[RESUMO] Três prêmios Nobel de Economia vieram ao Brasil para participar de congresso sobre teoria dos jogos que começou no último fim de semana na USP, sinal inequívoco do prestígio internacional da organizadora do evento, Marilda Sotomayor, 82. A matemática, que pensava em ser professora primária na juventude, se tornou coautora de pesquisadores renomados dos EUA no início da carreira e se consolidou como um dos grandes nomes em sua área de pesquisa, trajetória que desperta debate sobre se deveria ter sido lembrada pela academia sueca. Alvin Roth, 74, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2012, faz lembrar o escritor e neurologista Oliver Sacks: além da barba grisalha, da calva e dos óculos, ele também tem a fala rápida e inteligente do autor de "Tempo de Despertar". Roth é um senhor simpático —prolixo e sorridente— que, ao que tudo indica, não gosta de perder tempo. Pelo menos uma testemunha da época em que Roth dava aulas na Universidade de Pittsburgh, nos anos 1980, relata que o pesquisador aproveitava o caminho entre a sua casa e o Departamento de Economia para fazer exercícios. Atrelava dois pesos aos tornozelos e levava outros dois nas mãos enquanto caminhava em ritmo acelerado até o campus. No fim de junho, Roth deu entrevista à Folha por vídeo, segurando o celular a um braço de distância do rosto. Enquanto respondia às perguntas, percorria a passos largos um circuito ao ar livre —em intervalos regulares, uma mesma árvore e uma construção em madeira passavam pela tela, ao fundo. A teoria que rendeu a Roth a maior láurea da sua profissão busca compreender transações que, por muito tempo, estiveram fora do escopo da ciência econômica. A pesquisa de Roth tem como objeto mercados sem preço, ou seja, mecanismos de alocação de recursos que prescindem da intermediação do dinheiro —justamente daquilo que, para a maioria das pessoas, caracteriza a economia moderna. Roth queria saber como funcionavam "trocas" em que um valor monetário não era bem-vindo ou não tinha muita utilidade: como se ajustavam as preferências de homens e mulheres entre si, nos casamentos, por exemplo; ou se era possível "casar" de maneira satisfatória e eficaz hospitais e residentes de medicina, empresas e candidatos a empregos; ou como fazer chegar, aos pacientes adequados, os rins dos doadores em potencial. O ramo da economia que ele ajudou a fundar, que explica e promove a melhor alocação mútua entre as partes interessadas, ganhou o nome de teoria do matching —palavra que significa pareamento, ou seja, um método para formar pares. Ao explicar e promover o melhor emparelhamento possível entre doadores e transplantados, por exemplo, Alvin Roth não apenas contribuiu para uma melhor compreensão da realidade, mas, talvez mais diretamente do que outros vencedores do Nobel de Economia, efetivamente fez o mundo funcionar um pouquinho melhor. Marilda Sotomayor é uma senhora elegante, de cabelos grisalhos. Aos 82 anos, a professora emérita da FEA-USP é esguia e tem o porte ereto. Ao receber a reportagem da Folha em um dia frio de inverno em São Paulo, portava xale e sobretudo. Marilda fala com muita clareza e mantém a voz um pouco mais alta do que seria necessário, como se estivesse dando uma aula, mesmo em uma conversa a dois. Nos anos 1980, quando ainda estava começando a sua carreira de economista matemática, Marilda foi pesquisadora visitante na Universidade de Pittsburgh. Ali trabalhou com Alvin Roth e o ajudou a organizar a teoria do matching. Os dois ocupavam salas próximas no Departamento de Economia. Roth diz que Marilda sempre foi uma matemática melhor do que ele. "Conversávamos sobre os problemas, e ela os provava", descreveu, com alguma generosidade, mas sem faltar com a verdade. Tanto assim que pediu a ajuda de Marilda para escrever, em coautoria, o livro que viria a legitimar e popularizar a teoria do matching entre economistas: "Two-Sided Matching: a Study in Game-Theoretic Modeling and Analysis" (pareamento bilateral: um estudo de modelagem e análise em teoria dos jogos). O espanhol David Pérez-Castrillo, 65, professor emérito da Escola de Economia