Ind�stria negocia cotas para barrar produtos asi�ticos como rem�dio ao tarifa�o de Trump

Ind�stria negocia cotas para barrar produtos asi�ticos como rem�dio ao tarifa�o de Trump

Setores da indústria nacional afetados pela nova rodada de tarifas americanas pediram ao governo Lula (PT) que aplique cotas de importação a produtos asiáticos como calçados, pneus e móveis, afirma o presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira. A medida é apontada como uma saída para conter a "invasão" de produtos subsidiados e redirecionar a produção nacional, que perderá mercado no exterior devido às sobretaxas do governo Trump anunciadas nesta semana. "Começamos a reunião [com representantes do governo Lula] falando sobre importação e não sobre o problema da reunião, que era o tarifaço", afirmou Haroldo ao C-Level Entrevista, videocast semanal da Folha."Estamos numa mesa de negociação um pouco mais frágil", afirma, referindo-se às condições do Brasil de se livrar das novas tarifas, que têm base jurídica mais sólida do que aquelas derrubadas pela Suprema Corte em fevereiro. Por isso, o dirigente avalia que o governo Lula pode aceitar o pedido de imposição de cotas feito, segundo ele, por representantes dos setores de pneus, móveis, madeira, rochas ornamentais e fumo, nesta sexta-feira (17). Ferreira reconhece que a eleição deste ano está prejudicando as negociações. "A presença do candidato Flávio Bolsonaro lá deve ter atrapalhado um pouco o fluxo de negociação, e por isso pode ter acontecido esse tarifaço", afirma. Para ele, o socorro do governo às empresas afetadas é importante, mas paliativo, e o governo precisará ceder em alguns pontos para ampliar a lista de exceções: "O Brasil terá que ampliar a negociação e fazer alguma concessão para que o governo norte-americano retire essa tarifa." Qual foi a reação do setor de calçados ao tarifaço? Tínhamos uma pequena esperança de sermos incluídos na lista de exceções. Nas audiências de que participaram tanto a Abicalçados quanto outras cinco entidades norte-americanas, tudo o que se falou foi demonstrando a importância da indústria calçadista brasileira para o setor calçadista norte-americano. Vocês tiveram uma surpresa negativa, então. O que foi que deu errado? O que deu errado é que todos os argumentos apresentados, toda a parte técnica que foi feita e apresentada nas audiências da USTR [Escritório do Representante de Comércio dos EUA] não fez parte da decisão do governo norte-americano. O que o Brasil exporta para os EUA não chega a ser 1% do que eles consomem. Pode ser que pensem que, se o calçado brasileiro for taxado, o impacto na economia ou na inflação americana seja diferente do que outros produtos que entraram na lista de exceção. O setor tem um plano B para redirecionar as exportações? Qual a importância do mercado americano para vocês? O mercado americano é historicamente o principal destino das exportações de calçados brasileiros. Hoje, 20% de tudo que se exporta vai para os EUA. O importador dos EUA desenvolve um produto e manda para a empresa brasileira, que produz aquele modelo. Não posso nem comercializar no mercado interno e nem exportar para outro [país]. No tarifaço de 50%, os produtores brasileiros precisaram fazer um acordo com os importadores e praticamente dividiram o imposto: cada um pagou 25%. Só que isso não vai poder acontecer neste ano. A indústria não tem mais musculatura para bancar a metade ou uma parte desse imposto adicional. A Abicalçados se reuniu nesta sexta (17) com o governo federal. Qual é o pleito que vocês fizeram ao governo? O governo brasileiro vai ter que negociar para reduzir os 25% ou para incluir mais setores na lista de exceções. Essa é uma das saídas que se discutiu na reunião com o Mdic [Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços]. O que foi anunciado de medidas de proteção às indústrias atingidas é paliativo [...], o apoio por meio do Plano Brasil Soberano é um socorro para o primeiro momento. A indústria está sofrendo com uma invasão de produtos asiáticos, o que também faz com que a indústria nacional que exporta não consiga começar a aumentar [as vendas dos] seus