Inhotim guarda os tesouros e as contradi��es essenciais do Brasil

Inhotim guarda os tesouros e as contradi��es essenciais do Brasil

Eu estava olhando para o umbigo da Terra. Um buraco de 200 metros de profundidade captava os sons do subterrâneo. Fechei os olhos porque às vezes parecia que escapava uma e outra palavra dali, e eu tentei entender. Em vão. Seria preciso desaprender outras linguagens e alcançar uma percepção de vida e tempo suficientes para calar as outras vozes e ouvir o hipogeu. Logo depois fui transportada para o fundo do rio São Francisco. Cheiro de terra, medo, uma raiz imensa brotando de lá, sugando a água da poça que sobrava, o choro de uma carranca. Era o Tororoma que Guimarães Rosa anunciou em "A Terceira Margem do Rio". Até os escorpiões fugiam de lá, e eu saí pelo mesmo caminho.Quando vi, sem esperar, estava no alto do vale, diante de um esqueleto de concreto e ferro, curvo, traçando um caminho para ver o verde que seria infinito, se não fosse a cabeça da montanha vermelha e descascada pelas máquinas da mineração. Um eco de Niemeyer, mas com colunas abertas para deixar passar o vento e a luz. De um lugar para o outro os cheiros mudavam. O calor nas folhas e nos troncos espalhava um perfume adocicado, uma baunilha, às vezes um vento fresco e cítrico. Aqui cabem quatro Vaticanos, ouvi uma voz dizer. E eu pensei: quem são os donos dos nossos espíritos, os santos, os deuses, se não essas plantas, esses bichos, esse ar que alivia nosso insuportável peso humano? No próximo salto eu estava diante de Cosme e Damião em suas inúmeras versões. No dia deles, por coincidência. Uma sala cheia de duplos, não os borgeanos, o nosso duplo brasileiro que cura as crianças, que salva as alminhas do limbo, bondoso Cosme e piedoso Damião. O vermelho e o verde inundando a vista. Fomos perseguidos o caminho inteiro por umas borboletas azuis do tamanho das nossas cabeças. A primeira apareceu em um jardim onde plantamos letras e palavras. Eu plantei a consoante "S", de sonho, sina, sangue, sombra, sentido, som, saudade, silêncio. Parece um delírio, mas o que narro acima foi um dia no Instituto Inhotim. Só no seu aniversário de 20 anos pude estar lá, entendendo melhor um projeto tão imenso e brasileiro. É preciso abandonar muitas coisas na porta para entender um pouco, ao menos, o que a arte contemporânea tem a nos dizer sobre as perguntas infinitas da vida. Não temos como explicar as rotinas da natureza. Nem o que ela prepara para o futuro.Inhotim guarda os tesouros essenciais e as contradições brasileiras. Estávamos ao lado do lugar por onde desceu um rio de ferro, devastando Brumadinho. Plantas enormes e fortes abrigam as mais frágeis nos seus troncos. O tempo todo, o jardim inteiro, essa lição de sobreviver. E de humanidade. Citei aqui obras de Lais Myrrha, Dalton Paula, davi de jesus do nascimento, Marilá Dardot e Doug Aitken. Explodiram a minha imaginação. Se eu ficasse lá um tempo, escreveria um romance. Ouvir o umbigo do mundo, descer ao fundo do rio, ser perseguida por uma borboleta azul e gigante. Soube que, quando estavam construindo o Inhotim, os caminhões passavam e as pessoas cochichavam sobre o que seria aquilo. Lembrei a "Estranha Máquina Extraviada", do José J. Veiga. Inhotim é quase isso, um gigantesco território de sonhar. E o sonho dura mais que o tempo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.