Bar Luzon, cidadã israelense que vive em Cambridge, Massachusetts, nunca se considerou "uma pessoa ligada à política". Professora assistente de linguística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ela não votava em uma eleição de Israel desde que se mudou para os Estados Unidos para fazer pós-graduação, oito anos atrás. Mas, depois dos acontecimentos de 7 de outubro de 2023, disse que não podia mais ficar de braços cruzados. "Parece que o país não está funcionando, e isso é assustador", disse Luzon, 32. Ela citou o fracasso em conter rapidamente o ataque liderado pelo Hamas, a falta de uma visão que vá além de uma "guerra até o fim dos tempos" e as recentes tentativas de proibir partidos árabes de participar das próximas eleições. "Tenho muito medo do racismo do meu governo, do quanto ele odeia seus próprios cidadãos", afirmou. Agora, ela quer votar contra o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e seus aliados nas eleições desta terça-feira (27). Mas há um porém. Ao contrário de muitas democracias, Israel não permite que a maioria dos cidadãos vote do exterior. Por isso, Luzon cancelou aulas para atravessar o oceano e tentar fazer sua voz ser ouvida. Ela está longe de ser a única a fazer essa viagem. Uriel Guy, engenheiro de software em Nova York, lembrou que, em um jantar de Rosh Hashaná do qual participou no mês passado, "dos sete israelenses presentes, todos iriam votar". Será a primeira vez que Guy votará desde que se mudou para os EUA, em 2013.Ele pediu aos irmãos que vivem lá que escolham por ele entre os diferentes partidos de oposição, porque são eles "que realmente terão de conviver com as consequências". Segundo o Instituto de Pesquisa de Políticas Judaicas, com sede em Londres, cerca de 630 mil cidadãos israelenses vivem no exterior, o equivalente a aproximadamente 6% da população do país. A Coalizão Americano-Israelense pela Democracia, grupo que oferece apoio logístico e voos fretados a eleitores israelenses que vivem em outros países, anunciou na semana passada que esperava o retorno de mais de 50 mil pessoas para votar. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Em uma disputa tão acirrada —as pesquisas mostram empate técnico entre a coalizão governista e a oposição—, esses eleitores podem se mostrar decisivos. Em 1996, Netanyahu conquistou seu primeiro mandato como primeiro-ministro por apenas um ponto percentual. Mais tarde, um consultor político atribuiu a vitória, em parte, aos eleitores conservadores que viajaram ao país naquela ocasião para apoiá-lo. Em junho deste ano, a eleição presidencial do Peru foi decidida pelos votos vindos do exterior. Além disso, em um sistema parlamentar caótico como o de Tel Aviv, pequenas oscilações podem ter impactos desproporcionais. Em 2022, os partidos que compunham a coalizão de extrema direita do premiê obtiveram 48,4% dos votos, mas conquistaram 64 das 120 cadeiras do Parlamento porque dois partidos contrários a Netanyahu —um de esquerda e outro nacionalista árabe— ficaram pouco abaixo da cláusula de barreira para entrar no Knesset. O governo que estava no poder em 7 de outubro e comandou a resposta de Israel ao ataque havia chegado ao poder pela margem mais estreita possível. Para muitos que não votaram na última eleição israelense, aquele dia e suas consequências serviram como um alerta. "Os israelenses no exterior normalmente viviam em sua própria bolha", disse Jonathan Barsade, presidente da Coalizão AID, que atualmente adota um discurso apartidário, mas já apoiou protestos contra o governo Netanyahu. "Desde 7 de outubro, de repente, eles saíram dessa bolha." Em tese, israelenses espalhados pelo mundo, independentemente de sua orientação política, poderiam tentar influenciar o resultado eleitoral voltando ao país para votar. Mas israelenses seculares e com maior nível de escolaridade, que tendem a se inclinar à esquerda, têm mais probabilidade de ter se mudado para o exterior em busca de oportunidades de trabalho —ou como forma de protesto político— e também de poder arcar com a viagem de volta. Muitos dos que vivem fora do país estão ainda mais conscientes e alarmados com a deterioração da posição de Israel no cenário internacional. Yael Shomer, cientista política da