de Barcelona, diz que a obra, publicada em 1990, é um caso raro na ciência econômica. Em geral, são os artigos que fazem a fama dos economistas e provocam guinadas teóricas na disciplina. Nesse caso, foi um livro. "Two-Sided Matching" trouxe para o campo teórico da economia uma série de problemas antes aparentemente incompatíveis com o modo de pensar tradicional da disciplina. A obra tornou Alvin Roth e Marilda Sotomayor conhecidos, famosos até. Pelo menos entre os economistas. Na conversa recente com a Folha, Marilda se lembrou com prazer do período, no final da década de 1980, em que, mesmo depois de ter terminado o pós-doutorado na Universidade de Pittsburgh, tomava um avião anualmente até os Estados Unidos para trabalhar na redação do livro ao lado de Roth. Enquanto desfiava recordações de quatro décadas atrás, Marilda relatou, sem muita ênfase, um diálogo que teve com o colega nessa época. Os dois estavam sentados à mesa, trabalhando juntos em algum problema, em silêncio. De repente, Roth levantou os olhos, virou-se para ela e disse: "Marilda, se um dia você ganhar o Nobel e eu não, vou ficar chateado". A professora da USP repetiu então o que o amigo teria dito, em inglês: "'I will be upset', ele disse. Ele achava que eu podia ganhar o prêmio, e eu disse: 'Não, jamais vou ganhar o Nobel'". Alvin Roth afirma não se recordar dessa conversa e a considera improvável. "Não acho que nós pensássemos muito no Nobel naquela época", argumentou. Mas, continuou, ainda que não tivesse dito a frase de que Marilda se lembrava, a ideia de que a sua coautora pudesse receber o Nobel não era absurda. "Suponha que eles tivessem dado o prêmio a três pessoas", comentou Roth, que, em 2012, dividiu o prêmio com o matemático Lloyd Shapley. Se o nome de Marilda tivesse sido incluído, "as pessoas não diriam que o comitê do Nobel tinha enlouquecido", afirmou. "Elas entenderiam que o comitê havia decidido premiar aquele conjunto de trabalhos" ligados à teoria do matching "e que tinham reconhecido a Marilda como parte dele". Marilda Sotomayor passou os últimos meses assoberbada com a organização de um congresso internacional de teoria dos jogos, o quarto do tipo que ela própria promove desde 2002. Ao todo, seis laureados com o Nobel de Economia confirmaram participação no evento, que começou no fim de semana passado na USP. Três fizeram palestras remotas, e outros três tomaram aviões para vir a São Paulo. "Acho difícil para um leigo entender o que significa reunir seis prêmios Nobel. É um sinal muito forte do quanto a Marilda é apreciada, do quanto todo o mundo gosta dela e admira a contribuição dela para a teoria econômica", afirmou Pérez-Castrillo, coautor de Marilda. Outras pessoas talvez se dessem por satisfeitas com a conquista de uma programação estelar para a conferência. Nos contatos com a reportagem da Folha, contudo, Marilda Sotomayor tratava a organização do evento mais como uma fonte de sofrimentos do que de alegrias. Os tormentos talvez derivem do fato de a professora da USP ser minuciosa e controladora. Um antigo colaborador, que ajudou Marilda na organização de outros congressos, descreveu a obsessão detalhista dela: ela organiza até mesmo o transporte de cada participante do aeroporto ao hotel, sem permitir que peguem táxi ou Uber livremente. Escolhe a programação, o hotel, o texto dos convites, os procedimentos de confirmação, os detalhes da cerimônia de abertura e do jantar de gala. Durante o evento, houve quem, assoberbado e estressado, jurasse nunca mais voltar a trabalhar com Marilda. Na relação com a imprensa, a economista matemática tampouco é a pessoa mais fácil e confiante do mundo. A princípio, só queria dar entrevista por escrito e exigiu de um outro organizador do congresso, procurado pela Folha, que fizesse o mesmo. Depois, cedeu e aceitou conversar. Na entrevista, contudo, Marilda foi simpática e generosa. Falou sobre a própria vida francamente, sem enfeites, por três horas e cinquenta minutos. Daria para ouvi-la, com prazer, pelo dobro do tempo. Um detalhe crucial da infância de Marilda é que a sua mãe era desquitada (o divórcio ainda