseada na violência. "Eu já estava desesperado por uma moradia. Cheguei a ir a uma favela para conseguir um local para morar. Cheguei lá um dia, no finalzinho de tarde, e conversei com seo Paulo da minha situação, se ali por perto eu não conseguia um lugarzinho pra fazer pelo menos um cômodo para mim. Ele me mostrou um lugar em que eu poderia fazer, sim." João tinha conversado com Paulo, do movimento de moradia. O movimento via a democracia não como um conjunto de instituições, mas como uma vida na qual todos teriam o "direito a ter direitos". Por isso, Paulo autorizou que João construísse "um cômodo pra sair do aluguel, e aí poder fazer alguma coisa pela frente". "Quando foi no outro final de semana, eu lembro muito bem, eu comprei uma enxada e botei uma roupinha na sacola e a enxada fora do cabo; comprei um cabo, pra chegar no local, encabar pra limpar o local. E chegando fiz isso, de bermuda, de chinelo. Comecei a carpir o terreno." João construía seu cômodo, o movimento construía a ideia de um futuro democrático. Mas não era fácil: "De repente, chegaram dois rapazes e perguntaram: ‘Que você vai fazer aí, moço? Vai plantar alguma coisa?’". Os rapazes eram os "seguranças" do bairro, os "justiceiros", matadores ligados a policiais de baixa patente. "Tô querendo fazer um barraquinho aqui pra mim, que está difícil a situação. Eles falaram assim: ‘Tá bom’. Saíram, daqui a pouco voltaram, com mais pessoas. Disseram que eu não ia fazer aquele barraco ali. Eu achei que era brincadeira deles. Que eu não iria fazer aquilo ali não, que seo Paulo não mandava em nada lá não. Eu parei de carpir e achei que era brincadeira deles, e: ‘Não! Vou fazer, que eu estou precisando, vocês já moram aqui também". Não era brincadeira. João tentou insistir, mas "eles partiram pra ignorância". "Aí eu me senti... [João faz uma pausa, fica com os olhos mareados de raiva]. Me ameaçaram, que se fizesse eles iam derrubar, iam acabar com tudo. Eu até larguei a sacola com o refrigerante que tava dentro. Eu tinha levado, para tomar refrigerante, copo descartável, uma camiseta. Eu me aborreci. Larguei enxada, larguei tudo lá. Vim de chinelo, vim de perna... E vim pensando na minha vida... Como é que eu vou fazer agora?" Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Estamos no futuro, e aconteceu com a democracia brasileira o mesmo que com o movimento que acolheu João. Estávamos carpindo o terreno das instituições democráticas, quando apareceram os jagunços, e seus matadores ligados a policiais de baixa patente, no centro da cena política. Disseram que a democracia não mandava nada ali, não. É a violência, no limite o terror, que funda a política da extrema direita. Queríamos direito à segurança, mas voltamos à era dos massacres, da violência política, e a letalidade policial triplicou. Até quisemos insistir. Mas eles partiram pra ignorância. Nos aborrecemos, largamos tudo lá e hoje nos pegamos pensando: "Como é que nós vamos fazer, agora?". LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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