Neste domingo (20), ao pôr do sol, inicia-se no calendário judaico o Yom Kipur, o Dia do Perdão, a data mais importante do ano. Chega após 40 dias de introspecção, arrependimento e reaproximação com o Todo-Poderoso. Yom Kipur exige um esforço pessoal na correção dos próprios erros. Se alguém ofendeu outra pessoa, isso não se resolve apenas com orações; o judaísmo exige que o procure e peça desculpas. A inteligência artificial está sendo cada vez mais utilizada e comentada. É uma megaferramenta que permeia praticamente todas as áreas —nenhuma escapa. Assim como existe um Yom Kipur anual para um exame de consciência honesto, deveria existir uma auditoria da IA, uma avaliação sincera do que a tecnologia fez e onde ela errou. Porém, o arrependimento precisa de consciência moral, algo que o ser humano tem e uma máquina não tem. Todavia, o judaísmo preza os avanços tecnológicos e valoriza a criação da IA. Diferentemente da antiga visão grega, o judaísmo acredita que o ser humano é sócio de Deus na criação deste mundo. O rabino inglês Jonathan Sacks ressalta a diferença entre os antigos mitos e a visão do Talmude (livro sagrado) sobre a criatividade humana. No panteão da mitologia grega, "Zeus queria que a arte de produzir o fogo permanecesse em segredo. Prometeu roubou faíscas do fogo dos deuses e as entregou aos homens. Como castigo, Zeus o acorrentou a uma montanha, onde uma águia devorava seu fígado". No Talmude, encontramos uma visão muito diferente: "Adão e Eva, após serem expulsos do Jardim do Éden, encontram-se na escuridão. Então, Deus lhes proporciona duas pedras e lhes ensina a friccioná-las para produzir fogo" (Pessachim 54a). O judaísmo nos ensina que o fogo (sinônimo de conhecimento) não pertence apenas a Deus. E a criatividade humana não precisa nascer de uma revolta contra Ele. Pelo contrário, a vontade divina é que o ser humano conheça, progrida e invente. O Criador criou um mundo incompleto, deixando para nós a tarefa de completá-lo. A IA é um belo exemplo disso. Deus nos brindou com inteligência e nos permitiu acumular conhecimentos, colher dados, armazená-los e organizá-los, produzir um gigantesco acervo em linguagem clara e pronto para ser explorado a cada momento. Porém, como toda tecnologia, a IA obviamente também tem suas imperfeições. É uma verdadeira faca de dois gumes: pode ser usada como bisturi ou como arma. A IA não tem valores ou emoções. Portanto, não pode substituir um terapeuta, uma namorada ou um melhor amigo. Para reduzir os riscos de manipulação e falsificação, será indispensável uma regulamentação adequada, com acompanhamento ético. O grande perigo da IA está na possibilidade de reduzir a capacidade humana de se empenhar, de pesquisar, pensar e deduzir —algumas das características que nos definem como seres humanos. No judaísmo, prezamos muito o esforço. O mundo material remunera a qualidade do produto final. No âmbito espiritual, porém, o esforço é profundamente valorizado e eleva a pessoa. Até mesmo os neurocientistas afirmam que precisamos treinar o nosso cérebro —a capacidade intelectual depende da prática e da experiência. Muitas pessoas usam de maneira equivocada a inteligência artificial para terceirizar a própria capacidade intelectual, prática que favorece a preguiça e reduz a vontade de se empenhar, de questionar e, sobretudo, de pensar por si mesmas. E é justamente neste ponto que chegamos ao Yom Kipur, que, com seus conceitos milenares pode nos servir de lente crítica. Segundo a tradição judaica, é o dia em que o Todo-Poderoso decide o destino da humanidade. É um momento de muita dedicação, de zelo espiritual, de reconexão com o Criador. Nesses dias de reflexão, esforçamo-nos ao máximo para reconhecer nossos erros e tomar boas decisões para o ano novo que se inicia. Empenhamo-nos também em multiplicar nossas boas ações, na esperança de sermos selados no Livro da Vida. Prometeu ensina que o homem se torna grande roubando o fogo do céu. O judaísmo nos ensina que o homem se torna grande quando se esforça para acender o seu próprio fogo. Yom Kipur nos lembra que não devemos esperar que tudo nos seja entregue pronto. O ser humano foi criado para transformar, construir e criar. Conforme o versículo: "Pois o homem nasce para o esforço". (Jó 5:7) Que o ano de 5787 seja um ano bom e doce. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Intelig�ncia artificial e Yom Kipur
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