não era legal) e o pai, ausente. Marilda, a mãe, dois irmãos e o avô materno moravam juntos no Jardim Sulacap, um bairro de classe média da zona oeste carioca, distante do centro e da zona sul. O avô era funcionário aposentado da Central do Brasil. Ajudava na cozinha e cuidava das crianças enquanto a mãe trabalhava como professora de matemática. Para complementar a renda, a mãe de Marilda também dava aulas particulares. À noite, costurava as roupas da família, "porque não tinha como pagar costureira". Seguindo os passos maternos, Marilda estudou para se tornar professora. "Casamento não é emprego", Maria Antonietta, a mãe, dizia desde cedo. Marilda gostava tanto de matemática que, mesmo depois de terminar a formação para lecionar em escolas primárias, não quis parar de aprender. Lamentava ter que "parar de resolver problemas". Decidiu continuar a estudar, agora na faculdade de matemática. Não era fácil, de toda forma, conciliar os estudos com o trabalho. Marilda dava aulas à tarde em Bangu. A faculdade era de manhã, no centro da cidade. Incluindo o tempo de deslocamento, no trânsito, os horários não batiam. Por sorte, ela diz, abriram um curso noturno de licenciatura em matemática na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Perto de terminar a graduação, lamentou mais uma vez que fosse parar de resolver problemas matemáticos. Foi salva por uma palestra à sua turma de faculdade feita pelo então diretor do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), centro de excelência mundial da disciplina, de que só então, prestes a se formar, ela tomava conhecimento. Marilda foi aceita no mestrado do Impa, um feito nada desprezível. "Fui aceita como orientanda do Elon Lages Lima, que é um figurão da matemática, famoso, escreveu vários livros e faleceu há poucos anos." Também no Impa, Marilda conheceu o seu marido da vida inteira, o matemático peruano Jorge Sotomayor, morto em 2022. O namoro foi rápido. "Um dia, ele me convidou para tomar sorvete. Eu fui. No segundo dia, ele me convidou para um jantar. Depois do jantar, sentamos em um banco de frente para a praia, no Leblon. Ficamos conversando. Eu estava animada, contando várias coisas. De repente, ele se virou para mim e disse: 'Vamos nos casar?'. Uma semana depois, ficamos noivos. No final de dois meses, casamos. Nosso casamento durou 52 anos." No meio do mestrado, Marilda foi convidada a dar aulas na PUC-Rio. Ela não considerava ainda a possibilidade de fazer doutorado. "Eu pensava que doutorado era coisa para gênio. O meu marido era doutor, tinha feito doutorado no Impa com 22 anos. Eu o admirava demais, era um dos maiores matemáticos na área dele aqui no Brasil." Ocorre que a faculdade começou a ser pressionada para ter professores doutores e repassou a pressão para o corpo docente. Marilda fez boa parte dos cursos do doutorado no Impa, porque a PUC mantinha uma parceria com o instituto de excelência em matemática. Quando terminou, viu que o doutorado ainda não era suficiente: queria ganhar independência científica, ser capaz de se colocar os próprios problemas. Seu orientador tinha trabalhado com David Gale, um matemático renomado que dava aulas na Universidade da Califórnia em Berkeley. Quem sabe não poderia conquistar autonomia intelectual por lá? Marilda mandou uma carta para Gale e pediu uma bolsa de pesquisa ao governo brasileiro. No início de 1983, mudou-se com o marido para os Estados Unidos. Duas décadas antes, no início dos anos 1960, David Gale havia concebido o problema que criaria a teoria do matching. Na época professor na Universidade Brown, ele se fez uma pergunta que parecia simples: será que haveria solução correta para o problema de alocar estudantes em universidades? Trata-se de um processo complicado nos Estados Unidos, em que as preferências das universidades por alunos não são óbvias nem dependem apenas das notas dos candidatos. Qual seria a solução correta, a mais satisfatória, para esse problema? A contribuição de Gale foi estabelecer um critério geral que independe das particularidades e dos gostos de cada um dos lados. Uma alocação de X estudantes em