O sinal de alerta veio lá pelas 16h30, quando o vaso preso à parede junto à janela da minha casa balançou pra lá e pra cá, como um barco viking dos parques de diversões. Moro no décimo andar e isso nunca tinha acontecido. Achei estranho, mas talvez fosse só uma rajada de vento mais forte. Em seguida veio a falta de luz. Eu estava trabalhando em home office e minha mesa fica na sala, perto da porta de entrada. Corri para usar o roteador do celular e seguir escrevendo sem o wi-fi. Estava sentadinha à frente do computador quando ouvi gritos desesperados. "Socorro! Socorro! Me tirem daqui!". Barulhos de socos. Fui até o hall e vi uma cena que eu, claustrofóbica que sou, sempre temi. Tinha uma pessoa presa no elevador, e ela não saberia quanto tempo ficaria lá. Pelo desespero, deveria estar com falta de ar, talvez ansiedade. Não havia o que fazer enquanto a energia não fosse restabelecida, o que demorou cerca de uma hora aqui em Copacabana. Voltei para o computador e, sob os gritos perturbadores da vizinha desesperada e do barulho dos socos na parede do elevador, fui dar uma pesquisada para saber o que estava acontecendo. Foi quando tive uma ideia da dimensão do estrago que os ventos de cerca de 100 km/h causaram na cidade. Primeira coisa a fazer: tentar saber notícias da família. Marido e filho em casa, ufa. Já meu irmão e minha cunhada ficaram no olho do furacão. Eles moram em São Conrado e estavam em Ipanema, no meio da rua, quando o vendaval chegou com tudo. Nos falamos rapidamente pelo celular dele, que avisou que estavam bem, apesar do "filme de terror" que presenciaram, com árvores caídas pelas ruas, pessoas correndo sem direção, outras tentando ir para casa de metrô, muitas voltando da praia. O dia havia amanhecido lindo no Rio, por isso tanta gente foi pega de surpresa. Metrô para eles não seria uma solução, estava fechado. E quem estava lá dentro (ai, minha claustrofobia) chegou a quebrar janelas após mais de uma hora encapsulado sob a terra, fechados no vagão, sufocados. Nessa hora eu já estava obcecada para ver mais imagens dos transtornos e tentar entender o que estava acontecendo. Tentei mais um contato com o meu irmão. Agora ele já não respondia. Pânico. Liguei para a Fernanda, minha cunhada. O celular dela ainda tinha um restinho de bateria, e eles estavam tentando pegar um Uber para voltar a São Conrado. Mesmo com tarifas exorbitantes (R$ 100 para um trajeto de cerca de R$ 35), estava difícil conseguir um. Eles se abrigaram numa padaria até o vento dar uma amainada e, com muito custo, conseguiram um carro de aplicativo pelo dobro do preço. Tudo muito tranquilo, se comparado ao estrago que a ventania causou, com 220 árvores derrubadas, 291 ocorrências e duas mortes. Enquanto escrevo esse texto, na manhã de quinta-feira (31) ainda há, segundo reportagem da Folha, 370 mil imóveis sem luz em outros bairros. Apesar do susto, nada de mal nos aconteceu. Mas aqueles gritos de socorro da minha vizinha… Uma angústia e uma sensação de impotência com as quais terei que lidar para sempre.
Jamais vou me esquecer dos gritos desesperados da minha vizinha em meio ao vendaval
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.