produtos para o mercado interno. O aumento de importações está acontecendo no nosso setor: aumentou 15% no ano passado, e mais 15% até agora este ano. Os empresários afetados pelo tarifaço no ano passado também pediram cotas de importação. Acredita que será diferente agora? Acredito que sim. O tarifaço que foi derrubado pela Suprema Corte [dos EUA] é diferente do atual, que a Suprema Corte não consegue derrubar. Por isso que começamos a reunião falando sobre importação e não sobre o problema da reunião, que era a questão do tarifaço. A gente não está dizendo que não é importante o auxílio financeiro, também é importante, mas assim como é importante diversificar as exportações, também [seria importante] colocar um freio de arrumação nesse aumento expressivo das importações para ajudar a indústria a vender mais no mercado nacional. E quando se fala em Ásia, não adianta botar 50% de imposto de importação, porque o asiático, o chinês principalmente, vai baixar o preço do produto para invadir o mercado da mesma forma. Tem que ser por cotas, não existe outro remédio a não ser cotas. Essa posição é unânime na indústria? Pelo menos nesse rol de setores afetados [que participaram da reunião] é uníssono esse pensamento. No ano passado, quando os EUA aplicaram o tarifaço de 50%, o setor falou em perdas de até 15 mil empregos. Qual o balanço de agora? Não temos uma estimativa ainda de perda de postos de trabalho. Tínhamos uma previsão de perder 3,6% em valores exportados aos EUA neste ano. Com esse tarifaço, a queda será de 7%. Estamos trabalhando também com a nossa contraparte norte-americana, a FDRA [Distribuidores e Varejistas de Calçados da América, na sigla em inglês], porque também prejudica os negócios deles, para tentar barrar esse aumento ou conseguir que o governo estipule um teto no imposto de importação. Esse teto seria para todo mundo, não só para o calçado brasileiro. Qual é o teto que está sendo pedido pelos seus pares nos EUA? Esse número não está publicitado, não tem como abrir. É uma negociação entre a associação de lá e o governo americano, mas se sabe que não é tão alto quanto os que teremos a partir da semana que vem. O governo brasileiro foi intransigente nas negociações? Como avalia a condução das negociações? Não, eu não acho que o governo foi intransigente. O que eu acho é que tem que ter mais diálogo. Inclusive, a medida de imposição de imposto de reciprocidade é uma ferramenta para poder negociar, mas não para ser aplicada, porque isso vai piorar a possibilidade de uma negociação e não vai levar a lugar nenhum. Esse é o nosso posicionamento, de que não deve aplicar. O Brasil terá que ampliar a negociação e fazer alguma concessão para que o governo norte-americano retire essa tarifa. Não tem como nós acharmos que, numa guerra de braço, vamos ser vencedores. Não aconteceu nem com a China. O Brasil vai ter que ir para a mesa de negociação. Sabe-se do grande interesse dos EUA sobre as terras raras do Brasil. É nessa linha que o Brasil vai ter que chegar a algum acordo. Agora, não é entregar as terras raras. O Brasil tem que industrializar as terras raras, mas é isso que tem que ser negociado, não é simplesmente dizer não. O senador e pré-candidato à Presidência do PL, Flávio Bolsonaro (RJ), participou de audiências nos EUA. Essa interferência política atrapalhou a negociação? Sim, o fato de o Brasil ter um pleito eleitoral daqui a alguns meses tem influenciado. Todos sabemos o que o governo Trump pensa sobre o nosso governo. Isso pode ter piorado essa questão. A presença de Flávio deve ter atrapalhado um pouco o fluxo de negociação. O que o governo brasileiro tem que fazer é continuar dialogando. Não dá para misturar os temas, mas aparentemente foi misturado, e por isso que aconteceu esse tarifaço. Raio-X | Haroldo Ferreira, 59 Graduado em Administração pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, começou a trabalhar na indústria calçadista na década de 80. Atuou por 22 anos na Vulcabrás, gestora das marcas Mizuno, Olympikus e Under Armour. Desde 2019, ocupa o cargo de presidente-executivo da Abicalçados.

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