John Carpenter, mestre do terror, lan�a HQ sangrenta e diz que m�sica � maior arte

John Carpenter, mestre do terror, lan�a HQ sangrenta e diz que m�sica � maior arte

Há dois anos, uma imagem perturbadora surgiu para John Carpenter enquanto ele dormia. Era uma catedral abandonada com dois elevadores em seu interior, capazes de levar seus passageiros até profundezas insondáveis. Para a maioria das pessoas, esse quadro noturno seria considerado um pesadelo. Para Carpenter, porém, foi só um sonho inspirador —o mais recente de uma longa série de visões aterrorizantes que marcaram a carreira do cineasta. Carpenter é um gigante do terror desde 1978, quando "Halloween" —o suspense de baixo orçamento que dirigiu, corroteirizou e musicou— inaugurou o gênero slasher moderno. Depois vieram mais de uma dúzia de longas, muitos deles mesclando ficção científica, ação e crítica social, como o sangrento suspense paranoico "O Enigma de Outro Mundo" e o filme de invasão alienígena da era Reagan "Eles Vivem". Ainda assim, Carpenter, cujo filme mais recente foi lançado em 2010, não tinha interesse algum em levar aqueles elevadores sinistros às telas. "Dirigir é estressante demais", disse ele numa entrevista em junho, enquanto relaxava em seu escritório em Hollywood. O local fica numa rua pontilhada por casas com cercas de madeira, não muito diferente dos bairros suburbanos aconchegantes aterrorizados em "Halloween". Vestindo camisa preta de mangas compridas e calça preta, com os cabelos grisalhos presos para trás, Carpenter apontou para o próprio rosto, aos 78 anos, e sorriu: "Eu nem sempre tive esta aparência. É isto que acontece quando você dirige. É como trabalhar em uma mina de carvão". Em vez de voltar para trás das câmeras, Carpenter adaptou seu sonho sombrio para "Cathedral", uma história de terror dividida entre uma graphic novel e um álbum de hard rock (o livro foi lançado na terça; o álbum saiu na sexta). A HQ, escrita por Carpenter junto da mulher, Sandy King, e Sean Sobczak, segue um grupo de policiais de Los Angeles que se aventura nas entranhas de uma igreja abandonada no centro da cidade após um assassinato brutal. As criaturas ferozes e as paisagens fantásticas que eles encontram se refletem na agressiva trilha sonora de "Cathedral", que reúne riffs de guitarra pesados, baterias implacavelmente propulsivas e sintetizadores gélidos. Carpenter participou da composição e da execução das 14 faixas junto de seus colaboradores habituais: seu filho, Cody Carpenter, 42, e seu afilhado, Daniel Davies, 45, ambos multi-instrumentistas. "Minha técnica não é muito boa, e eu não pratico", disse Carpenter. "Então, sou levado por esses dois. Apenas deixo que me digam o que fazer." Sentados ali perto, seus companheiros de banda protestaram em uníssono. Eles estavam reunidos na sala da frente do escritório de Carpenter, onde uma máquina de pinball de Michael Myers e uma estátua gigantesca de Nosferatu espreitavam em um canto. "Cathedral" é o quinto álbum de estúdio do trio em pouco mais de uma década. Nesse período, Carpenter passou de autor do cinema de terror a roqueiro profissional, conhecido por instrumentais ameaçadores e shows sinistros. Pode parecer uma mudança improvável de trajetória criativa. Mas faz sentido para ele, que tocou a vida inteira. Ele cresceu em Bowling Green, no Kentucky, filho de um professor de música que o incentivou a aprender vários instrumentos. Embora não se assustasse com facilidade —assistiu ao filme "A Maldição de Frankenstein", de 1957, quando tinha só 9 anos —, a perspectiva de levar um violino para sua escola rural o enchia de pavor. "Eu fazia parte da orquestra e precisava carregar aquele estojinho", recordou Carpenter. "Eu virava um alvo. Aqueles garotos do interior ficavam esperando para me atacar. Eu queria me livrar daquilo o mais rápido possível." À medida que crescia, Carpenter descobriu bandas como The Doors e The Byrds. Por fim, trocou o violino pela guitarra e começou a tocar covers. A formação musical foi útil quando se mudou para Los Angeles, no fim da década de 1960, para estudar na Universidade do Sul da Califórnia. Foi lá que se familiarizou com sintetizadores modulares, que se tornaram uma marca registrada de suas primeiras trilhas sonoras. Para o sombrio drama de ação de baixo orçamento "Assalto à 13.