Universidade de Tel Aviv, disse que os israelenses que deixaram o país nos últimos anos —bem mais de 100 mil, segundo dados oficiais— tendiam a ter formação acadêmica avançada e a vir de regiões liberais. "O Escritório Central de Estatísticas de Israel de fato analisa as características dos israelenses que deixaram o país", disse ela, "e sabemos, por meio de outras pesquisas, que essas características estão fortemente associadas a eleitores de centro-esquerda que apoiam os atuais partidos de oposição." Em outras palavras, a composição da comunidade israelense no exterior mudou —e também mudou quem se beneficia quando essas pessoas votam. Em entrevistas recentes ao The New York Times e a outros veículos, muitos israelenses que vivem fora do país disseram que pretendiam votar contra Netanyahu e seus aliados. Entre eles estava Amit Stern, 51, cidadão americano-israelense que se mudou para os EUA aos 6 e, desde então, vive entre os dois países. Depois de acompanhar o ataque do Hamas de sua sala de estar em Nova York, ele voltou a Israel em 2023 para ajudar sua antiga unidade do Exército, patrulhando a fronteira com a Faixa de Gaza durante várias semanas. Três anos depois, Stern retornará para votar contra a liderança do país. "Há uma enorme dissonância entre os israelenses como população e o governo que os administra", disse. Ele espera que a eleição dê poder a um novo governo composto por "pessoas mais íntegras", afirmou, e não por líderes que promovem divisões e "assustam as pessoas, como Bibi costuma gostar de fazer". Alguns israelenses no exterior sentem-se no dever cívico de votar. Outros expressam um profundo mau pressentimento quanto ao futuro caso o país não mude de rumo. "Se a atual liderança permanecer no poder, temo que milhares de israelenses deixem o país", disse Danny Peleg, ex-capitão das forças especiais israelenses que vive em Boulder, Colorado. "Israel deixará de ser um país democrático, e receio que as decisões sejam conduzidas por uma pessoa que teme ser presa" —uma referência ao julgamento de Netanyahu por corrupção, ainda em andamento— "e que as guerras continuem para sempre". Peleg e sua esposa têm dois filhos que vivem em Israel e outro que trabalha em uma embaixada israelense na Europa. Ele comprou as passagens aéreas assim que a eleição foi convocada. Os israelenses no exterior não constituem um bloco político sólido. Ricki Alon, empresária da Califórnia que chegou em Israel nesta semana, disse que votará em Netanyahu, apesar de ressalvas significativas. Ela afirmou considerá-lo o mais qualificado entre as opções disponíveis para conduzir o país, acrescentando que ele tem "mais experiência, capacidade e competência para administrar esta crise". No mês passado, um ex-rabino-chefe de Israel decidiu que expatriados religiosos —que tendem à direita— poderiam usar determinados fundos de caridade para viajar a Israel e votar em um dos partidos da coalizão de Netanyahu. Mas, na prática, tanto o governo israelense quanto a oposição entendem que, hoje, os eleitores no exterior têm maior probabilidade de apoiar os adversários do governo. Aliados do premiê criticaram os esforços para aumentar a participação eleitoral internacional. "A esquerda está agora tentando trazer multidões do exterior", disse Shlomo Karhi, ministro das Comunicações de Israel, a um programa de rádio em agosto. "Quem não vive aqui no país não deveria vir." Em maio, o partido Likud, de Netanyahu, ameaçou tomar medidas judiciais contra a Coalizão AID e, mais tarde, apresentou uma ação contra o grupo, alegando que sua aparência de neutralidade ocultava um objetivo partidário. O Likud retirou a ação neste mês, depois que a Coalizão AID concordou com diversas restrições às suas atividades. Nenhuma dessas manobras dissuadiu Luzon, a professora do MIT. "Tenho de fazer a única coisa que posso fazer, mesmo que seu efeito seja minúsculo", disse. "Quero estar lá para comemorar se conseguirmos substituir este governo horrível." E se isso não acontecer? "Passei muito tempo chorando nos últimos três anos. Prefiro fazer isso com meus amigos em Israel a fazer isso aqui sozinha."
Israelenses no exterior cruzam oceanos para participar da elei��o
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