Personalidade não se restringe ao Homo sapiens. Também é algo observado em diferentes insetos, como mosquitos, baratas, grilos, abelhas e formigas. Nesses minúsculos seres, a personalidade consiste em traços comportamentais únicos dos indivíduos, que respondem de diferentes formas aos estímulos, explica Ângelo Parise Pinto, professor do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Isso veio em contraposição à ideia de que esses seriam "minirrobôs que respondem a programas bem simples e rotinas que eles vão repetindo". O tema foi abordado, por exemplo, em um artigo publicado na revista Nature no ano passado. Pesquisadores observaram como 41 larvas de Aedes albopictus se comportavam de forma individual nas mesmas situações. Conclusão: havia diferenças significativas. Em um dos experimentos, os cientistas mediram quanto tempo as larvas passaram se movendo. Isso caracteriza um traço de personalidade chamado "atividade". Além disso, analisaram quanto os indivíduos eram exploradores, ou seja, quanto circulavam por áreas distintas em um novo espaço. Outro experimento calculou a "ousadia/timidez" do indivíduo ao observar quanto tempo as larvas levavam para emergir na água após estímulo ameaçador aéreo, ou seja, a disposição delas para se expor ao perigo. A pós-doutoranda do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Janiele Pereira da Silva conta que há cinco grandes aspectos que costumam ser estudados para personalidade de insetos. Além daqueles utilizados pelo estudo com Aedes, há a sociabilidade e a agressividade. Uma vez constatado que os insetos detêm individualidade, as pesquisas agora se debruçam sobre questões específicas, segundo a pós-doutoranda. Entre elas estão a evolução dos animais e os impactos da metamorfose na personalidade. Um exemplo disso é que há pesquisas que indicam que os indivíduos adultos não levam os traços de personalidade da fase de larva. Outros trabalhos, porém, sinalizam que os comportamentos das larvas ficam retidos na fase adulta. Segundo a pós-doutoranda, em campo, uma das dificuldades de investigar a personalidade de insetos é acompanhar o mesmo indivíduo. Nesse caso, é preciso fazer uma marcação para conseguir encontrá-lo de novo, já que para determinada resposta ser considerada personalidade deve haver repetição. Além disso, o pesquisador precisa esperar que a situação ocorra de forma natural para realizar a avaliação. No laboratório, onde é possível controlar o ambiente, essas dificuldades são menores. Mas há o risco de que os comportamentos observados sejam distintos dos que esses animais exibiriam se estivessem em vida livre. Entre seres sociais Silva explica que, no caso dos animais sociais, como formigas e abelhas, há personalidades no nível da colônia, das castas e também do indivíduo. Uma colônia pode ser mais agressiva do que outra e, por isso, atacar mais em situações de competição por alimento, exemplifica. A experiência e a interação com o ambiente têm papel importante na definição das diferenças individuais desses animais, de acordo com a pós-doutoranda, já que é comum que indivíduos de uma mesma colônia tenham genética similar. Raul Guedes, professor do Departamento de Entomologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV), acrescenta que as castas têm diferenças entre si de personalidade, uma vez que cada uma é especializada para determinada atividade. Dentro das formigas-cortadeiras, por exemplo, os soldados tendem a ser mais agressivos do que os demais grupos. Como há maior rigidez no sistema dos insetos sociais, a variação no nível individual pode ser menor, pondera Guedes. Mas, "se não for um inseto social, é um carnaval danado, porque não tem as funções muito pré-estabelecidas". Influência na evolução Um número cada vez maior de trabalhos soma evidências de que as personalidades de animais podem influenciar processos evolutivos, afirma o artigo sobre os mosquitos Aedes. Se evolução é a fixação de características na população que concedem a ela vantagens adaptativas, então algumas personalidades podem ser favorecidas ou não em determinado contexto, segundo o professor da UFV. "Talvez seja até importante essa variabilidade individual, porque você não sabe o contexto que vai prevalecer no futuro. Então, a diversidade, de certa forma, assegura que pelo menos alguns indivíduos naquela população vão conseguir lidar melhor com aquela situação." Uma pesquisa com duas populações de grilo da mesma espécie apontou que os machos submetidos a maior pressão de predadores apresentavam um nível menor de ousadia e, por isso, no laboratório, passavam mais tempo escondidos. Isso sugere uma adaptação local da população. Por que estudar personalidade dos insetos? Na área da ecologia, isso ajuda a entender o processo evolutivo de populações e como determinado grupo age dentro de seu contexto. O estudo da personalidade dos insetos pode contribuir ainda para o controle de animais considerados nocivos para humanos, como é o caso de pragas agrícolas e mosquitos que se alimentam de sangue e podem transmitir doenças. Um artigo científico mostrou que personalidade pode ter impacto na eficiência de inseticidas. Conforme trabalho publicado em 2013 na revista Plos One, os besouros gorgulho-de-milho com uma personalidade com o traço "atividade" acentuado, principalmente aqueles que andavam mais, tinham um tempo maior de sobrevivência em um campo contaminado com inseticida.
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