Na manhã de 14 de dezembro de 2022, o ator Betito Tavares, então com 42 anos, saiu de casa para o trabalho, em Fortaleza. "Olhei meu irmão de costas, enquanto ele saía. Ele estava bonito e bem arrumado, com uma blusa branca. A gente não se despediu", conta a empreendedora Milena Tavares, 48. Betito não chegou ao trabalho. Horas mais tarde, a irmã recebeu uma ligação. "Disseram que ele tinha se matado." O desespero tomou conta da família, que há anos lidava com a esquizofrenia de Betito. Em seus últimos anos de vida, o ator pouco lembrava o jovem que, no fim dos anos 1990, saiu do Recife para o Rio de Janeiro em busca do sonho de fazer um curso de teatro e atuar na maior emissora de televisão do país. Na Rede Globo, Betito começou como figurante enquanto acompanhava a então namorada nos estúdios da emissora. Depois, foi chamado para um teste e conseguiu o papel de Cardosinho, o mais famoso de sua carreira, na novela "Coração de Estudante" (2002). Aluno de medicina que morava em uma república com outros rapazes, o personagem não era destaque, mas tinha certa relevância na trama das 18h. "Ele se sentiu realizado, a novela foi um sucesso", lembra Milena. Mas a carreira de Betito não deslanchou depois da novela, e ele fez apenas algumas pequenas participações na Globo. Segundo a irmã, ele se sentia boicotado e desprestigiado. "Ficou frustrado e foi para São Paulo, onde conseguia fazer mais trabalhos com publicidade." Ela diz acreditar que a falta de trabalho foi um estopim para delírios e mania de perseguição que o irmão desenvolveria mais tarde. Milena voltou a conviver com Betito em 2008, em São Paulo, quando ele fazia uma peça de teatro e uma novela na Band. "Eu e a minha mãe fomos ajudar meu irmão por causa da peça dele." A irmã conta que Betito sempre foi ansioso, mas naquele momento sentiu que ele havia mudado. "Comecei a perceber os primeiros sintomas. Ele estava diferente, falava coisas sem noção e mudava a personalidade", diz. "Chegou uma hora que eu e minha mãe ficávamos trancadas num quarto na casa dele, porque ele ficou totalmente agressivo, uma coisa mais verbal", acrescenta Milena, que ficou dois meses em São Paulo com a mãe. A situação de Betito depois piorou. Ele ficou desempregado, não achou trabalho e voltou para o Rio de Janeiro com uma namorada da época. "Quando fui visitá-lo, estava ainda mais diferente. Tinha alguns delírios, dizia que não podia falar muito porque estava sendo perseguido e havia câmera de televisão filmando ele", diz Milena. Começou então um período que Milena classifica como de decadência do irmão. "Ele já estava separado, sem dinheiro, e começou a pedir para morar na casa dos amigos. Mas estava muito difícil conviver com ele, ninguém aguentava muito tempo." Sem rumo, Betito chegou a passar um tempo na rua, conta a irmã. "Ele dormia na rodoviária ou lugares próximos, virou praticamente um mendigo por um tempo. A família ficou angustiada e sem notícias." O diagnóstico de esquizofrenia A família sabia que Betito estava doente, mas ele não admitia. Foi nessa época, em 2016, que uma amiga de Milena mencionou a possibilidade de esquizofrenia. "Percebi que batia muito com o que ele apresentava. Mas havia outro problema, que era conseguir levá-lo ao psiquiatra. A gente só conseguiu isso no ano seguinte, quando ele veio para Fortaleza e teve um surto", diz Milena. Depois de passar por avaliações médicas, Betito recebeu o diagnóstico de doença. A esquizofrenia é um transtorno mental que pode alterar a forma como uma pessoa pensa, sente e se comporta. Costuma se manifestar no fim da adolescência ou no início da vida adulta. Não há cura, mas existem tratamentos para controlar os sintomas, principalmente medicamentos antipsicóticos, que atuam em diferentes neurotransmissores. "A esquizofrenia costuma aparecer de forma gradual. No início, muitas