Fuçar no computador made in Paraguai do pai era uma das atividades preferidas do pequeno Henrique nos anos 1980. Tempos depois, a brincadeira era invadir o wi-fi da vizinhança a bordo da Parati azul dirigida pelo irmão gêmeo. No sobrado na rua de paralelepípedo em Porto Alegre, onde moravam com os pais e as duas irmãs, os guris montaram uma lan house improvisada e consertavam computadores. "Tivemos liberdade para criar e investigar na infância", diz Henrique Dias dos Santos, 43, sobre o pai, metroviário, e a mãe, professora de história. Henrique foi estudar ciência da computação. O irmão, Augusto, tornou-se engenheiro de IA (inteligência artificial) na Austrália. Ana Helena, farmacêutica, e Juliana, médica. Todos formados pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na casa já não mora mais ninguém, mas os quadros na sala, como o dos irmãos com becas, e o encarte de jornal sobre a sua conquista lembram que educação foi prioridade ali. E foi em um almoço de família, em 2017, que Henrique e Ana Helena, a irmã do meio, tiveram uma conversa decisiva. A farmacêutica reclamava do pouco tempo para avaliar prescrições de medicamentos no hospital em que trabalhava. Isso porque, em um mundo ideal, antes de o remédio chegar ao paciente, o farmacêutico checa posologia, interações e sobredose. "Não dá tempo. E você chega em casa pensando: alguém morreu? E morria, todo dia morre", afirma Ana Helena Ulbrich, 45. No Brasil, seis pessoas morrem por dia por eventos adversos em hospitais, segundo a ONA (Organização Nacional de Acreditação), com base em dados da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de 2024. Falhas que, de acordo com o órgão, seriam evitadas com protocolos seguros. Foi quando Henrique decidiu mudar a rota do doutorado para propor uma solução prática para o problema da irmã, a partir de pesquisa para detectar eventos adversos em prontuários. Era o embrião do Instituto de Inteligência Artificial na Saúde, a NoHarm, que significa "sem dano". A dupla criou uma IA que analisa prescrições com base científica atualizada e alerta sobre riscos de dosagem, interações medicamentosas perigosas e alergias. Ou seja, reduz tarefas burocráticas e apoia a tomada de decisão de farmacêuticos clínicos. A Santa Casa de Porto Alegre abriu as portas para o piloto da NoHarm em 2020, quando Ana se dividia entre o projeto, dois filhos pequenos e a linha de frente durante a pandemia de Covid-19 em um hospital. Naquela época, o complexo formado por oito hospitais e 1.200 leitos conseguia validar apenas 1% das prescrições, priorizando UTIs. Em 2026, chegou a 100%. "A plataforma mostra se a medicação é via oral ou intramuscular e se alguém colocou um zero a mais na dose. Isso protege nosso paciente. E evita prescrições desnecessárias, gera economia", afirma Gisele Nader Bastos, diretora técnica médica da Santa Casa. Em um ano, 11 mil pacientes foram beneficiados. E a economia chegou a R$ 1 milhão ao aumentar a eficiência da equipe, otimizar processos e suspender medicamentos sem indicação. Resultou ainda na contratação de dez farmacêuticos, diz a diretora. “Antes da IA, nós validávamos 1% das prescrições. Não tinha braço. Agora são quase 100%. A inteligência não substitui o farmacêutico. Ela alerta, facilita, me dá tempo. Mas a decisão clínica ainda é nossa A NoHarm não cobrou, e diz que nunca cobrará, um centavo dos 118 hospitais públicos onde já instalou a plataforma, que tem código aberto. Em modelo híbrido de atuação, a startup cobra de clientes da rede privada —média de R$ 50 por leito— e pode assim financiar a operação no SUS (Sistema Único de Saúde). O contrato prevê a disponibilização de dados para pesquisa com universidades, melhorando a acurácia da IA. "O custo é baixo para hospitais privados e zero para o SUS. O mercado não consegue competir com essa nossa coragem de não querer ganhar dinheiro", afirma Henrique, sobre a escala que o negócio vem ganhando ao alcançar 136 clientes privados —entre eles Unimed, Hospital Santa Catarina e Mater Dei. "Essa inteligência nunca chegaria ao SUS se não fosse desse jeito", diz o gaúcho, que conta ter recusado oferta milionária pela compra da plataforma que, neste ano, alcançou 5 milhões de vidas impactadas. "Ouvi que, se não vendesse, iam copiar. Perguntei se queriam minha ajuda", afirma, autoconfiante como sempre. "Dizem que a gente é cria do Celso [pai], tudo justiceiro", brinca Ana, ao falar do servidor público que hoje é voluntário do instituto e ensinou aos filhos que, se estudaram a vida toda de graça, teriam que retribuir ao país. A NoHarm se converteu em fábrica de softwares, com diversos produtos em desenvolvimento, da gestão de leitos à decisão clínica. Um deles é um algoritmo que sumariza a alta e reduz a carga administrativa médica, com o apoio da Fundação Gates. Já no programa Juntos Pela Saúde, do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que investiu R$ 2,4 milhões com a Umane, a NoHarm chegou a 341 unidades básicas de saúde no Norte e no Nordeste. A farmacêutica explica como tomar remédio, onde buscar, como guardar, tudo o que ninguém tem tempo de explicar no hospital. É um cuidado particular. E, quando a gente sai, fragilizado, se emociona com o carinho e a atenção "São comunidades ribeirinhas, quilombolas e rurais que desafiam o SUS. Então a NoHarm trouxe computadores, banda larga e painéis solares para o software funcionar", explica João Pieroni, superintendente de Desenvolvimento Produtivo e Inovação do BNDES. Mais de 28 mil prescrições foram analisadas pela IA, que fica como legado para os 20 municípios da região. "É uma tecnologia que pode chegar ao Ministério da Saúde", diz ele. No ano passado, Henrique mudou-se para Capão da Canoa (RS), cidade litorânea onde vivem a irmã e seus pais. Mesmo ano em que a fama da NoHarm ganhava o mundo: Ana Helena foi eleita uma das cem pessoas mais influentes em IA no mundo pela revista Time. Feito que a fez lembrar de uma frase da mãe: "Ela me disse que somos muito mais do que tudo o que ela imaginou." Noharm em Números 250 hospitais usam a plataforma de inteligência artificial para analisar prescrições e dar alertas a equipes farmacêuticas 7 em cada 10 hospitais são do SUS, além de unidades básicas de saúde do Norte e Nordeste que recebem solução gratuita R$ 1 milhão em economia na Santa Casa de Porto Alegre em um ano e dez farmacêuticos clínicos contratados 22 milhões de prescrições analisadas pela IA e 5 milhões de vidas impactadas desde 2019
Irm�os criam f�brica de IAs para levar efici�ncia � sa�de e evitar erros em hospitais
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