"Rito de passagem", espaço de descoberta, dissidência, dissonâncias e ressonâncias, cisão e construção, encontros e embates. Revelações, reivindicações, reafirmações. Disso tudo foram feitas as primeiras 45 edições dos "Cadernos Negros" —publicação criada em 1978 que é referência na literatura brasileira—, espelhadas no documentário homônimo de Joel Zito Araújo, recentemente adicionado ao catálogo do streaming nacional. Dos seus inícios permeados pela busca de uma voz conjunta que gritasse ao Brasil, em verso e prosa, a realidade das pessoas negras do país à junção com os bailes black e os movimentos e organizações emergentes, a coletânea reúne e encarna debates que são um retrato das tensões, desafios e conquistas da militância negra frente à violência e ao preconceito em tempos de ditadura e democracia. "Sempre me incomodou como passou despercebido e desvalorizado por outras vanguardas culturais paulistanas o que acontecia no entorno dessa publicação", afirma Joel Zito Araújo à Folha. "Somente a música tinha conseguido furar as bolhas raciais, com o reconhecimento da vanguarda de Itamar Assumpção e de alguns outros músicos e cantores. Mas os poetas e literatos que criaram e passaram pelos 'Cadernos Negros' pareciam ser vistos como uma espécie de estorvo por sua combatividade contra o racismo estrutural e pela insistência na existência e valorização de uma literatura negra no Brasil."Conceição Evaristo: "Rito de passagem" Idealizados no contexto da efervescência cultural e social representadas pelo coletivo Quilombhoje, de valorização de autores negros brasileiros, os "Cadernos" —que reúnem contos e poemas— foram a ponta de lança de Conceição Evaristo, por exemplo, na edição de 1990. "Quilombhoje para muitos de nós se tornou rito de passagem", diz a autora no filme. A publicação também foi o alicerce de autoras no processo de se reconhecerem e se afirmarem escritoras. "Já me perguntaram de onde eu copiava os textos", recorda Esmeralda Ribeiro. Miriam Alves descreve: "O que fizemos foi quilombo, quilombo hoje, nós somos e levamos o outro também". Ao longo de 45 números, "mais de 300 pessoas com textos" passaram pelas páginas dos "Cadernos", contabiliza Cuti (Luiz Silva), um dos criadores da publicação: "Tiveram ali a primeira experiência de publicar". Entremeada por poemas emblemáticos das mais de quatro décadas da publicação e também criações da edição 45 —cujo lançamento e celebração é o eixo condutor do documentário—, a narrativa perpassa as dimensões literárias e sociais, mas também as políticas e emocionais em que a antologia navega, ora mostrando o impacto que teve na cena cultural brasileira, ora mergulhando nos dilemas internos do grupo fundador. Foram dores do crescimento de um projeto que, fiel à sua essência, precisou abrir mão de cânones para abraçar o novo em todas as dimensões, como conta o escritor Oswaldo de Camargo, outro pioneiro da publicação. No entanto, apesar do seu legado e solidez, a estrutura financeira que mantém a publicação continua a ser frágil, baseada na organicidade da venda de livros, conta Cuti. Surpreendente? Ou reflexo fiel da realidade que os "Cadernos" vêm descrevendo há quase meio século? "'Cadernos Negros' é colaboração", define Cuti. "E colaboração para a melhoria da espécie humana." O documentário pode ser visto no CurtaOn - Clube de Documentários, no Prime Video; na Claro TV+ e no site oficial da plataforma CurtaOn. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Joel Zito Ara�jo retrata esplendor e batalhas dos 'Cadernos Negros' ao longo de 45 anos
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