Antes de vencer os 15 degraus de madeira que separam a calçada do restaurante, é melhor deixar as expectativas lá fora. O Fame Osteria não tem manobrista, letreiro na fachada ou qualquer uma das formalidades que costumam anunciar os endereços disputados de São Paulo. Apenas o número 216 na parede, à direita de quem chega, indica que a casa prefere o caminho da descoberta. Lá em cima, tudo obedece a um só compasso: cinco pessoas na cozinha e três no salão movem-se pelo espaço, cientes de cada passo. De terça a sábado, 16 comensais iniciam, pontualmente, o mesmo ritual: um menu-degustação que começa e termina junto para todo mundo. As criações do chef romano Marco Renzetti chegam à mesa sob o olhar atento de Erika, sua mulher, responsável pela harmonização. Ele conduz uma técnica rigorosa que dispensa enfeites; ela, sempre com uma surpresa guardada na carta de vinhos. Há uma precisão de pequena orquestra ou de peça teatral na experiência, embora o repertório escape do óbvio. A espinha dorsal é italiana, mas a cozinha não se restringe a fronteiras: viaja pelo Japão, flerta com a Espanha e incorpora referências de onde o casal encontra sentido para o prato e para a taça. Esqueça o conforto nostálgico da macarronada da nonna. Nesse ponto da rua Oscar Freire, a Itália se manifesta de forma moderna, em uma sequência estruturada como se fossem ondas: acidez, picância, amargor. O cardápio não deixa o paladar descansar. É uma cozinha viva, elaborada para tirar a boca da inércia. À mesa ou no balcão, acompanha-se o movimento da cozinha aberta, um quadrado de quatro metros de lado onde as receitas são executadas e finalizadas. Os ingredientes frescos obedecem a uma geografia ampla: o azeite vem da Mantiqueira; os queijos, do interior paulista e de Minas Gerais; e as frutas das sobremesas, do Nordeste. Os pratos mudam ao sabor do dia. Quase nada se repete. Na noite da visita, as 11 etapas da sequência (R$ 760) começaram com pães artesanais e uma copa-lombo de sabor persistente, curada pelo próprio chef. No meio do caminho, a lagosta rendeu-se ao molho de jerez, e a berinjela escondeu-se numa cumbuquinha entre cogumelos e milho. O porco ibérico chegou escoltado por tâmara, enquanto o arroz, com polvo e guanciale, transformou a noite fria numa peregrinação acolhedora que vale repetir —o prato, sozinho, já justifica a estrela Michelin que a casa recebeu. Na descida pelos mesmos 15 degraus, o vento lá fora já não parece tão gelado. Faz sentido: em italiano, fame significa fome. E o que o visitante leva consigo é a memória de como ela foi saciada. FAME R. Oscar Freire, 216, Cerqueira César, região oeste. @fame_osteria
It�lia se manifesta de forma viva e moderna no Fame, vencedor d'O Melhor de S�o Paulo pela primeira vez
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