Janela para explorar petr�leo � curta, e Brasil precisa ter pressa, diz presidente do IBP

Janela para explorar petr�leo � curta, e Brasil precisa ter pressa, diz presidente do IBP

O Brasil precisa acelerar a exploração de petróleo para aproveitar a janela de oportunidade antes que o consumo global comece a cair, defende Roberto Ardenghy, presidente do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás). Para ele, o país ainda tem recursos relevantes a produzir, mas enfrenta a concorrência de vizinhos como Argentina, Guiana e Venezuela por investimentos. Assim, o setor espera do novo governo mais agilidade, principalmente no licenciamento ambiental. "Nós temos uma janela curta. Um país que ainda tem hoje recursos relevantes de petróleo, que é o caso do Brasil, precisa ter pressa", afirma o executivo. Ele destaca que a guerra no Oriente Médio reforçou a busca por segurança energética e tornou o Brasil mais atraente para a indústria, já que está distante dos conflitos, tem produção crescente e estabilidade institucional. Esta semana, o setor se reuniu no Rio de Janeiro para a feira ROG.e, que recebeu 83 mil visitantes, 650 empresas expositoras e delegações internacionais de países como Noruega, França, Reino Unido, Estados Unidos, China e Canadá. Os números da ROG.e indicam grande interesse do setor de petróleo no Brasil. O que explica isso? Temos petróleo, democracia, Judiciário, agência reguladora e tradição de cumprimento de contratos reconhecidos por investidores. Estamos distantes do conflito no Oriente Médio e próximos do mercado europeu. Tudo isso faz com que o Brasil esteja nessa primeira fila para investidores. Mas tem um dever de casa para fazer: questões tributárias, imposto de exportação, licenciamento ambiental. Mais velocidade na tomada de decisão. Se a gente não aproveitar, a Venezuela está aqui do lado, e está retomando os projetos. A Argentina aqui do lado, a Guiana aqui em cima, já produzindo 800 mil barris por dia. Sem contar alguns países da África. Não estamos sozinhos nesse mundo, a gente disputa investimento com outros países. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões O que o setor espera do próximo governo? Um problema importante é a inviabilização dos projetos por questão de análise ambiental. Nós temos uma janela curta. Um país que ainda tem hoje recursos relevantes de petróleo, que é o caso do Brasil, precisa ter pressa. Mais cedo ou mais tarde o consumo vai estabilizar e, depois, começar a cair. Tem gente que acha que isso vai começar em 2040, 2050, já vi gente falando em 2030... Mas, na medida em que o carro elétrico começa a entrar mais forte, cai o consumo de diesel e gasolina. E 80% do petróleo hoje vai para mobilidade. Além disso, o Brasil tem hoje dois atributos importantes que precisa defender: segurança energética e segurança alimentar. E eles são conectados pelos fertilizantes. Somos um grande produtor de alimentos, mas dependemos de fertilizante importado. Precisamos produzir mais gás para ampliar a oferta interna de fertilizantes. A Petrobras anunciou há algumas semanas a descoberta de petróleo na bacia da Foz do Amazonas, o que se pode esperar daquela área? Em primeiro lugar, já podemos dizer que há ali um sistema petrolífero. Mas ainda é preciso fazer uma estimativa. Das características do reservatório, do volume de petróleo que ele contém, se é contínuo ou em camadas, qual a pressão, a porosidade da rocha. E o último, e não menos importante, é a qualidade do petróleo. Ali tem mais gás ou mais petróleo? O petróleo é leve mesmo? Como é que está a característica ali? Ele tem nitrogênio, ele tem enxofre, ele é mais viscoso, menos viscoso? Tem uma série de avaliações ainda, que só vão acontecer com a perfuração de novos poços. Aí, sim, poderemos ter uma ideia melhor, pelo menos daquele reservatório. Por isso que a Petrobras está pedindo licença para mais três poços na região. Mas, considerando que há uma janela para a produção de petróleo, não corremos o risco de investir em um produto que não terá mercado no futuro? Não. Ali por 2032, 2033, estaremos com a produção estabilizada, mas ainda teremos um platô de consumo, especialmente no Brasil, que é um país gigantesco e tem uma necessidade logística enorme. E, além disso, as pessoas falam muito do petróleo como fonte de mobilidade, mas a gente não pode esquecer da petroquímica, da química. E dos fertilizantes: não se faz amônia e ureia sem gás natural. Então, a gente pode ter uma relativa redução no consumo de combustíveis para fins de transporte e mobilidade, mas não há nenhuma indicação de que vamos diminuir o consumo de fertilizantes e da petroquímica. Pelo contrário, especialmente nos fertilizantes, à medida que a agricultura se desenvolve, cada vez mais vai demandar fixadores de nitrogênio, que é o caso da ureia e da amônia, produtos fundamentais para todas as oleaginosas. E é por isso que essa descoberta lá na Foz do Amazonas se insere muito na questão da segurança energética brasileira: para a gente não voltar a importar petróleo ali por 2037 ou 2038, como indica a EPE [Empresa de Pesquisa Energética]. Mas há uma necessidade de descarbonizar a economia para enfrentar a mudança climática. Como a indústria do petróleo se adaptaria? Primeiro, a indústria do petróleo vai se descarbonizar. Hoje, o Brasil já é muito eficiente do ponto de vista de emissões, somos um dos líderes mundiais. O Brasil hoje consegue produzir no pré-sal um barril de petróleo com 10 kg de CO₂, 8 kg até nos melhores campos, enquanto a média mundial é 25 kg. O Acordo de Paris é tecnologicamente agnóstico. Isso quer dizer que não importa como o país vai conseguir reduzir suas emissões. A Arábia Saudita vai sempre depender de