Infraestrutura e o inimigo do sistema

Infraestrutura e o inimigo do sistema

Foi eleito governador do estado o deputado Juninho da Van, conhecido nas redes sociais por enfrentar o sistema. No Legislativo, passou dois mandatos enfrentando-o diariamente, em vídeos de um minuto gravados na rua, sempre onde o poder público falha: diante de um buraco, dentro de uma enchente, na inauguração de uma fuga de praça de pedágio, onde posava como protetor do povo contra a cobrança. Não aprovou uma lei sequer. Mas o enfrentamento, ao menos, está documentado. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Juninho não precisou de projeto para se eleger. Precisou de um celular. Não prometeu uma obra que melhorasse a vida de alguém: nenhum quilômetro de rede de esgoto, nenhuma linha de ônibus, nenhum corredor, nenhuma rodovia duplicada. Odorico Paraguaçu, o prefeito de Sucupira, ao menos prometeu um cemitério; Juninho não prometeu nem isso. Descobriu cedo que as redes sociais dispensaram o projeto e que a exposição, ainda que fútil, virou a forma de maior sucesso de fazer política. Dominou-a como poucos. Com um plano de governo em vez de um telefone, não teria chegado a lugar nenhum. Ele é contra a corrupção, e diz isso em todos os vídeos, sempre a propósito dos escândalos dos partidos adversários. Os aliados que o sustentam são políticos de carreira, e alguns deles respondem a processos por repasses do orçamento secreto a obras que nunca saíram do papel: pontes, quadras e postos de saúde cujo dinheiro chegou ao município, foi empenhado e desapareceu. Juninho finge que não vê. Com a câmera na mão, é fácil escolher para onde apontar. Na primeira semana, suspendeu a cobrança de pedágio na principal rodovia concedida do estado. A ideia não é nova. Um governador reduziu as tarifas por decreto e o Judiciário as restabeleceu. Um prefeito mandou retroescavadeiras derrubarem as cabines de uma praça urbana, e a cidade acabou pagando a conta. Outro estado deixou vencer as concessões sem substituí-las e, em poucos anos, as rodovias voltaram a ser o que eram antes delas. Juninho não leu nada disso. Os técnicos da agência reguladora tentaram lhe explicar que o contrato prevê reequilíbrio e indenização, que a duplicação em curso para, que a tarifa seguinte sobe para pagar a conta, que o investidor da próxima concessão passará a cobrar, na tarifa, o preço de ter o governador do outro lado da mesa. Ele ouviu, concluiu que era conversa de quem nunca enfrentou o sistema, e gravou um vídeo diante das cancelas levantadas da praça de pedágio. Meses depois, a agência reguladora aprovou o reajuste anual da tarifa. Seu presidente ainda acreditava na própria independência, coisa exótica entre as mais de 90 agências do país. O governador entendeu que o reajuste não devia ser aplicado, amparado na sua procuradoria, cuja filial dentro da agência já havia opinado que, em caso de divergência, prevalecia a posição do governador. Anunciou também que congelará as tarifas da estatal de energia que controla e da mobilidade urbana. Alguém devia lhe contar da medida provisória que, em 2012, baixou a conta de luz por decreto. A conta voltou com juros três anos depois, e o contribuinte pagou a diferença. Disse que não cederá às pressões do setor produtivo. Cumpriu: nenhuma concessão nova, nenhuma obra, nenhuma expansão de rede saiu do papel. Vai resolver o problema da dívida: pretende parar de pagá-la. Ninguém lhe contou que o Estado funciona porque rola a dívida todo mês e que, no dia em que parar, não haverá dinheiro sequer para a folha. Em seguida teve a ideia de suspender o pagamento de precatórios. Daí em diante, quem contrata com o Estado cobra um prêmio pela chance de não receber; e quem precisa investir antes de receber, que é o que se faz em qualquer concessão, simplesmente não comparece ao leilão. O leilão de saneamento marcado para o ano seguinte terminou sem propostas. Ele gravou um vídeo culpando o mercado. Sei que o jeito dele é objeto de preconceito. Dizem que não sabe segurar um talher, que não termina uma refeição sem sujar a camisa. Não é desconhecimento: é método. A camisa suja rende mais votos do que o terno. E o preconceito erra o alvo: o problema não é como ele se comporta à mesa, é como se comporta com o Orçamento. A esta altura o leitor já deve ter identificado Juninho com algum governador, prefeito ou presidente real. Não há um só. Há vários, e os vídeos continuam no ar, enquanto a rodovia segue em pista simples, a rede de água não chega ao bairro e o investidor foi para longe dali. O sistema, aquele que ele enfrenta, continua intacto. Quem não resistiu foi a infraestrutura LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.