"Espontâneo" é juízo corriqueiro para megamobilizações, como a pró-Lula no segundo turno. O adjetivo oculta o trabalho organizacional que o enunciador desconhece. A campanha foi tessitura de vários tecelões. Constituiu-se como rede nacional (com pernas globais), amarrio de iniciativas autônomas: militância partidária da base governista, lobby junto a elites sociais, ativismo presencial e digital. Parte foi de carne e osso. Três exércitos de profissionais treinados no ativismo foram para a batalha. Um foi o petista raiz, socializado na redemocratização, que fez corpo a corpo e encheu os eventos de movimentos e sindicatos próximos ao PT. Outros dois vieram dos campos neossocialista e autonomista. Seus recrutas se alistaram nos protestos de oposição a Lula 1, 2 e Dilma 1, acercaram-se do PT quando a direita dominou rua e governo, mas estavam distantes de Lula 3 até a água eleitoral bater no pescoço. Movimentos neossocialistas então se embrenharam nas periferias, onde estão enraizados, e, com sindicatos e partidos (sobretudo PSOL), panfletaram em entroncamentos de transporte público. Já os coletivos autonomistas puseram seu bando de universitários no vira-voto de ausentes, indecisos, votos nulos e brancos nas metrópoles, inclusive no porta-a-porta. Os profissionais ganharam reforço de batalhões organizados para outros propósitos, o típico em megamobilizações. Associações católicas, neopentecostais, espíritas e de religiões africanas, blocos de carnaval e torcidas de futebol se politizaram. A diversidade de organizados presenciais sustentou a disseminação do método de comunicação digital praticado quando o comando da campanha petista foi para mãos de nativos digitais. À maneira da campanha telefônica de Obama em 2008, criaram mensagens focais para estratos de eleitores renitentes. Do dia para a noite, um borbotão de selfies políticos invadiu as redes: cortes curtos e chamativos, cenários cotidianos (carro, cozinha, caminhada) e amadorismo proposital (como os de Bolsonaro). Cada grupo de ativistas dirigiu o formato a um tipo de eleitor, com protagonistas similares aos visados. Alckmin, passando café, falou a empresários; Padilha, de jaleco, abordou usuários do SUS, e a ministra do desenvolvimento agrário se vestiu de cowgirl em apelo ao agronegócio. Movimentos escalaram mulheres, negros, indígenas, LGBTQI+ para tratar de problemas de cada setor. Neoativistas adaptaram o método aos seus nichos. Padres, pastores e mães de santo falaram a seus fiéis com metáforas religiosas. Influenciadores traduziram a política para a linguagem instagramável —imagética, estereotipante, instantânea. Gamers criaram jogos mobilizadores. Atores, cantores e esportistas conclamaram fãs. Humoristas produziram esquetes e montagens de filmes, novelas, clips e memes. Foi uma babel retórica. Os argumentos pró-Lula foram cantados e desenhados; uns econômicos, outros religiosos; ora artísticos, ora esportivos. O tom andou do escatológico ao trágico, do drama à comédia. O fator Janones exponenciou todos os outros. O "Exército do Lula" transpôs o centralismo democrático das origens do PT para a internet: o general distribuía tarefas, os soldados executavam. E se apropriou de táticas da direita: vocabulário militar, simbologia nacionalista, hiperfoco. Adicionou a ação coordenada simultânea que "explode" o algoritmo. Combinou missões dos games, teatralidade e cortes dos selfies. Tudo povoado de jargões grudentos e vocabulário hiperbólico e militar ("nós contra eles", "tudo ou nada"). Performance e retórica ativaram emoções coletivas de euforia, abnegação e perseverança. Assim manteve a tropa literalmente acordada. Organização, comunicação e liderança deram a arquitetura da campanha. Enunciadores com estilos próprios complementaram-se em uma rede de ativismo presencial e digital, descentralizada e organizada, de neoativistas e de partidos e movimentos estabelecidos. Em vez de espontaneidade, complementaridade e coordenação. A campanha foi um choque de modernidade para o PT. A vitória deve muito ao general à frente do exército petista e da legião estrangeira de neoativistas. Ensinando táticas simples de burla dos algoritmos, converteu eleitores comuns em ativistas aguerridos. O impulsionamento coordenado dos milhões treinados no mesmo método decidiu a guerra.
Janones e milit�ncia deram impulso decisivo � campanha de Lula
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.