Y universidades será defeituosa, ele pensou, se existir um par —um indivíduo e uma escola— não pareado que se prefira mutuamente à combinação que lhe foi proposta. Dito de outra maneira: um pareamento é bom se for estável, se ninguém preferir um acordo independente melhor. Muito bem. A pergunta seguinte, típica de matemático, era: existem pareamentos estáveis ou, mais importante, é possível provar a sua existência? Gale não estava conseguindo responder. Dizem que enviou cartas para colegas com a questão, respondida afinal pelo matemático Lloyd Shapley. A solução de Shapley é muito bonita e elegante. No problema original, a quantidade de universidades é necessariamente menor do que a de estudantes: cada uma delas recebe dezenas de alunos a cada ano. Esse desajuste entre o tamanho dos dois grupos cria complicações desnecessárias, das quais Shapley se livrou transformando o problema em um pareamento um a um entre possíveis casais. Homens de um lado, mulheres de outro. Ele imaginou uma regrinha de "namoro", um procedimento em mais de uma etapa: cada homem faz uma proposta a uma mulher. A mulher pode aceitar temporariamente a proposta, mas, em uma segunda rodada, se gostar mais do novo proponente, está autorizada a trocar o "noivo" inicial pelo novo interessado. Após algumas rodadas, Shapley mostrou, o pareamento tende à estabilidade e ninguém mais quer trocar de parceiro. Pareamentos estáveis existem. Assim, de maneira quase prosaica, começou a teoria do matching. No futuro, transplantes de órgãos ou o funcionamento do Sisu (Sistema de Seleção Unificada, responsável por alocar candidatos do Enem em universidades no Brasil) se tornariam possíveis. O encontro entre David Gale e Marilda Sotomayor, no início da década de 1980, já foi tema de mais de um relato em revistas científicas. O mais recente apareceu em 2015 em um artigo de Pérez-Castrillo e Danilo Coelho, economista e pesquisador do Ipea. Marilda esperava dar continuidade, em Berkeley, aos estudos em economia matemática que havia desenvolvido no doutorado. No primeiro encontro com Gale, foi informada de que ele não estava mais interessado naquele assunto —fazia tempo, aliás. Em um segundo encontro, dois meses depois, Marilda tomou coragem e perguntou no que, afinal de contas, David Gale estava interessado. Qual o seu tema de estudos atual? "Teoria dos jogos", ele disse. Mais precisamente, matching. No terceiro encontro, semanas depois, o matemático disse à brasileira que não dispunha de nenhum problema que pudesse lhe repassar, como é comum nas orientações entre matemáticos. Frustrada, Marilda estava prestes a deixar o escritório, já na porta, quando Gale lhe propôs um lema (uma etapa relativamente autônoma, uma subseção de um teorema) em que ele próprio havia tropeçado. A proposição contida no pedaço de papel que Gale estendeu na direção de Marilda permitiria provar de maneira breve e simples, se estivesse correta, que, para quem faz as ofertas nos procedimentos de pareamento do tipo imaginado por Shapley (os homens, no algoritmo de namoro e casamento; os estudantes, no caso das universidades), a melhor coisa a fazer é falar a verdade —revelar de cara as suas preferências sem tentar manipular o sistema. A demonstração existente desse teorema ocupava cerca de 20 páginas. Com o lema, Gale calculava, sairia em três linhas. "A ideia veio, e demonstrei em um fim de semana", afirmou a brasileira. Na segunda-feira, ao entregar o papel a Gale, Marilda disse que o matemático hesitou. "Ele pegou aquele papel e olhou para mim meio incrédulo. Depois, entendi. Mulher, brasileira —havia um certo preconceito naquela época. Ele mesmo não tinha conseguido provar. Então, ele se virou para mim e disse: 'Demonstra aí no quadro'. Fui para a lousa e comecei a demonstrar. Quando estava quase chegando no final, ele começou literalmente a pular e bater palmas. Ele tinha 60 anos. 