vezes as pessoas não percebem. Quando ocorre o primeiro episódio psicótico, pode ser acompanhado pelos sintomas principais, que são os delírios", afirma o psiquiatra Mário Louzã, coordenador do Projeto Esquizofrenia (Projesq) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPq-USP). A esquizofrenia costuma aparecer de forma gradual. No início, muitas vezes as pessoas não percebem. Quando ocorre o primeiro episódio psicótico, pode ser acompanhado pelos sintomas principais, que são os delírios "Os delírios são ideias fora da realidade, de perseguição, desconfiança, coisas dessa ordem. Às vezes são coisas inverossímeis, como pensar que um marciano colocou um chip na cabeça da pessoa para controlar os pensamentos dela", acrescenta o médico. Um estudo feito por pesquisadores de Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), USP (Universidade de São Paulo) e UFPR (Universidade Federal do Paraná) com base nos dados de 2019 da PNS (Pesquisa Nacional de Saúde), os mais recentes, apontou que 547.202 adultos, com 18 anos ou mais, vivem com esquizofrenia no país. O número equivale a 0,34% da população adulta brasileira. Segundo os responsáveis pelo estudo, é a maior amostra nacional já usada para estimar a prevalência de esquizofrenia no país. A psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere, de prevenção ao suicídio, afirma que a esquizofrenia é um fator de risco psiquiátrico, mas que a doença, por si só, não explica o suicídio. Segundo ela, as consequências da condição, como isolamento e redução da autonomia, pioram o quadro. "Se a pessoa tem esquizofrenia e está pensando em fazer alguma coisa, ela pode pedir ajuda. Existe tratamento disponível. Ela não precisa lidar com isso sozinha", afirma Scavacini. A busca por ajuda Milena conta que Betito relutou em buscar ajuda no início. Depois, topou fazer o tratamento em Fortaleza, perto da família, mas diversas vezes abandonou os remédios e voltou para o Rio de Janeiro, onde ficava em pensões ou morava na rua. Nesse período, diz Milena, o irmão também começou a usar drogas. "Eu sabia que ele usava maconha desde o fim da adolescência, não sei se chegou a usar outras substâncias." O uso de maconha ou outras drogas é fator de risco para esquizofrenia em pessoas com predisposição à doença, segundo estudos sobre o tema. "Uma vez desencadeada a doença, ela segue o seu curso, mesmo que a pessoa interrompa o uso das drogas", afirma Louzã. Nos últimos anos de vida, Betito seguiu o tratamento. "Mas talvez já fosse tarde demais. Eu sinto que meu irmão já não era o mesmo, ele ficava muito para baixo e precisava viver dopado. No fim, ele ficou sozinho. Já não tinha mais amigos, não tinha namorada, só restou a família. Foi muito triste." Meses antes de morrer, Betito começou a trabalhar com o pai e passou a fazer acompanhamento em um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de Fortaleza. Nessa época, falava com frequência sobre suicídio, lembra a irmã. A família ficou preocupada e começou a observar o comportamento dele, até aquela manhã de dezembro de 2022, quando ele saiu para trabalhar e não voltou mais. Onde buscar ajuda CVV (Centro de Valorização da Vida) Presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato, pelo site cvv.org.br e pelo telefone 188 Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio Oferece grupos de apoio aos enlutados e a familiares de pessoas com ideação suicida, cartilhas informativas e cursos para profissionais vitaalere.com.br Abrases (Associação Brasileira dos Sobrevivente Enlutados por Suicídio) Disponibiliza material informativo, como cartilhas e ebooks, no site abrases.org.br; também indica grupos de apoio em todas as regiões do país
Irm� conta a hist�ria de Betito Tavares, ator que tinha esquizofrenia e morreu por suic�dio
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