petróleo, então ela vai ter um padrão de emissão diferente do Brasil, que tem uma matriz energética muito limpa. O que os países têm que fazer é reduzir as suas emissões. E nos últimos três anos, reduzimos em 14% as nossas emissões do setor de óleo e gás, apesar do aumento da produção. Já estamos contribuindo para entregar esse produto, que é tão usado e tão necessário, com redução das emissões. Essa redução está relacionada a uma parcela muito pequena das emissões do produto, que estão concentradas no consumo... Sim, mas hoje as refinarias estão muito mais eficientes, os carros também estão mais eficientes. Tem muita tecnologia já embarcada e tem muita tecnologia ainda para ser aplicada para conseguir reduzir de modo significativo. O mundo ainda vai depender do petróleo, e ele vai ser muito consumido. Isso é uma coisa que as pessoas podem não gostar, mas é a realidade. Então, que esse petróleo e que esse combustível possam fazer seu serviço energético com a menor emissão possível. Não vai ser zero, porque nós estamos falando de um carbono ancestral que a gente trouxe para a superfície e estamos queimando. Mas tudo que você puder usar para isso [reduzir emissões] em vez de ficar vilificando e acusando os combustíveis fósseis de todas as mazelas do mundo, eu acho que a gente tem que olhar também com esse olhar desse compromisso com a descarbonização. Há hoje um grande debate sobre o preço do gás natural no país. O Brasil tem potencial para entregar esse combustível? Quando olhamos todos os projetos que já estão aprovados, tem um potencial de aumentar barbaramente a produção de gás natural no Brasil. Onde vai ser consumido vai depender do preço e da infraestrutura. Temos um perfil de produção muito diferente de outros países. As pessoas tendem a comparar com a Rússia, ou pior, com o Catar, onde você fura um poço buscando água e sai um monte de gás. Aí manda para exportação a preço de banana ou produz fertilizantes. O nosso gás, em primeiro lugar, vem junto com o petróleo, que tem muito mais valor. No pré-sal, a reinjeção de gás ajuda a tirar mais petróleo, então pode ser melhor deixar o gás lá no reservatório e pegar o petróleo, que vale mais, que bota num navio e manda para onde quiser. Depois, o gás do pré-sal está a 180 km da costa, a 2.000 metros de profundidade. O gasoduto tem que ter uma parede de largura para aguentar a pressão. O preço de um gasoduto é US$ 2,5 bilhões, tem que amortizar esse investimento. Tem a infraestrutura também. Nos Estados Unidos, por exemplo, são 600 mil quilômetros de gasodutos. O Brasil tem 12 mil quilômetros. É muito mais difícil a molécula chegar. O gás é uma indústria de rede, só faz sentido se tiver uma rede que vai juntar o produtor ao consumidor. Por isso que o gás no Brasil é mais caro. E, é claro, se tiver mais competição, tem mais oferta. De repente, se a gente conseguir fazer o fracking no Brasil e descobrir reservas relevantes... Mas e os riscos ambientais, de contaminação de lençóis freáticos, por exemplo? Não existe nenhuma literatura que prove isso. Os Estados Unidos produz 13 milhões de barris todos os dias de fracking. Você tem alguma notícia de um grande desastre ambiental nos Estados Unidos que contaminou lençol freático? Não. A tecnologia hoje é totalmente controlada. Na Argentina não tem notícia nenhuma de contaminação. Nem no Canadá, nem na China e na Índia. A tecnologia é hoje totalmente segura, traz um resultado energético com mínimo impacto ambiental. Imagina a produção na Bacia do Parecis, no Mato Grosso, o centro da produção agrícola do país. Podia botar uma planta de fertilizante ali em vez de trazer o fertilizante importado. Como vocês avaliam a condução do governo em meio à crise gerada pela guerra no Irã? Até quando a gente está preparado para aguentar esse choque de petróleo? O Brasil é um dos países mais preparados por sermos exportadores líquidos de petróleo. E nosso parque de refino atende uma grande parcela do consumo. Nós não somos totalmente dependentes do produto importado. Além disso, o governo fez esse processo de amortecimento do preço da gasolina e do diesel, como muitos países fizeram. Temos dito que o valor que pagamos em royalties e participação especial já é mais que o suficiente para compensar, sem necessidade do imposto de exportação. Nós fizemos um cálculo aqui que o governo iria gastar até o final do ano para manter esse subsídio de diesel e gasolina R$ 40 bilhões. E o que o governo está arrecadando a mais em royalties e participações especiais está na faixa de R$ 45 bilhões. É por isso que a gente ficou bastante chateado com esse imposto de exportação. A gente acha que o governo já tinha recursos assegurados no regime fiscal brasileiro para atender essa necessidade. Vocês veem algum risco de desabastecimento de combustíveis? Até meados de outubro o mercado está abastecido. Depois, vai depender de mais importações. Tem tempo ainda, falta um mês. Mas é uma situação bastante complicada. O Oriente Médio não é mero fornecedor de petróleo e gás, ele é fornecedor também de combustíveis. Tem grandes refinarias na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos. E tem a Rússia também, outro grande produtor também de diesel que está também em situação complicada. Ainda não vemos disrupção no abastecimento, mas acho que um cenário de atenção. O mundo vinha de um cenário de sobreoferta de petróleo e hoje convive com preços lá em cima por causa dos efeitos da guerra no Irã. Quanto tempo isso vai durar? É muito difícil prever porque não sabemos qual é o futuro daquele conflito. Quando observo o cenário geopolítico no Oriente Médio, não vejo nenhuma solução a curtíssimo prazo.

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