'Bravo, bravo, you proved it, you proved it!'" Marilda sairia de Berkeley, dois anos depois, com quatro artigos em coautoria com David Gale. Dali, foi para Pittsburgh trabalhar com Alvin Roth por recomendação de Gale. Além do livro-texto que se tornou referência, Roth e Marilda produziram outros dois artigos juntos nessa temporada. Roth afirma que o trabalho de Marilda com Gale foi muito importante para a sua pesquisa em matching. O trabalho de Marilda, ele disse, "certamente foi central para a compreensão" de por que procedimentos de matching funcionam. Todo esse sucesso acadêmico nos Estados Unidos não teve lá grande valia quando Marilda voltou para o Departamento de Matemática da PUC-Rio, no segundo semestre de 1985. "Quando cheguei à PUC, os meus colegas matemáticos me olhavam com o nariz torcido, porque não sabiam o que era a teoria dos jogos. Teve um que, uma vez, me perguntou se eu estava montando uma agência matrimonial" —por causa do teorema com pareamento de casais, de Gale e Shapley. Marilda se queixa também de não ter conseguido avançar na carreira e ser promovida a professora assistente logo na sua volta. Fez o pedido, formalmente, indicando que tinha cumprido o que era exigido para o cargo. "Foi negado. Resposta: gostamos de ver o seu currículo, um dia você chega lá." Marilda insistiu, pediu cartas de recomendação a Roth e a Gale e, afinal, conseguiu a promoção e o salário que pleiteava. A brasileira Deborah Menegotto, hoje professora da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, fez mestrado em teoria dos jogos com Marilda na PUC-Rio na segunda metade dos anos 1980 e depois seguiu para cursar doutorado em Harvard com apoio da matemática brasileira. À Folha, Menegotto disse que era possível perceber "que alguns professores no Departamento de Matemática não consideravam a pesquisa da Marilda tão importante quanto a deles". "A minha impressão era a de que muitos matemáticos naquele tempo no Brasil não se interessavam pela teoria dos jogos e por matching", afirmou, "talvez porque achassem essa área longe da matemática pura e mais perto da economia e das ciências aplicadas". O economista Vinicius Carrasco, que se dedicou a uma subárea da teoria dos jogos no doutorado, disse que esse campo só veio a ser incorporado ao mainstream da teoria econômica nos anos 1980. Matching, ele observou, era ainda mais marginal. Não à toa, Alvin Roth permaneceu como professor de Pittsburgh, em um departamento de economia de segundo pelotão, fora dos 30 melhores dos Estados Unidos, até o fim dos anos 1990, quando foi "promovido" a professor de Harvard. Um divisor de águas na atenção que pesquisadores e departamentos deram à teoria dos jogos foi o Nobel de Economia de 1994, concedido a John Nash, John Harsanyi e Reinhard Selten, os primeiros dessa subárea da economia a merecer a distinção. Dali por diante, foi uma chuva de láureas: uma dúzia de pesquisadores da teoria dos jogos viria a ser homenageada pela Real Academia de Ciências da Suécia. Depois que Roth se mudou para Harvard, Marilda Sotomayor também passou a ser sondada para dar aulas e fazer pesquisa nos Estados Unidos. No início deste século, a brasileira passou repetidas temporadas como professora visitante na Universidade Brown. Em certo momento, veio o convite para que se transferisse definitivamente para a Nova Inglaterra. Marilda recusou. Preferia ficar no Brasil. Há um grande privilégio, para um acadêmico, em poder escrever em inglês, frequentar seminários nos Estados Unidos e dar aulas por lá, afirmou Alvin Roth. "Acho que a Marilda seria mais conhecida se ela desse aula em uma grande universidade americana." Pérez-Castrillo se diz impressionado com o que Marilda conseguiu fazer do Brasil, sem as mesmas condições de pesquisa e a mesma qualidade de alunos e colegas. O economista disse que, mesmo a Espanha, onde dá aulas, "não é os Estados Unidos", mas a possibilidade de trocar ideias e fazer trabalho em equipe é maior do que nas universidades brasileiras. O quanto a decisão de permanecer distante dos centros de produção e debate pode ter prejudicado a carreira de Marilda? Entre os seus pares, pelo menos, a sua contribuição continuou a ser reconhecida. O economista Humberto Moreira, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas, no Rio, lembra-se de assistir a uma apresentação feita no início dos anos 