ª DP", de 1976, Carpenter criou faixas eletrônicas pulsantes e inquietas, ameaçadoras sem serem opressivas. O uso de sintetizadores permitia que Carpenter economizasse dinheiro e trabalhasse rapidamente. Ele compôs a trilha sonora de "Halloween" em três dias, incluindo o tema principal: uma combinação vibrante de sintetizadores assombrosos e notas insistentes de piano, tudo executado em compasso 5/4, que o pai de Carpenter lhe ensinara nos bongôs. Nas décadas seguintes, Carpenter compôs para quase todos os seus filmes, muitas vezes trabalhando com seu colaborador de longa data Alan Howarth. Para o terror sobrenatural "O Príncipe das Sombras", de 1987, a dupla recorreu a discretos e ameaçadores repiques de teclado e breves progressões de acordes. "A música do filme não é complicada", disse Kyle Dixon, um dos criadores da trilha da série de sucesso "Stranger Things". "Mas é sombria e assustadora, com o baixo pulsando e melodias entrando e saindo. Você sabe que algo estranho vai acontecer." No início da década de 2010, Carpenter trabalhava em músicas em casa, onde frequentemente recebia a companhia do filho e de Daniel Davies. Os três tocam juntos, de maneira recreativa ou profissional, há décadas. Davies, filho do guitarrista do The Kinks Dave Davies, passou boa parte da adolescência morando com a família Carpenter após a separação dos pais. A casa deles era o tipo de lugar onde se podia achar o ator Steve Buscemi tocando bateria numa festa de encerramento das filmagens, ou onde o compositor James Bernard podia demonstrar como escrevera a trilha sonora de "O Vampiro da Noite", adaptação de "Drácula" lançada em 1958. "Sempre conversávamos sobre música e cinema: ‘Por que esta cena é assustadora?’ ‘Do que realmente trata este momento?’", lembra Daniel, que teve as primeiras aulas de guitarra com Carpenter, aprendendo músicas como "I’ll Feel a Whole Lot Better", dos Byrds. O mais recente trabalho musical de Carpenter chega num momento em que sua filmografia vem sendo descoberta e celebrada por cinéfilos da geração Z e da geração millennial. Até seus trabalhos recebidos com mais frieza agora têm seguidores fanáticos: no site de críticas Letterboxd, seu conto lovecraftiano "À Beira da Loucura" —um fracasso em 1994— está hoje entre seus filmes melhor avaliados. E, no ano passado, uma retrospectiva de seus filmes realizada ao longo de várias noites em Los Angeles esgotou rapidamente os ingressos. "Os filmes de Carpenter mudam de significado com o tempo", afirmou Alex Ross Perry, roteirista e diretor independente e admirador de Carpenter. "Se você vê 'O Enigma de Outro Mundo’ ou ‘Eles Vivem’ aos 13 anos, são suspenses divertidos de ficção científica. Mas, se assiste a eles aos 30 ou 40, são retratos profundos e significativos da mentalidade da Guerra Fria e do conservadorismo americano." Para Carpenter, que muitas vezes entrou em conflito tanto com críticos quanto com chefes de estúdio, a atenção crescente é gratificante. "Já me chamaram de todo tipo de nome", disse. "E recebi todo tipo de crítica negativa. E agora? É fantástico." Mas, mesmo com uma nova onda de admiradores de seus filmes, o entusiasmo de Carpenter está voltado para a música, "a maior forma de arte inventada pelo homem", como afirmou. "Os filmes são complexos e caros. Mas, com a música, você não precisa falar sobre ela. Pode simplesmente ouvir."

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