2000 por Robert Aumann, um dos fundadores da teoria dos jogos, sobre o alcance e as diversas contribuições da área. A palestra era uma espécie de inventário das conquistas da teoria dos jogos. Na parte sobre matching, havia entre cinco e dez nomes —mais que cinco, menos que dez, Moreira já não lembra com exatidão—, aqueles que seriam os grandes teóricos da área. Marilda Sotomayor estava lá, nesse grupo, no slide da apresentação projetada por Aumann. O conjunto restrito do qual ela faz parte torna legítimas as discussões sobre o cabimento de um Nobel para Marilda, ainda que não se chegue a um acordo. "A Marilda é espetacular e merece todas as honrarias e homenagens", afirma Moreira, que, no entanto, não considera a sua contribuição para matching tão seminal quanto a de quem concebeu o problema (Gale e Shapley) ou lhe deu aplicação prática (Roth). Vinicius Carrasco, que foi aluno de Humberto Moreira, tem opinião semelhante: a seu ver, o trabalho de Marilda não valeria um Nobel. Carrasco lembra, de toda forma, que a contribuição da professora da USP para a teoria econômica é gigantesca, uma das maiores já feitas por um economista brasileiro. O espanhol Pérez-Castrillo considera perfeitamente cabível debater se Marilda deveria ou não ter recebido o Nobel. "Tenho bastante segurança de que o nome dela esteve na mesa" quando se discutiu o prêmio para matching. "Se você põe seis nomes na mesa ao falar de matching, o da Marilda está lá, com certeza." Matheus Assaf, professor de história do pensamento econômico da USP, chama atenção para o peso do gênero na trajetória de Marilda —talvez até maior do que o da nacionalidade. "Ser mulher afetou inteiramente a carreira da Marilda", ele diz. "Primeiro, na própria formação: ela começa como normalista e, depois de cursar a universidade, continua os primeiros anos da carreira acadêmica muito mais envolvida com o ensino do que com a pesquisa. O início da carreira é crucial na pesquisa em matemática, costuma ser quando os matemáticos fazem as suas principais contribuições." "Ela começa a carreira na Escola Normal, se preparando para dar aula para crianças, e termina resolvendo problemas para um grande matemático e um futuro Nobel de Economia", Assaf afirma. "Nessa discussão sobre se ela merecia o Nobel tanto quanto Roth ou Shapley, se pondera muito a contribuição científica, o que é natural, mas se considerarmos a 'dotação inicial' de cada um, a carreira da Marilda é muito mais impressionante. Roth começa o ensino superior em Columbia, Shapley, em Harvard, e a Marilda consegue contribuir trabalhando junto desses cientistas." Marilda Sotomayor afirma não ver problemas maiores em ter continuado no Brasil. Continua a ter contato com os seus pares ao ser convidada para seminários e palestras internacionais, ela diz. De resto, de tempos em tempos, reúne a nata da teoria dos jogos no Brasil, em congressos como o da USP. "Convido as pessoas, e elas aceitam na hora." A pesquisadora justifica a sua decisão de permanecer no Brasil, recusando convites da academia americana, com os mesmos argumentos usados para explicar o seu declarado desinteresse por prêmios acadêmicos. Tudo o que ela queria, a princípio, era poder ter um trabalho, uma profissão que lhe desse independência financeira, como a mãe lhe havia ensinado. "Queria ser professora. Fui professora de crianças. Em uma época em que essa era a única profissão aceitável para uma mulher." Mais tarde, Marilda queria, sobretudo, "problemas para resolver". Quando lhe ofereceram uma posição como professora na Universidade Brown, por exemplo, a economista diz ter pensado: "No Brasil, estou muito bem. Não tem nada que vocês vão me oferecer aqui que eu não tenha lá. O que eles podiam me oferecer? Só um grupo que trabalhava [com o tema], é verdade. Cientificamente, era melhor. Financeiramente, eu ganharia mais dinheiro. Mas para que queria ganhar mais dinheiro se tinha tudo o que queria? A diversão de um cientista é o computador".
'Jamais vou ganhar o Nobel': Quem � Marilda Sotomayor, brasileira refer�ncia em teoria dos jogos
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